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50 anos do Golpe: o mistério das mortes de três líderes políticos brasileiros em apenas nove meses

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JUSCELINO KUBITSCHEK
Arquivo Agência Estado
50 anos do golpe de 64

Foram apenas nove meses. O mesmo tempo que se leva para gerar a vida humana correspondeu ao período em que três líderes políticos brasileiros morreram em circunstâncias nebulosas, durante o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), em plena ditadura militar.

O primeiro a morrer foi o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK, foto acima), em um acidente de carro na rodovia Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, em agosto de 1976.

Em dezembro do mesmo ano, o presidente deposto João Goulart (Jango, foto abaixo) morreu na fazenda La Villa, em Mercedes, na Argentina, pouco depois de tomar um comprimido para o coração.

joão goulart

Cinco meses mais tarde, no Rio de Janeiro, o ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda (foto abaixo) não sobreviveu a uma internação devido a uma gripe forte.

carlos lacerda

Antigos adversários, os três líderes haviam deixado de lado as divergências e se aproximado para tentar restaurar a democracia no Brasil, encerrada em 31 de março de 1964 com o golpe militar que depôs Jango. Todos eram monitorados de perto pelas polícias políticas das ditaduras do Cone Sul, por meio do acordo clandestino conhecido como Operação Condor. Essas ditaduras, por sua vez, contavam até então com o apoio integral do governo norte-americano desde os tempos do presidente Lyndon Johnson (1963-1969).

As mortes dos três líderes brasileiros ocorreram em um contexto de mudanças na relação dos Estados Unidos com a América Latina, por causa da campanha e eleição do presidente Jimmy Carter. “Havia possibilidade de transição e Carter falava em retirar o apoio às ditaduras do Cone Sul”, afirma o advogado Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que há mais de três décadas investiga a Operação Condor. “Esse cenário acabou por assustar os militares da região. Eles nunca admitiriam uma transição sem controle.”

Pelo contexto da época, é muito possível que JK, João Goulart e Lacerda tenham sido mortos. Um primeiro passo para elucidar essa parte da história recente do Brasil foi dado em novembro de 2013 quando o corpo de Jango foi exumado, a pedido da Comissão Nacional da Verdade, para a realização de exames que possam, finalmente, desvendar o mistério por trás de sua morte. Os resultados dessa perícia, que está sendo realizada por profissionais brasileiros e estrangeiros, ainda não foram divulgados.

Enquanto essas três mortes não forem esclarecidas, seguirão envoltas pelas brumas da dúvida.

O certo é que a morte dos três líderes políticos brasileiros seguirá envolta pelas brumas da dúvida enquanto não forem esclarecidas. “É um desafio à democracia brasileira. Precisamos reexaminar estes casos, até, quem sabe, para chegarmos à conclusão de que, sim, foram mortes naturais”, diz Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, aquele que investiga a Operação Condor há mais de três décadas.

Leia a história completa dos desaparecimentos misteriosos de JK, Jango e Carlos Lacerda na reportagem A pergunta que não quer calar, da revista Brasileiros.

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