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#NãoVaiTerCopa: mesmo menores, protestos no Brasil vão dividir atenções com jogos do Mundial

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Black blocs agem em manifestação contra a Copa no início do ano em SP | Leo Martins/Frame/Estadão Conteúdo

A 30 dias da Copa do Mundo, o fantasma do movimento #NãoVaiTerCopa persiste. Enquanto boa parte dos brasileiros estiver assistindo aos jogos, diferentes grupos vão empreender protestos contra o Mundial. Ciente de uma possível reprise de junho de 2013, o governo federal se prepara para reprimir possíveis atos de vandalismo e impedir que a imagem do Brasil fique abalada diante de turistas e imprensa estrangeira.

"É certo que haverá manifestações, mas não conseguimos vislumbrar qual será a magnitude delas", afirma o cientista político Carlos Melo, do Insper, de São Paulo. Ele explica que, hoje, setores da população descontentes conseguem se conectar mais facilmente, por meio das redes sociais, e se articulam em atos no mundo inteiro, como Primavera Árabe, Occupy Wall Street e o #vemprarua no Brasil.

Atualmente, diversos coletivos planejam protestos em todo o País. No Rio de Janeiro, a Frente Independente Popular convoca um "grito artístico" contra a Copa por meio de um festival de performances e intervenções culturais, que será promovido na sexta-feira (16).

Em São Paulo, o próximo ato será na quinta-feira (15), organizado pelo Comitê Popular da Copa SP. A comissão que se diz apartidária lidera uma frente "internacional de lutas contra a copa da FIFA".


O universitário Fabrício Mendes, 20 anos, promete participar dos novos atos do #NãoVaiTerCopa em São Paulo, inclusive durante a Copa. Militante do Movimento de Moradia para Todos, ele critica os gastos bilionários para realizar a competição e as desapropriações ocorridas para construir estádios. "A Copa neste momento não é tão necessária; o Brasil deveria ter outras prioridades no momento, como moradia e saúde para a população", argumenta.

Entretanto, a adesão aos protestos, nos eventos marcados pelo Facebook, é bem menor que a registrada nas manifestações do ano passado. Até a publicação desta reportagem, pouco mais de 3,5 mil haviam confirmado presença no ato de São Paulo e mil, no Rio. Uma média de duas mil pessoas tem ido às ruas na capital paulista nos atos organizados neste semestre, conforme o Brasil Post apurou anteriormente.

Esse número de manifestantes é bem menor que em junho do ano passado, quando cerca de 100 mil participaram dos protestos só em São Paulo.

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Protestos no exterior

O Comitê Popular da Copa preparou relatório em inglês para espalhar lá fora uma mensagem bastante pessimista sobre o Mundial. De acordo com o documento, o legado da Copa de 2014 é a morte de operários, a exploração sexual de crianças e adolescentes, a violência contra moradores de rua e a expulsão de 250 mil pessoas da área onde moravam devido à construção dos estádios.

O grupo que se identifica como Cruz Negra Anarquista de Rio de Janeiro está fazendo um "tour" europeu contra a Copa do Mundo. O coletivo já passou pela França, Alemanha, Bélgica, República Tcheca e Polônia para explicar a militantes estrangeiros os conflitos sociais no pano de fundo do Mundial.

Ontem (12), um protesto violento ocorreu em Berlim. A Embaixada do Brasil na Alemanha, sediada na capital alemã, foi alvo encapuzados de um grupo radical de esquerda. A embaixada foi apedrejada, e os responsáveis publicaram um manifesto na internet informando que o ato era contra os gastos excessivos da Copa.

Para o cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB), as manifestações no Brasil serão piores neste ano, em relação à Copa das Confederações, no ano passado. "O mundo inteiro vai ficar observando – o que é um incentivo aos protestos grandes, amplos e até violentos", explica.

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Estratégia de desmobilização

Para evitar o caos gerado pelas manifestações, o governo federal trabalha em duas frentes. A primeira é o aparelhamento das forças de segurança para garantir a repressão do vandalismo (leia mais abaixo). A segunda é a estratégia de desmobilização dos protestos de rua.

As autoridades de Brasília tentam imprimir à Copa o caráter festivo, típico da época de competições, no intuito de minimizar as ações contrárias a ela. "O futebol faz parte da identidade nacional dos brasileiros", afirma o Ministério do Esporte, em nota enviada ao Brasil Post ontem (12). "Quando as delegações começarem a chegar, quando se aproximar o início do campeonato, vamos ter clima de festa no País e não haverá espaço para protestos violentos."

O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, havia defendido no início de março que o número de atos diminuiria durante o Mundial. "As pessoas vão estar mais preocupadas em fazer uma festa, em celebrar, do que propriamente em protestar", disse em entrevista à BBC Brasil.

Além do discurso festivo de unidade nacional, os governos federal e estaduais lançarão mão de outros artifícios para esvaziar os protestos. "Serão decretados pontos facultativos ou feriados para tirar as pessoas da rua; assim, se alivia a pressão", avalia o cientista político Carlos Melo, do Insper.

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Repressão contra o vandalismo

O governo calcula um gasto bilionário com a segurança da Copa. O dinheiro será aplicado na proteção dos estádios, delegações e jogadores. Mas a repressão aos manifestantes mais exaltados também está no escopo das ações consideradas prioritárias pelo Palácio do Planalto.

"A violência, a depredação de patrimônio e os saques são proibidos por lei e não podem ser tolerados", afirma a assessoria do Ministério do Esporte, em nota enviada ao Brasil Post. O ministério ressalta que o direito às manifestações será respeitado, contanto que a população vá às ruas "pacificamente".

Segundo o site G1, as polícias militares aumentaram o estoque de armas não letais visando à Copa. De junho de 2013, quando eclodiram as manifestações, a abril deste ano, mais de 270 mil granadas e projéteis de gás lacrimogêneo foram comprados.

Parcerias com órgãos de segurança estaduais e de outros países foram firmadas pelo governo federal. "O Brasil já provou que tem instituições à altura desse desafio [segurança da Copa do Mundo] a partir da realização, com sucesso, dos grandes eventos no ano passado, como a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude", destaca o Ministério do Esporte.

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