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A trilha sonora de "A Culpa É das Estrelas" pode ser o "Clube dos Cinco" desta geração

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Este texto inclui alguns spoilers sobre “A Culpa é das Estrelas”.

Para a geração atual de adolescentes, é provável que a trilha sonora de “A Culpa é das Estrelas” criada por Season Kent venha a ser tão fundamental quando foram para os teens dos anos 1980 os álbuns produzidos para “O Clube dos Cinco” e “Digam o Que Quiserem”. A veterana supervisora musical convocou vários grandes artistas para a adaptação dirigida por Josh Boon do best-seller de John Green, entre eles Ed Sheeran, Charli XCX, Grouplove e M83, conferindo à trilha de “A Culpa é das Estrelas” o clima de um verdadeiro evento para os “tweens” e jovens do milênio de todas as idades. A trilha sonora já saiu pela Atlantic Records, e Kent – cujo currículo diversificado inclui "The Fighter", "Entourage", "End of Watch", “MacGruber" e "The Spectacular Now" – falou ao HuffPost Entertainment sobre como foi montar o álbum.

"All of the Stars", de Ed Sheeran


A canção é a primeira que toca durante os créditos finais do filme.

Kent: A gente sabia que o disco dele estava para sair e que ele estava ocupado, mas Ed estava super entusiasmado com o filme e queria fazer parte dele. Ele nos deu esta canção, e ficamos boquiabertos. "All of the Stars" encarna tudo do filme, e Ed nem o tinha visto ainda. Foi uma coisa perfeita para nós. Depois de ouvir a canção, não tivemos dúvida: sabíamos que seria a canção para os créditos finais. Na verdade, foi a única canção possível para os créditos finais. Depois que o filme termina, você precisa de um instante. Precisa respirar. Esta canção chega realmente tranquila e facilita essa transição. É emocional, doce e também triste, mas mesmo assim deixa o ouvinte mais positivo. Era sobretudo isso que queríamos garantir que as pessoas sentissem quando saíssem do cinema.

"Simple As This" by Jake Bugg


"Simple As This" é ouvido no início do filme, quando Hazel (Shailene Woodley) está esperando que Gus (Ansel Elgort) a ligue de volta.

Kent: Antes de meu primeiro encontro com Josh, eu tinha reunido um grupo de músicas que coloquei num flash drive. Meu plano era ir à reunião e ver se eu estava na mesma sintonia musical que ele em relação ao filme. Se sim, eu lhe daria o flash drive com todas as ideias que eu tinha tido; se eu estivesse totalmente em outra, não mostraria o flash drive. Josh se sentou comigo e a primeira coisa que falou foi: “Sabe, obrigado por colocar 'Song for Zula', de Phosphorescent, em 'The Spectacular Now'. Amo esse filme. Adoro essa canção. Eu queria usar essa canção é ‘A Culpa é das Estrelas’.” Foi engraçado. Percebi na hora que seríamos amigos. Que a gente se daria bem. Foi imediato.

Fui contratada para trabalhar no filme em maio de 2013, e só começamos a filmar em agosto do ano passado. Mas passei o verão inteiro fazendo playlists para Josh. Veja algumas coisas legais, animadas, divertidas. Veja algumas músicas tristes. Estes são alguns duetos. Este é o material novo que ando ouvindo. Eu o ficava alimentando com músicas, e ele já é viciado em música de qualquer maneira. A canção de Jake Bugg fazia parte daquelas músicas iniciais. Acho que nosso editor o tirou de meu flash drive e o colocou naquela cena.

A canção saiu do primeiro disco de Jake Bugg e nunca antes foi licenciada. Somos os primeiros a usá-la. Com isso, é quase como se fosse uma canção original. Acho que fui eu que apresentei a música de Jake a Josh Boon. O que é bacana de Jake Bugg é que ele é um artista jovem, emergente, mas tem um som que parece um soul antigo, que funcionou muito bem com nossa história.

"Let Me In" by Grouplove


A nova canção do Grouplove é ouvida quando Hazel descobre que vai para Amsterdã com Gus.

Kent: Haviam certas cenas que a gente sabia que precisavam de canções originais. Não tínhamos encontrado nada que a gente gostasse. E queríamos coisas novas. Algumas das cenas precisavam de música nova, feita especialmente para elas, e era o caso desta cena.

