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Mapa da Violência 2015 mostra que mais de 42 mil brasileiros foram mortos por armas de fogo no Brasil (ESTUDO)

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Jovens e negros ainda seguem sendo as maiores vítimas das armas de fogo no Brasil | Dieu Nalio Chery/AP
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Quase cinco brasileiros morrem por hora no País, vítimas de disparos de arma de fogo. É o que aponta o mais recente relatório do Mapa da Violência 2015, que divulgado nesta quarta-feira (13) pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Brasília. Considerando dados oficiais de 2012, 42.416 pessoas foram vítimas de armas de fogo no Brasil – uma média de 116 mortes/dia –, das quais 94,5% (40.077) foram resultado de homicídios.

De acordo com o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, autor do relatório, trata-se do maior número de vítimas e de assassinatos registrados pela série histórica do Mapa da Violência, que começou a reunir os dados em 1980. Pela média, a taxa de mortalidade de 21,9 óbitos para cada 100 mil habitantes só perde para 2003, quando ela foi de 22,2 mortes para cada 100 mil habitantes. Contando os homicídios praticados com armas de fogo, a taxa de mortalidade de 20,7 é a mais elevada desde o início do estudo.

Os números poderiam ser ainda piores, não fosse a existência do Estatuto do Desarmamento – tema que está sendo debatido novamente no Congresso Nacional neste ano. O levantamento diz que 160.036 pessoas tiveram suas vidas poupadas graças ao controle de armas que hoje existe no País. Destas, 113.071 vidas estimadas pertencem aos jovens, notoriamente as maiores vítimas da violência no Brasil.

“Pelos dados trabalhados, concluímos que o maior impacto das políticas de controle das armas de fogo foi sua enorme capacidade preventiva dos homicídios juvenis. Os jovens representam 27% da população total, mas essas políticas conseguiram poupar a vida de 113.071 jovens num universo de 160.036, isto, é 70,7% das mortes evitadas foram de jovens”, avaliou Jacobo, que lançou mão do indicador ‘vidas poupadas’ – diferença entre o número de mortes esperadas a partir da análise de sua tendência de crescimento, frente às mortes efetivamente ocorridas.

O estudo mostra que, logo no primeiro ano de vigência do Estatuto do Desarmamento, em 2003, a tendência de crescimento (7,2%) resultou na realidade em uma queda de 8,2% no número de óbitos por armas de fogo. A conclusão é que, só em 2012 31.041 vidas foram poupadas graças ao estatuto, sendo a maior parte entre os jovens entre 15 e 29 anos.

Juventude e negros no olho do furacão

Nunca foram registradas tantas mortes por arma de fogo entre a juventude brasileira. De acordo com o Mapa da Violência 2015, 59% das mortes por armas de fogo registradas (24.882) foram de pessoas na faixa de 15 a 29 anos – ou seja, quase um em cada três vítimas integrava esse grupo etário. Em relação ao restante da população, a taxa de mortalidade dos jovens de 47,6 para cada 100 mil habitantes é mais do que o dobro registrado para o restante da população.

Nos dois levantamentos anteriores, com dados de 2010 e 2011, o Mapa da Violência havia apontado para uma leve queda das mortes por arma de fogo entre os jovens brasileiros. Todavia, com base no chamado Índice de Vitimização Juvenil por Armas de Fogo (IVJ-AF), que compara os dados de jovens e não jovens, para cada não jovem assassinado por arma de fogo, quase quatro jovens foram mortos da mesma maneira.

Aqueles na faixa dos 19 anos foram as maiores vítimas, considerados apenas os dados da juventude. A taxa de 62,9 mortes para cada 100 mil habitantes foi seguida de perto pelas vidas perdidas entre os de 20 anos (62,5%).

Considerando a série histórica desde 1980, a morte de jovens vítimas de armas de fogo cresceu 463,6%, enquanto considerados apenas os assassinatos esse número é ainda mais assustador: uma subida de 655,5%. No mesmo período, os suicídios, acidentes e outras causas apresentaram quedas da ordem de 20% (salvo os suicídios, cuja queda foi de quase 3%).

Outro dado relevante diz respeito ao alto número de negros mortos. Segundo levantamento do Subsistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, que registra a raça e cor das vítimas no País, morreram 142% mais negros do que brancos por armas de fogo em 2012. O total de vítimas negras foi de 28.946, contra 10.632 de pessoas brancas. A predominância foi de homens (94%), sendo 95% da faixa etária entre 15 e 29 anos.

Quase 1 milhão de mortos por armas em 32 anos

A série histórica do Mapa da Violência aponta que 880.386 pessoas morreram por disparo de arma de fogo entre 1980 e 2012 no Brasil, sendo que 747.760 foram assassinadas. De lá para cá, houve um aumento de 387% até 2012. Se em 1980 o total de mortos por armas de fogo foi de 8.710 pessoas, em 2012 o número subiu para 42.416 óbitos. A título de comparação, a população brasileira cresceu 61% neste mesmo período.

O carro-chefe desse crescimento foi o homicídio. Enquanto as mortes acidentais caíram 26,4%, os assassinatos subiram 556,6%, ficando os suicídios com armas de fogo com um aumento menor, de 49,8%.

Considerando as regiões e Estados brasileiros, o mais violento é Alagoas, com uma taxa de 55 óbitos por arma de fogo para cada 100 mil habitantes. Na outra ponta aparece Roraima, com 7,5% para cada 100 mil habitantes. No Sudeste ocorreu a maior queda (39,8%), puxada pelos Estados de São Paulo (- 58,6%) e Rio de Janeiro (- 50,3%). Em todas as demais, houve crescimento – 135,7% no Norte; 89,1% no Nordeste; 34,6% no Sul; e 44,9% no Centro-Oeste.

A região Nordeste apresenta os piores números em outras estatísticas – o Maranhão viu subir em 273,2% a taxa de mortes entre 2002 e 2012; Maceió (AL) é a capital com maior mortalidade (79,9%); e a cidade de Simões Filho (BA) é aquela com as piores taxas, tanto para a população geral (130,1 óbitos para cada 100 mil habitantes) quanto para os jovens (314,4 óbitos pra cada 100 mil habitantes).

Em relação a outras nações, o Brasil aparece na 11ª posição entre aqueles com mais mortes por arma de fogo no planeta. A taxa de 21,9 óbitos para cada 100 mil habitantes, em um total de 90 países, leva em conta dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). É menos da metade da taxa de 55,4 óbitos da Venezuela, líder no mundo neste quesito. Já Japão, Coreia do Sul, Marrocos e Hong Kong não registraram uma morte sequer por arma de fogo.

Entenda o Mapa da Violência

O relatório Mapa da Violência 2015 é o terceiro com foco em mortes ocorridas exclusivamente por disparo de armas de fogo. O primeiro foi divulgado em 2005 e o segundo, em 2013, com dados até 2010. A nova versão incorpora dados de 2011 e 2012. O documento será lançado às 10h desta quinta-feira, na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em Brasília.

A fonte primária dos dados é o Subsistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, gerido pela Secretaria de Vigilância em Saúde e baseado nas declarações de óbito expedidas em todo o país. O levantamento registra o local das mortes e características das vítimas, como idade, cor e gênero.

A divulgação do estudo resulta de uma parceria da Secretaria-Geral da Presidência da República, da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), da UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO).

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