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Censura da Turquia às mídias sociais pode afastar investidores estrangeiros

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TAYYIP ERDOGAN
OZAN KOSE via Getty Images

ISTANBUL - Quando o combalido premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, bloqueou o Twitter na semana passada, Deniz Oktar, 29, presidente e co-fundador de duas empresas iniciantes de tecnologia, ficou preocupado. Depois de o governo se preparar para bloquear o YouTube na quinta-feira por motivos de segurança, Oktar diz que começou a temer pelo pior.

“Consegui meu último cliente pelo Twitter”, diz ele, sentado no seu eclético escritório no campus da Universidade Técnica Yildiz, onde uma série de outras empresas de tecnologia estão baseadas. “O que acontece se o Google for bloqueado? E o que acontece se derrubarem a internet?”

Oktar faz parte de um grupo crescente de empreendedores digitais da Turquia. Ele tem uma pequena equipe, em sua maioria jovens turcos, que desenvolve software para empresas dos Estados Unidos. Seu cliente mais recente é uma startup do Massachusetts Institute of Technology, o MIT.

Há anos a Turquia vem tentando incentivar empresas inovadoras, fornecendo pequenos empréstimos e recursos para pesquisas. Parte do trabalho de Oktar foi financiado com recursos públicos. Em 2012, o presidente Abdullah Gul esteve no Vale do Silício cortejando empresas como Twitter e Microsoft. Gul também disse que a Apple Store que será inaugurada em Istambul vai “atrair a atenção do mundo”. Mas movimentos recentes de Erdogan e seu governo podem atrapalhar o crescimento da cena de startups do país e assustar os investidores estrangeiros, dizem analistas.

“Sem dúvida os investidores estrangeiros têm medo do que está acontecendo”, diz Bayram Balci, um pesquisador visitante do Carnegie Endowment for International Peace. “A Turquia era uma ilha de estabilidade antes dos protestos [antigoverno] do Parque Gezi, mas o que vemos agora é que a Turquia não é mais aquele mercado estável de antes.” É “o começo de algo sério”, diz Balci.

Erdogan lançou sua guerra contra o Twitter em uma tentativa de impedir vazamentos de gravações que supostamente o envolvem num enorme escândalo de corrupção. Uma das gravações parece mostrar Erdogan pedindo que um filho esconda milhões de dólares em dinheiro vivo. Ele se voltou contra o YouTube quando apareceu uma gravação em que autoridades turcas supostamente discutem operações militares na vizinha Síria. O papel da Turquia na guerra civil da Síria é um assunto controverso, e muitos afirmam que Erdogan apoia rebeldes islâmicos radicais dentro das fronteiras turcas.

A proibição do YouTube veio dias antes das eleições municipais marcadas para domingo. A votação é considerada um referendo de Erdogan e seu partido, no poder há 11 anos. “Twitter... mwitter”, disse Erdogan a milhares de seus apoiadores na semana passada. “Não me importa o que diz a comunidade internacional. Todos serão testemunhas do poder da República Turca.”

Os 10 milhões de usuários turcos do Twitter ainda conseguem acessar o serviço por meio de servidores de nome de domínio (DNS) e redes virtuais privadas (VPN). Mas há um temor generalizado de que o governo considere as mídias sociais e a tecnologia os “inimigos”. Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores disse que as gravações vazadas seriam uma “declaração de guerra” contra o país.

Erdogan acusa Fethullah Gulen, um clérico islâmico que vive nos Estados Unidos e tem um enorme número de seguidores ao redor do mundo, de querer desestabilizar seu governo com o vazamento do que seriam vídeos e gravações forjadas. A batalha entre os dois ex-aliados provocou uma divisão dramática entre seus respectivos apoiadores e tem servido de combustível para a polarização do país. A confusão tem afastado alguns investidores estrangeiros, de acordo com especialistas e empreendedores.

Sevin Ekinci, uma economista turca que dá consultoria a estrangeiros interessados em investir no país, diz que, se fosse investidora, não colocaria dinheiro numa empresa turca. “Proibir o Twitter é uma medida extrema”, diz Ekinci. “Minha expectativa é que as coisas piorem.”

Explicando como a proibição das mídias sociais afeta as empresas digitais, Oktar fala de um post do Hacker News, um fórum popular entre as startups tecnológicas. “Estive lá a negócios em 2010 e disse: ‘Cara, as coisas estão acontecendo neste país’”, começou o post. “Mas tudo foi ladeira abaixo desde então”, continua o post. “Não chegaria perto por enquanto.”

Não são só as medidas contra o Twitter e o YouTube que preocupam Oktar. “Quando há protestos, nenhum dos meus funcionários está aqui”, diz ele, citando as recentes manifestações contra o governo. “A estabilidade é muito importante. Nossos clientes sabem que o que está acontecendo não será um grande problema. Mas os clientes mais novos, que não nos conhecem tão bem, estão muito preocupados.”

Oktar diz que sua conexão com a internet, como a de muitos turcos, tem estado mais lenta que o normal, com mais falhas – e ele duvida que seja coincidência. Além da perseguição aos serviços de mídia social, há boatos de que a internet vá ter a velocidade reduzida drasticamente, ou até mesmo derrubada.

Internet rápida é essencial para trabalhar, diz Oktar, e sem isso tarefas diárias como conectar-se com os clientes americanos via vídeo ficam complicadas, o que custa tempoi e dinheiro. Muitas empresas têm encontrado dificuldades para usar o serviço de medição de audiência Google Analytics.

Agora, a equipe de Oktar está discutindo maneiras alternativas de acessar a internet. “Tenho de gastar tempo isso”, diz ele. “É absurdo”. “Talvez a Turquia tenha a próxima geração de gênios porque vamos aprender tanto com essa situação’, diz ele, rindo da ironia. “Até minha mãe sabe o que é uma VPN.”