Surgiu a ideia do Grouplove. Éramos todos fãs. A banda veio à Fox, e passamos o filme para ela. Depois disso, eu e o executivo musical da Fox, Patrick Houlihan, nos sentamos com a banda e lhe mostramos a cena outra vez. Dissemos: “Veja, há certas coisas que a música precisa fazer. Hazel acaba de descobrir que vai para Amsterdã, então a canção não pode ser um choque. Mas ela precisa explodir quando vemos Gus saindo da limusine. Esse tem que ser aquele momento de ‘diga qualquer coisa’.” Foi o que dissemos para a banda. Ela fez um trabalho incrível, criou duas canções para nós, e tivemos dificuldade em escolher qual delas usar, porque gostamos das duas.

"Tee Shirt" by Birdy


Primeira das três músicas de Birdy que estão na trilha sonora, "Tee Shirt" é ouvida depois da faixa de Sheeran, nos créditos finais.

Kent: Quando a gravadora Atlantic resolveu trabalhar conosco, Birdy foi uma das primeiras artistas que achamos que seria perfeita para o filme. Ela tem 17 anos e tem uma voz incrível, triste, penetrante. Nós a enxergávamos no filme, e ela criou uma música imediatamente. Foi "Not About Angels" [que aparece mais tarde na trilha sonora], e ela nos mandou a música sob a forma de um demo bem inacabado. Como ela já tinha trabalhado antes com Dan Wilson, pensamos em colocá-la com Dan para fazerem uma sessão juntos para criar a letra. Somos grandes fãs das letras dele, ele já escreveu sucessos enormes para Dixie Chicks, para Adele e suas próprias coisas. Os dois se reuniram por alguns dias e propuseram três canções. Uma delas foi "Tee Shirt". Outra foi "Best Shot" [também aparece no álbum]. A terceira não aparece na trilha sonora. Das três que ela fez com Dan Wilson, "Tee Shirt" foi uma das favoritas de Josh. Acho que vão criar um single com ela. É uma música diferente para Birdy. É positiva, é realmente doce. Acho que realmente dá para ligar a letra ao amor adolescente.

"All I Want" by Kodaline


Depois de ajudar o melhor amigo deles, Isaac (Nat Wolff), a vingar-se de uma ex-namorada, jogando ovos no carro dela, Hazel e Gus se beijam.

Kent: Nosso editor assistente, Greg Borkman, que é amigo de Josh e trabalhou no último filme dele, falou que queria ver se "All I Want" combinaria com o filme. Acho que ele e Josh juntos pensaram e decidiram em que parte do filme a canção poderia funcionar bem. É uma cena em que normalmente você esperaria uma música mais divertida: afinal, estão jogando ovo num carro! É engraçado! Mas a música é realmente emocional, comovente. É nessa parte do filme que eu fico toda comovida. Não consigo explicar, é como se eu fosse estourar. Acho que é isso que a música faz comigo.

"Long Way Down" by Tom Odell

Depois de ajudar o melhor amigo deles, Isaac (Nat Wolff), a vingar-se de uma ex-namorada, jogando ovos no carro dela, Hazel e Gus se beijam.

Kent: : Inicialmente, tínhamos música da trilha para essa parte. Mas pensamos que devíamos tentar com uma canção pronta. Parecia ser esse tipo de momento. Pensamos em algo muito suave, muito leve. É como o início das canções emotivas, mas tínhamos que fazer com inteligência. Não podia ser triste ou dark demais, porque ainda estamos na fase inicial do filme. Eu sou fã total do Tom Odell, o adoro. Acho ele um grande compositor. Acho a voz dele perfeita para este filme. Esse foi um tema mais ou menos geral com este filme: queríamos algo interessante e que parece fazer parte do filme. Propus essa canção a Josh, junto com várias outras. Quando ele viu a lista, escolheu Tom Odell na hora.

