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Ator de Brasília revela ao mundo que é soropositivo e lança o musical 'Boa Sorte' para lutar contra o preconceito

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GABRIEL
Gabriel Estrëla vai narrar experiência com HIV em musical | Reprodução Facebook
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♫ ♫ É só isso...
Não tem mais jeito...
Acabou.
Boa sorte! ♫ ♫

Boa Sorte, de Vanessa da Mata e Ben Harper, foi a trilha sonora que precedeu a cena que mudaria a vida de Gabriel Estrëla. Em 2010, quando o jovem brasiliense foi buscar o resultado do exame de HIV em um laboratório da capital, havia uma cantora na sala de espera tocando violão. "A moça escolheu mal a música", ele recorda, em entrevista ao Brasil Post.

A canção daquele dia memorável também empresta o título para o próximo trabalho do ator, cantor e diretor de 23 anos.

O musical autobiográfico Boa Sorte, que vai estrear no fim de outubro em Brasília, conta a história de um jovem homossexual e soropositivo. Com todas as suas dúvidas, angústias e superações.

Convenhamos: mesmo em tempos em que todos têm voz nas redes sociais, aids e HIV não estão entre os assuntos mais discutidos. Quantas vezes você já leu um post de desabafo de um soropositivo no Facebook? Quantos amigos ou conhecidos compartilham as experiências desde a descoberta de que têm o vírus?

É justamente com o intuito de mudar esse cenário que Gabriel quer contar sua história e dar início a um debate livre de preconceitos:

"O que eu percebo é uma dificuldade — vinda da geração anterior à minha — de entender que a preocupação não é esconder [que possui o vírus]. É não poder falar sobre isso. Vivemos numa era de compartilhamento; não falar dói mais que a possibilidade de ser descoberto [que tem o vírus]. Os positivos que também querem falar não sentem abertura para isso."

Mas Gabriel deu o primeiro passo. Começou com este post corajoso há dez dias, revelando para o mundo que tem o vírus:

"Vivemos em um tempo de compartilhamento e eu compartilho com muito orgulho dessa vida que eu levo e é plena. Logo, por...

Posted by Boa Sorte on Segunda, 13 de julho de 2015


A melancólica batida de Boa Sorte, há cinco anos, foi o marco zero para tempos difíceis que viriam. "Eles [equipe do laboratório] me receberam na sala com uma psicóloga para me entregar o resultado, e foi tão ruim, tão ruim. Quando eu cheguei em casa, não consegui nem falar direito de tanto que eu chorava", relembra.

"Pensei que eu ia morrer. É o estigma que a gente conhece. Vê um caminho de terror: HIV, aids, morte. Foi meu primeiro pensamento. O preconceito é tanto, a certeza de morte é tamanha que foi quase uma experiência de morte de verdade."

Fundamental foi o apoio de toda a família para ele começar a lidar melhor com o diagnóstico. Mãe, pai e irmã fizeram o possível para ampará-lo e garantir o quanto ele era amado e estava seguro.

"Meu pai veio conversar de um jeito que eu nunca esqueci. Ele disse: 'É muito besta esse preconceito todo, sendo que todo mundo faz sexo sem camisinha. Na minha época, nem se falava em usar camisinha'. Minha irmã comentou que também se preocupava porque podia ficar grávida."

familia

O teatro também foi um suporte essencial. Na época em que foi diagnosticado, ele estava ensaiando o musical Rent. A peça mostra jovens dos anos 80 que tinham aids.

A música Seasons of Love o marcou porque sintetizava bem a positividade que ele buscava para viver com a nova condição — além da mensagem de viver intensamente o presente:

Em 2012, Estrëla montou a primeira versão de Boa Sorte na faculdade. Ele não se sentia preparado para levar adiante o projeto porque não conseguia falar livremente sobre suas dificuldades:

"Se você tá com uma gripe, você trata os sintomas e fica bem. Trata a coriza e a garganta inflamada. O HIV não se manifesta... É um pedaço de papel que diz que você é positivo. E você fica com um nó na cabeça de receber esse diagnóstico. Meu exame é bom, eu me sinto bem. Por que vou começar a tomar os medicamentos? Por que vou continuar se estão me dando efeitos colaterais?"

No final de 2014, Gabriel já se sentia muito melhor para falar sobre o HIV com outras pessoas. Foi nessa época que ele decidiu atuar como voluntário de uma ONG em Brasília — a Vida Positiva, que trabalha com crianças e adolescentes com o vírus.

A experiência possibilitou que conhecesse mais sobre a doença e as diferentes formas que as pessoas lidam com ela.

"Ninguém vê que a gente está se tratando. Conversei com um amigo e ele disse 'ah, é muito fácil viver com HIV'. Não foi fácil; foram cinco anos de processo. A banalização vem a partir de ver que as pessoas estão bem. Mas estar bem é um primeiro passo para abrir diálogo pro momento em que elas não estavam bem".

A decisão de Gabriel de contar ao mundo sobre o HIV foi abraçada pelos pais e pelo namorado dele, Gabriel Martins. "Meu namorado revisou meu texto, apertamos junto na hora de enviar", conta.

A transparência sempre foi regra número 1 do casal Gabriel-Gabriel.

"Eu contei [do HIV] antes de a gente começar a se relacionar sexualmente. Ele lidou bem melhor do que eu. Começou a fazer trabalho voluntário comigo, tá preparando material para alimentar a página [da peça de teatro], estuda comigo sobre o vírus e, se duvidar, tá sabendo mais que eu até... Realmente, ele vestiu a camisa."

gabriel namo

Boa Sorte!

O musical Boa Sorte vai abordar o período da descoberta do HIV até o dia em que Gabriel começa a tomar antirretroviral. O roteiro passa por questões familiares, relacionamentos amorosos, amizades, sexualidade e medos.

Todas as músicas escolhidas são de artistas consagrados da MPB. Em comum, elas falam do tema vida, além de efemeridade, liberdade e ciclos que começam ou se renovam.

A peça está em fase de escolha do elenco. A ideia é que, a princípio, tudo seja feito com voluntários que topem ajudar uma boa causa.

"Ainda não fechamos com o teatro, queremos garantir que não tenha custos. O dinheiro da bilheteria vai ser revertida pra ONGs que lidam com soropositivos", adianta Estrëla.

Para o futuro, ele planeja continuar investindo na temática do HIV no teatro. "Nos anos 90, esse assunto estava muito presente nas artes e eu quero trazer esse movimento de volta", conclui.


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