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Crise da água em SP: Especialistas sugerem menos obras e mais políticas de reflorestamento para gestão de recursos hídricos

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Falta da água pode ser combatida de maneira mais eficiente e barata por meios ambientais | Montagem/AP
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O governo de São Paulo celebrou o repasse de R$ 2,6 bilhões para ampliar o sistema de abastecimento de água da região metropolitana da capital. O anúncio foi feito pelo ministro das Cidades, Gilberto Occhi, nesta quinta-feira (4). Entretanto, para especialistas não são bilhões e inúmeras obras que resolverão, a médio e longo prazo, a crise que se instalou não só para a população paulista, mas de outras partes do Brasil neste ano.

Em audiência sobre a crise da água no Brasil, na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, parlamentares e especialistas debateram o assunto. Segundo a especialista em gestão de Recursos Hídricos e Meio Ambiente do Instituto Socioambiental (ISA), Marussia Whately, a gestão hoje se baseia na oferta de água, sem o devido cuidado com mananciais.

“O Brasil vem aumentando o consumo e isso é uma tendência que deve ser levada em consideração”, disse, enfatizando que a falta de chuvas faz parte do processo, e que é preciso haver mais transparência de gestão. O superintendente da Agência Nacional de Águas (ANA), Joaquim Guedes Corrêa Gondim Filho, foi além.

“Tenta-se resolver o problema com o aumento da oferta, sempre procurando novas fontes, mas isso tem limitações. Hoje a questão que se coloca é que, antes de procurar novas fontes, você atue na gestão da demanda, no controle de perdas, nessas ações mais fáceis e mais baratas”, analisou. A coordenadora do Programa Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, Maria Luísa Ribeiro, acompanhou a opinião dos colegas e reforçou a necessidade de combate ao desmatamento.

Se o discurso ambiental soa como ‘papo de eco-chato’ para parte da população, há análises no exterior sobre a crise da água em São Paulo que corroboram as opiniões apresentadas em Brasília. Segundo o relatório “Diagrama de Água Urbana”, produzido pela ONG internacional The Nature Conservancy (TNC) e que analisou 534 cidades e 2 mil fontes hídricas pelo mundo, a crise do Sistema Cantareira passa pela perda de 70% da cobertura florestal original da área que comporta reservatórios e rios.

“Reflorestar mais 14.200 hectares poderia cortar a concentração de sedimentos na bacia hidrográfica pela metade”, escreveu o diretor global de águas do TNC, Giulio Boccaletti. A própria organização desenvolve um programa que remunera agricultores e pecuaristas do Estado que reflorestem suas áreas. De acordo com o dirigente do TNC, programas como esse estão inseridos em um contexto de R$ 232 bilhões anuais que cidades gastam com obras para o abastecimento de água e que poderiam ser salvos com os cuidados com as matas nativas.

“O uso da terra e a segurança das fontes hídricas estão firmemente ligadas. Ao abraçar tanto a infraestrutura natural e tradicional da água, cidades não vão assegurar somente o seu abastecimento futuro; elas vão também remodelar a paisagem do nosso planeta para melhor”, completou Boccaletti em sua análise.

Enquanto medidas ambientais mais firmes não vêm...

A ANA apontou que 55% dos municípios brasileiros podem sofrer déficit de abastecimento até 2015. O número alarmante fez com que a agência trabalhasse em um plano nacional de segurança hídrica. O documento está sendo elaborado pela ANA e pelo Ministério da Integração Nacional, a partir de conversas com os Estados, e deverá ficar pronto entre 2015 e 2016. Na Câmara, o deputado Sarney Filho (PV-SP) irá sugerir um comitê de crise hídrica na próxima legislatura.

“Se o período chuvoso deste ano se configurar como o do ano passado, essa água não será suficiente para o ano que vem. Independentemente de chover mais ou menos, nós estamos em uma situação bastante crítica (...). O Cantareira está hoje em torno de 8%, isso já considerando duas cotas do volume morto. Ou seja, ele está em um volume negativo, algo em torno de 20% negativo”, avaliou Marussia.

Tão incerta quanto a falta de chuvas é a velocidade da conclusão das obras que serão beneficiadas pelo R$ 2,6 bilhões repassados pelo governo federal ao Palácio dos Bandeirantes, voltados para o Sistema São Lourenço. A previsão é de que tudo esteja pronto e operando entre 2017 e 2018. Distante, diante da urgência do tema. Não por acaso, a principal aposta do governador Geraldo Alckmin e sua equipe é transformar a água de reuso em potável.

“A Sabesp atua através de sua área de tecnologia junto ao Ministério do Meio Ambiente para buscar regulamentação desse processo como um todo. Os projetos ainda não foram licitados, foram desenvolvidos internamente e já foram apresentados aos órgãos federais para fins de financiamento”, disse nesta semana o assessor da diretoria da Sabesp, Antônio César da Costa e Silva.

(Com Estadão Conteúdo e Agência Câmara)

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