"Boom Clap" by Charli XCX


"Boom Clap" é uma canção original de Charli XCX e é ouvida na chegada de Hazel e Gus a Amsterdã"

Kent: Eu estava promovendo essa canção mais que qualquer pessoa. Adoro a canção e adoro Charli. Era uma daquelas cenas em que a gente sabia que precisava de energia, alguma coisa divertida, que fale de viver no momento. A gravadora nos estava mandando canções originais, mas conversei com nosso sujeito de Artistas & Repertório sobre Charli XCX. Eu tinha ouvido que ela estava gravando e queria saber se havia alguma coisa que eu pudesse ouvir. Ele me mandou duas faixas; uma delas era "Boom Clap", mas ainda era uma versão inicial em demo. Mostrei aos diretores, e eles disseram “pode ser, mas ainda não tem som suficiente pleno, não tem energia suficiente”. Falei que era um demo e que eu queria completar a música e trabalhar com ela.

Patrik Berger acabou produzindo a faixa. Ele fez "Dancing on My Own", de Robyn. A faixa se repete e é super contagiante e divertida. Todo o mundo para quem a toquei ficou obcecado. Eu não tinha outras músicas para aquele trecho, porque sabia que esta faria sucesso. Eu simplesmente sabia! Levei a versão acabada para Josh, para nosso editor, para todo o mundo. Mandei todo o mundo ficar em pé e dançar. Eles disseram “Season, você endoidou”. Pus a música para tocar, fazendo a minha dancinha rebolada, e todo o mundo curtiu. Eles são sabiam realmente qual seria a força dessa canção até a sexta em que ela foi lançada em stream e todo o mundo escreveu sobre ela.

"While I'm Alive" by STRFKR

Primeira canção ouvida em “A Culpa É das Estrelas”, "While I'm Alive" é tocada depois do primeiro encontro de Hazel e Gus, num grupo de apoio.

Kent: É uma canção pop, mas é um pop cool. Sabíamos que não íamos fazer um filme inteiro de músicas tristes, isso não funcionaria. Esta música estava numa daquelas primeiras playlists que fiz. A parte mais importante dela, para nós, é quando Hazel decide “eu vou com Gus”; há uma grande transição na música, quando você pensa “merda”.

"Oblivion" by Indians

the fault in our stars
Canção original composta para o filme, "Oblivion" é usada quando Hazel e Gus saem em seu primeiro encontro oficial em Amsterdã.

Kent: Durante um bom tempo tivemos uma canção do Bon Iver escolhida para este trecho. Acabamos substituindo por “Oblivion” em parte porque queríamos uma canção original ali e em parte porque ele não nos deixou usar. Isso foi duro num primeiro momento, mas depois apenas nos deu uma chance melhor de encontrar alguma coisa que funcionasse realmente com a cena. A canção tinha que ressaltar o momento. É nessa hora que Gus vira uma esquina, vê Hazel toda arrumada e diz “você está linda”. Você sente no estômago a emoção e incerteza que ela está sentindo. Há uma espécie de tremor na trilha sonora, na hora que ela sorri, que é realmente importante. Queríamos que o clima fosse o mais mágico possível. Era o nosso momento. O importante deste filme é que é sobre o primeiro amor. Também é sobre a doença deles e a perda das coisas, mas é sobre o primeiro amor. Queríamos que todo o mundo que ainda não viveu isso soubesse como é a sensação do primeiro amor e que todo o mundo que já passou por isso se recordasse. Essa é uma de minhas canções favoritas da trilha.

"Strange Things Will Happen" By The Radio Dept.

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Esta música é ouvida no segundo plano quando Hazel e Gus embarcam num bonde para ir visitar o escritor Peter van Houten (Willem Dafoe) em Amsterdã.

Kent: Do mesmo jeito que eu levei um flash drive com música na primeira reunião com Josh, ele fez a mesma coisa quando foi falar com a Fox para tentar convencê-la a deixar que ele dirigisse o filme. Essa era uma música que ele tinha no drive dele e adorava. A música é realmente importante para ele, que realmente a queria no filme.

"Bomfalleralla" by Afasi & Filthy


Van Houten põe esta música de hip-hop sueco para Hazel e Gus ouvirem.

Isso estava no livro. Incluíram no roteiro do filme, e nós a queríamos no filme. É incrível. Num primeiro momento a gravadora disse: “Como assim? Isto daqui não tem nada a ver”. Mas dissemos que ela tinha que entrar para a trilha. Os fãs do livro vão amar.

"Without Words" by Ray LaMontagne

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Gus e Hazel retornam de Amsterdã em clima de tristeza. Esta faixa de Ray LaMontagne é ouvida quando eles chegam ao aeroporto.

