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Diante do avanço de estado terrorista, cristãos insistem em não sair do lugar no Iraque

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ALQOUSH
Iraquianos comparecem a missa no vilarejo de Alqosh, a 50 km de Mosul | ASSOCIATED PRESS

Bartella, Iraque – Do outro lado da rua, diante de uma igreja nesta calma cidade no norte do Iraque, Mounir Behram se senta para almoçar com sua família. Ele é o guarda da igreja, um trabalho tranquilo na maioria dos dias. Mas agora extremistas sunitas – conhecidos por atacar aqueles que não se adequam à sua visão radicalizada do Islã – controlam a próxima Mosul, segunda maior cidade do país. Ele está preocupado com a possibilidade de invasão de Bartella, uma cidade predominantemente cristã, pelos extremistas.

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Sabiha, sua mulher, o acalma com seu jeito tranquilo e um cozido de grãos e vegetais. Apontando para uma desgastada pintura da Última Ceia na parede da cozinha, ela diz: “Eles são nossos guardiães”.

“Vamos ficar aqui”, diz ela. “Essa é a nossa casa.” Munir concorda, acenando a cabeça. “Iríamos para onde?”, ele pergunta.

Os ancestrais assírios do casal vivem na região dessa cidade de 16 000 habitantes desde os tempos da Bíblia. Ela viu incontáveis famílias deixarem a área na última década, fugindo dos enfrentamentos entre insurgentes e tropas estrangeiras e os cada vez mais comuns ataques contra cristãos. E, nas últimas semanas, as famílias têm fugido dos militantes ligados ao Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla em inglês), grupo extremista que tomou cerca de uma dezena de cidades iraquianas desde meados de junho, instigando a violência sectária e matando tropas iraquianas e civis em seu caminho.

Apesar da reputação de brutalidade do ISIS, Sabiha diz que não vai a lugar nenhum. Sua fé, afirma ela, lhe dá a coragem para ficar. Muitos outros cristãos aqui ecoam esse sentimento de rebeldia, enquanto outros planejam fugir assim que for possível – como as centenas de milhares de outros iraquianos desabrigados pelo conflito somente neste mês.

“Vamos defender nossas igrejas’, diz Sabiha. “Nosso jovens vão nos proteger.”

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Sabiha e outros cristão têm a esperança de que o ISIS será mais moderado em relação aos cristãos e às outras minorias iraquianas – responsáveis por cerca de 3% da população antes da guerra, mas esse número hoje deve ser menor depois de um êxodo em massa dos cristãos – em comparação com a violência que cometem contra as minorias sírias.

“Mesmo que eles venham, é muito difícil sair”, diz um líder cristão que pediu para que seu nome e título não fossem revelados. “Para onde iria? Se sair daqui, vou viver numa barraca (para refugiados).”

“É claro que estamos preocupados. Mas as forças curdas estão aqui”, diz ele, referindo-se aos combatentes conhecidos como peshmerga que há muito guardam a cidade. “Eles vão nos proteger.”

Mouad Gorgis, um comerciante cristão cuja família vive em Bartella desde quando ele consegue se lembrar, ecoa o sentimento.

“Não entendo como (o ISIS) pode fazer isso”, diz ele, sob um ventilador de teto enferrujado em sua loja. Moradores da cidade, alguns muçulmanos, outros cristãos, passam pela rua acenando.

“Veja, estamos em 2014. Os muçulmanos não fariam isso. Não sei de onde tiraram essas ideias. Fico nem que ameacem me matar.”

Mas, como muitos moradores, Gorgis reclama que a vida está ficando impossível na cidade. Muitos culpam o ISIS pelas recentes faltas de água e eletricidade, pois os recursos vêm de Mosul. As luzes piscam na maioria das casas. Algumas igrejas pararam com seus serviços religiosos por falta de segurança. Muitos comparam o clima atual em Bartella com o de anos passados, quando os carros-bomba sacudiam a cidade.

Mazin Said Shaba, um cristão que fugiu da violência de Bagdá em 2006 para viver em Bartella, diz que aceita a oportunidade que aparecer para sair do país. Ele se mudou para a cidade achando que haveria mais segurança em uma área dominada pelos cristãos. Agora, ele teme pela queda da cidade.

“Os padres pedem para que fiquemos, mas suas próprias famílias já fugiram”, diz Shaba, pai de dois meninos pequenos. “Não estou seguro durante a noite. Não sei o que vai acontecer amanhã.”

À margem da principal rua daqui, um homem chamado Wa’ad, que faz parte da minoria muçulmana Shabak (que contam com muitos xiitas), diz temer os extremistas sunitas tanto quanto os cristãos.

“Não são só os cristãos”, diz ele, com uma faca de açougueiro presa na cintura. “O ISIS ataca todo mundo. Eles mataram meu tio em Mosul só porque ele faz parte da minoria.”

Apesar de ter ficado em Bartella para trabalhar, Wa’ad mandou sua família para a fortemente guardada cidade de Erbil, a cerca de 70 quilômetros dali. Ele não queria que eles tivessem o mesmo fim de seu tio.

É o mesmo medo que Sabiha e Mounir têm em relação a sua filha adolescente, apesar da insistência de ambos de que eles têm de ficar em Bartella, próximos de suas raízes.

Na cozinha, Mounir olha para a filha, seus olhos acolhedores, os ombros nus, um crucifixo no pescoço e seus longos cabelos, descobertos. A ideia de que ela seja obrigada pelo ISIS a se cobrir com vestimentas islâmicas e a abandonar sua fé o destruiria, diz ele.

“Nossa filha quer ir embora”, afirma Mounir. “Ela diz: ‘Se você quer morrer aqui, tudo bem. Mas eu quero viver’.”

* Abdulla Hawez contribuiu com reportagem de Bartella