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Jenny Dawson trocou o luxo da carreira em finanças por geleia

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Não é fácil abrir mão de uma carreira no setor financeiro: férias, apartamentos de luxo, festas requintadas, tudo isso acaba.

Mas para Jenny Dawson, trocar uma vida de luxo por uma vida mais modesta foi uma progressão natural, porque ela era tão movida por seu desejo de transformações sociais.

O trabalho em que Jenny se engajou por amor é a Rubies In the Rubble ("Rubis nos Escombros", em tradução livre), empresa que usa frutas e verduras descartadas por produtores e feiras para produzir chutney, um condimento de paladar agridoce ou picante, usando as receitas de sua mãe. E ela contrata pessoas sem-teto para trabalhar na firma, para ajudá-las a se lançar no caminho para conseguirem um emprego duradouro.

jenny

Foi o fim de seu apartamento de luxo em Londres. Em vez disso, Jenny teve que se mudar para um quarto minúsculo com cama de solteiro.

Isso foi três anos atrás, e antes de ela ter sido indicada para o prêmio Veuve Cliquot New Generation Woman de 2014. Jenny pode não estar ganhando muito com seu negócio, mas o impacto que está causando é inegável.

Ela descreve suas duas vidas como sendo “tremendamente diferentes”, e isso exigiu algum esforço de adaptação num primeiro momento. “Eu ganhava um salário ótimo e passei a não ganhar nada. Foi uma mudança enorme. Percebi que eu teria que aprender a viver com pouco, mas sempre gostei de andar de bicicleta e fazer piqueniques com meus amigos. Senti falta de viajar em férias com os amigos e tive que analisar com mais cuidado com quem eu saía para tomar um drinque.”
Então por que abrir mão de uma vida cômoda no mundo dos fundos hedge?

“Eu já estava com vontade de mudar de vida havia algum tempo. Eu sempre quis ter meu próprio negócio. Por exemplo, durante algum tempo vendi meu próprio caviar em Hong Kong. Então li um artigo em um dos jornais gratuitos sobre pessoas que são presas porque resgatam alimentos que foram descartados nos latões de lixo de supermercados.”

“Essa história ficou na minha cabeça. Pesquisei no Google e me dei conta de quanta comida jogamos fora, além das consequências financeiras e ambientais disso. O que chamou minha atenção foi também o lado moral: esse desperdício de um terço do que produzimos é um fenômeno moderno.”

Depois de ir a algumas palestras em que se discutiu como as pessoas são julgadas pela sociedade com base em sua condição financeira, Jenny iniciou sua própria jornada, refletindo sobre suas próprias características.

“Quando você vive cercada por riqueza o tempo todo, acaba deixando de enxergar a situação de outras pessoas. Eu quis criar uma marca que tratasse de coisas que são descartadas –poderia ser uma cenoura que fugisse do padrão, por exemplo—e que defendesse a valorização das coisas.”

A Rubies in the Rubble não cria alimentos a partir de lixo, mas com as toneladas de frutas e verduras frescas que não foram vendidas no mesmo dia ou que os produtores não conseguem vender por um motivo ou outro.

Falando sobre hortifrútis descartados, Jenny disse em entrevista ao The Mail Online: “Alguns eram malformados, então seriam rejeitados pelos supermercados, mas muitos simplesmente eram excedentes. O que chamou minha atenção foi a imoralidade disso.”

“Importamos alimentos da África, exigimos preços baixos, e há um excedente tão grande que, quando os alimentos chegam, podemos nos dar ao luxo de jogá-los fora.” Jenny começou a frequentar mercados atacadistas às 4 horas da manhã para ver o desperdício em primeira mão. “Vi caixas inteiras de produtos – do Quênia e outras partes do mundo — jogadas fora, e isso me deixou mal. Fui criada na Escócia, num sítio. Minha mãe é artista e adora jardinagem. Sempre que havia frutas ou legumes sobrando, ela fazia conservas e as guardava para comer no inverno. Eu quis criar uma marca que fosse de alto nível e defendesse essa ideia.”

Para testar a popularidade da proposta, ela produziu um lote de chutney que vendeu em vidros de geleia reciclados que pediu em restaurantes e cafés, envoltos em pedacinhos de tecido da Liberty’s.

Num dia gelado de dezembro de 2010, Jenny montou uma barraca na feira Cabbages & Frocks, em Marylebone, em Londres, e vendeu seus vidros de conservas. Foi um sucesso. Foi quando ela decidiu lançar-se no projeto em tempo integral.
É claro que sua família e seus amigos a acharam louca por estar trocando um emprego seguro e bem pago por algo desconhecido.

“Acharam que eu estava com um parafuso solto. Eu não era conhecida por cozinhar bem, mas disse que ia pedir demissão para fabricar geleia e chutney. Todo o mundo no fundo hedge também achou que eu estava maluca, mas as pessoas sabiam que eu levava minha proposta a sério.”

Jenny agiu prontamente. Telefonou a cafés, salões de igrejas e organizações beneficentes que tinham cozinhas que talvez não estivessem em uso. Reuniu uma equipe de amigos, e havia o excedente de frutos.

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“Dezembro é logo após a temporada das maçãs. Havia uma fazenda em Sussex que tinha tido uma safra ruim: suas maçãs eram pequenas demais [para ser aceitas pelos supermercados] e estavam apodrecendo nos pés. Então colhemos as que não estavam podres e as usamos.” Era importante ter uma base. Jenny escolheu o mercado de Spitalfields, em Londres. “Ele movimenta 700 mil toneladas de frutas e verduras por ano e 200 toneladas semanais de excedentes. Montamos uma cozinha no local, a poucos metros de 160 empresas diferentes, e pudemos descobrir quais eram as coisas que estavam sendo jogadas fora com mais frequência.”

Além de recolher os hortifrútis excedentes no próprio mercado, a equipe de Jenny entrou em contato com pequenos produtores. Por exemplo, os produtores de maçãs e peras às vezes decidem que, se não têm condições de pagar o custo da mão-de-obra, é mais fácil deixar os frutos apodrecer no pé. Em alguns casos, eles negociam com quem quiser colher os frutos ou providenciar seu transporte.

Apesar do trabalho surpreendente que a Rubies In The Rubble está realizando, uma das iniciativas mais importantes tem sido a contratação de sem-teto para ajudar.

“Entramos em contato com a organização Crisis”, Jenny contou, “que tem um café chamado Skylight onde treina pessoas e as habilita para voltarem a ter uma profissão. As pessoas trabalham quatro meses no café. Se quiserem continuar a trabalhar, podem vir trabalhar conosco.”

Para essas pessoas, que de certo modo também são vistas como descartadas, foi um vínculo interessante com a empresa.
O feedback que Jenny vem recebendo é que elas pessoas adoram o trabalho e que trabalhar com uma equipe, acordar e ir fazer alguma coisa lhes proporcionou um objetivo na vida.

Hoje a loja de departamentos Fortnum & Mason vende os chutneys da empresa, e Jenny estuda a possibilidade de partir para outros produtos também, como crocantes de maçã e outros frutos.

Quando ela deixou seu emprego no fundo hedge, seus patrões lhe disseram que poderia voltar se quisesse. Mas está claro que Jenny agora encontrou seu lugar no mundo, e isso inclui ajudar o mundo a tornar-se um lugar melhor.

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