Kent: Esta era uma música que eu já tinha havia anos, talvez desde 2008. Ela não chegou a ser incluída no último disco de Ray. Eu a consegui com a editora dele e a divulgo sempre, mas nunca antes tinha conseguido inseri-la em algum lugar. Esta é outra cena que é um momento superpesado. A gente acaba de ficar sabendo de algo devastador, mas ainda não é o momento mais triste do filme. O que eu amo desta canção de Ray é que ela é orgânica. É uma canção afetiva, que parece ter um sub tom de tristeza.

"Not About Angels" by Birdy


Outra música original de Birdy, "Not About Angels" é ouvida quando Hazel sai de um cemitério, num momento chave do filme.

Kent: Birdy era obcecada pelo filme e o livro, e isso foi emocionante para nós. Queríamos que ela ficasse tão interessada quanto nós. A canção é inteligente, porque há todo esse diálogo entre Gus e Hazel sobre acreditar em Deus e em anjos, e a canção de Birdy fala disso: o importante não são os anjos, somos nós.

Na época, tínhamos outra música naquela parte do filme. Era uma canção de Lykke Li, "No One Ever Loves". Foi composta para o filme e nós a curtimos muito. Mas esta cena é muito interna. Precisávamos de algo realmente delicado, enxuto. Havia algo na canção de Birdy que simplesmente funcionava superbem para visualizar.

Telefonamos a ela e lhe dissemos: “Além de 'Tee Shirt' e 'Best Shot', a gente gostaria realmente de usar 'Not About Angels'.” Ela ficou tão animada. Acho que não poderíamos ter escolhido uma música melhor para essa parte. Sinto orgulho de Birdy, ela fez um trabalho fantástico.

"No One Ever Loved" by Lykke Li


A terceira música dos créditos finais de “A Culpa É das Estrelas”.

Kent:Adoramos esta música, mas às vezes é preciso ouvir o filme e perguntar “o que está fazendo falta para a cena?” A canção de Birdy fazia coisas que esta canção não fazia. Mas a gente também adorava “No One Ever Loved”. Queríamos que fosse concluída, e Lykke Li é artista da Atlantic, então pensamos em colocar a música nos créditos finais. Ainda queríamos que fosse parte do filme, especialmente porque ela a escreveu para nós.

"Wait" by M83


A canção do M83, do álbum que levou a banda a fazer sucesso, "Hurry Up, We're Dreaming", é ouvida duas vezes no filme: primeiro, quando Gus conta a Hazel uma notícia que vai mudar sua vida, e novamente na conclusão do filme.

Esta música estava na playlist original de Josh, que ele deu à Fox. Também estava na minha playlist original que eu dei a ele. Parecia que era para ser. Esta música realmente significa muito para Josh. Ele tinha um amigo e mentor que morreu de câncer logo antes de ele começar a dirigir o filme. O álbum do M83 saiu na época em que o amigo estava muito doente. Josh me contou que é o disco do qual ele se lembra dessa época, especialmente de "Wait."

Para mim, já estava naquela primeira playlist. É uma música especial. É cinematográfica, é linda. Nós dois sabíamos que íamos usá-la no filme, a dúvida era apenas onde. Josh a colocou na cena em Amsterdã, e depois, quando estávamos tentando pensar o que usar no final, quando precisávamos de algo crescendo, Josh achou que poderíamos reprisar o M83. A música estava ali desde o início e nunca saiu. Ela tem alguma coisa. É tão triste, mas ao mesmo tempo enaltece o espírito. É maior que o mundo.

"Best Shot" by Birdy and Jaymes Young

birdy singer
""Best Shot" não está em “A Culpa É das Estrelas”, mas foi escrita para o filme e é incluída como faixa bônus na trilha sonora.

Kent: Best Shot" foi uma das colaborações de Birdy e Dan Wilson, e Jaymes Young veio cantá-la em dueto. Estou com um monte de outras canções que foram compostas para o filme. Não temos espaço suficiente para todas. Quem sabe algum dia a gente possa criar um álbum “Inspirado em ‘A Culpa’” ou “Mais Canções de ‘A Culpa’”, que inclua todos os demos que estão comigo. São incríveis.
Esta entrevista foi editada e condensada.

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