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Crianças palestinas atingidas em ataques aéreos lidam com ferimentos e perda de familiares

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Nour, 5, descansa numa cama no Hospital al-Shifa, em Gaza. Seu pai e sua mãe foram mortos nesta semana na ofensiva israelense na terça-feira, de acordo com sua avó.
Nour, 5, descansa numa cama no Hospital al-Shifa, em Gaza. Seu pai e sua mãe foram mortos nesta semana na ofensiva israelense na terça-feira, de acordo com sua avó.

Cidade de Gaza – Quando os primos Kenan e Nour, ambos de 5 anos, acordam em suas camas de hospital, imploram para ver seus pais. A pequena dupla, ensanguentada e enfaixada no hospital central daqui, é jovem demais para entender a destruição à sua volta.

Um ataque aéreo israelense atingiu a família na terça-feira, quando eles estavam reunidos do lado de fora de casa para quebrar o jejum do Ramadã. Nour agora é órfão -- seus pais morreram nos ataques. O pai de Kenan, sua irmã de 21 anos e três outros integrantes de sua família também foram mortos, de acordo com sua avó, Amal.

“Estamos tentando acalmá-los”, diz Amal, visivelmente exausta. “Falamos para eles que a guerra vai acabar, mas eles estão em choque. Continuam perguntando pelos pais. Não sei quem vai cuidar das famílias agora.”

Kenan e Nour são apenas dois entre centenas de palestinos feridos na mais recente ofensiva de Israel na Faixa de Gaza, que começou na terça-feira como resposta a semanas de foguetes lançados de Gaza contra seu território. Com o recrudescimento do conflito entre Israel e o Hamas, o grupo que governa Gaza, mais de cem palestinos foram mortos. Dezenas deles eram civis, e pelo menos 21 eram crianças.

Alguns andares abaixo de Nour e Kenan, no hospital al-Shifa, Muhammad Abu Tawila, de 16 anos, se recupera em seu quarto. Ele olha o mar pela janela – o som das bombas israelenses, dos drones e dos foguetes do Hamas é impossível de ignorar. Seu olho esquerdo está fechado e metade de seu rosto, inchado, por causa de estilhaços de uma bomba lançada por um drone israelense. Ele diz que estava brincando com amigos perto de sua casa no leste de Gaza quando um veículo próximo foi atingido.

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Muhammad Abin Taweela espera em hospital de Gaza para saber se ele poderá viajar para o Egito e então conseguir tratamento para os ferimentos do rosto.

“A gente só queria se divertir”, diz ele com dificuldade, por causa dos ferimentos no rosto. Ele agora aguarda uma permissão das autoridades egípcias para viajar para o Egito, onde será operado. Mas ele é apenas um entre um enorme número de pacientes que precisam de tratamento, e a fronteira foi aberta apenas brevemente na quinta-feira, antes de voltar a ser fechada.

Há uma sensação opressiva de desespero entre as vítimas internadas no hospital, muitas das quais são muito pobres. O próprio hospital tem dificuldade para atender os pacientes. Segundo Ashraf al-Qedra, porta-voz do Ministério da Saúde de Gaza, os estoques de itens como gaze estão pela metade, e faltam pelo menos 30% dos remédios.

Muitos hospitais também sofrem com a terrível falta de combustível. Israel limitou o número de caminhões que podem entrar em Gaza com gasolina, comida e outros bens essenciais. E a maior parte dos túneis de contrabando que ligam o território com o Egito – usados para transporte de tudo, de armas a materiais de construção – foram destruídos. As equipes dos hospitais dizem mal ter combustível para abastecer geradores e ambulâncias.

“Só conseguimos sobreviver alguns dias mais com o que temos”, disse al-Qedra, numa sala lotada no hospital.

Do outro lado da fronteira fortemente protegida, em Israel, as sirenes gritam por todo o país para alertar as pessoas para os foguetes lançados de Gaza. Apesar de a região sul, mas perto de Gaza, ser a mais atingida, as sirenes foram acionadas em Tel Aviv e Jerusalém nos últimos dias.

Muitos vivem com o medo de serem atingidos por um dos centenas de foguetes lançados pelo Hamas. Não há relatos de mortes em Israel, em grande medida graças à Redoma de Ferro, o sistema de defesa antimísseis do país. Segundo autoridades israelenses e americanas, o sistema intercepta 90% dos mísseis.

Para reforçar a campanha contra o Hamas, Israel chamou 33.000 soldados da reserva. Shuki Haidu, um guia turístico de 33 anos, recebeu a convocação no começo da semana.

“Não quero entrar nisso”, disse ele de sua base militar no sul do país, referindo-se ao conflito. “Meu filho está no jardim-da-infância. Mas não há mais nada que eu possa fazer.”

Sem poder explicar para seu filho para onde estava indo, Haidu deixou um bilhete dizendo apenas que foi “viajar”.

Altos oficiais de direitos humanos da ONU disseram na sexta-feira que a campanha aérea israelense pode estar violando leis humanitárias internacionais. Mas Israel diz que o alvo é o Hamas, organização considerada terrorista pelos Estados Unidos. Israel também afirma que o Hamas usa escudos humanos.

Muitos sobreviventes no hospital al-Shifa dizem que Israel está atacando civis como uma forma de punição coletiva, ou que o país não se importa em matar civis quando tenta atingir um suposto militante.

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Kenan, 5, dorme no Hospital al-Shifa após ser atingido pela ofensiva israelense nesta semana.

“Ou eles acharam suspeito um grupo tão grande de pessoas reunidas, ou então eles queriam matar o maior número possível”, disse a avó de Kenan, referindo-se ao ataque de terça que matou seu filho.

“As pessoas sendo mortas são civis!”, disse Shadi, que se recusou a dar seu sobrenome. Ele estava sentado ao lado de Firas Sukar, seu sobrinho de 14 anos que sobreviveu ao ataque de um drone em supermercado, na quarta-feira. “É como se Israel não pudesse localizar os alvos reais”, disse ele, balançando a cabeça.

Mas Firas não parece abalado por ter quase morrido. Ele diz ter sorte. Ele sobreviveu, afinal de contas, enquanto dois garotos que estavam do seu lado morreram instantaneamente. Depois de uma cirurgia para a retirada de estilhaços de seu estômago, ele está melhorando.

Firas diz que não tem medo de voltar para casa. Quando questionado como ele se sentia logo depois do ataque, ele respondeu simplesmente: “Como se tivesse nascido de novo”.

Mas seu tio, um comerciante que diz estar rezando por um cessar-fogo, olha em silêncio. “Minha filha tem só 3 anos”, diz ele. “Toda vez que ela ouve uma explosão, ela grita: `Eles estão chegando!’”

Abir Ayoub contribuiu com reportagens da Cidade de Gaza e Shira Rubin contribuiu com reportagem de Jerusalém.