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Aplicativo transforma usuários nos olhos de uma pessoa cega para ajudá-la no dia a dia

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BE MY EYES
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Escolher a roupa que você vai usar. Verificar a validade dos alimentos na geladeira. Ajustar o sistema de som do seu computador. Alimentar os animais de estimação.

Essas são tarefas cotidianas com que qualquer pessoa tem de lidar, mas para quem tem deficiência visual, podem ser um obstáculo na rotina.

Pensando nisso, o aplicativo Be My Eyes, desenvolvido na Dinamarca, é, como o próprio nome diz, uma maneira de "emprestar" os olhos para uma pessoa cega. Trata-se de uma ferramenta para conectar usuários cegos a voluntários com visão, por meio de chamadas de áudio e de vídeo.

Thiago Couto é um dos voluntários com visão e utiliza o aplicativo há um ano. Desde que fez o download, recebeu quatro ligações. Isso porque o número de pessoas disponíveis para ajudar é muito maior do que a de pessoas cegas. São mais de 360 mil voluntários contra quase 28 mil usuários cegos, de acordo com dados dos desenvolvedores.

“Em 2015, conheci o Be My Eyes por meio de um amigo, e desde então tenho o aplicativo no celular. Fico feliz por tê-lo usado apenas quatro vezes devido à sua grande quantidade de voluntários dispostos e disponíveis a ajudar. O Be My Eyes já me deu a oportunidade de ajudar pessoas resolvendo alguns problemas em computadores, verificando a data de validade de alguns alimentos e ajudando a checar o nível de água e a quantidade de ração para animais de estimação, por exemplo."

Como funciona?

O serviço é bem simples. Há duas opções de cadastro: usuários com visão e usuários sem visão. Quando um usuário sem visão precisa de assistência, ele inicia uma ligação. Se você recebe esta ligação mas não pode atendê-la no momento, não tem problema: A solicitação é encaminhada para outro usuário.

O sistema funciona via áudio e vídeo ao vivo e as chamadas podem ser um pedido de ajuda sobre qualquer coisa, desde escolher uma camiseta até conversar sobre algum tema específico.

Além disso, você pode selecionar o idioma que gostaria de receber ligações — e a língua não está restrita aos países de onde saem e para onde chegam as ligações. Você pode atender uma ligação em português mesmo estando em Londres, como aconteceu com outra usuária voluntária, Ludmilla Lomba, que já atendeu três chamadas.

“A primeira ligação que recebi foi de um rapaz que teve problemas com o computador. O narrador parou de falar e ele não estava conseguindo usar o aparelho. Ajudei indicando o que ele deveria fazer com o mouse: 'desce mais', 'direita', 'mais um pouco', essas orientações. A segunda chamada caiu quando atendi, então não consegui ajudar. A terceira foi a do Leonardo e nós conversamos por 2 horas. Ele gosta muito de falar e acho que a ligação serviu para isso também."

A busca por um cão guia

Leonardo, um dos usuários atendidos pela Ludmilla, não nasceu cego. Ele perdeu a visão há 6 anos, em decorrência de uma meningite. Antes disso, ele conta que era uma pessoa muito livre e independente, mas a sua condição o fez repensar vários contextos de sua vida, como a questão da organização e do trabalho em equipe. Para ele, o aplicativo, inclusive, o ajuda nisso.

"Uso o app há menos de 1 ano e acho sensacional. É prático, você sabe que as pessoas enxergam e ninguém foi grosseiro comigo. Perdi a visão há 6 anos devido a uma meningite. No início era totalmente dependente. Hoje, já voltei a estudar Direito para concluir a minha faculdade.

Eu aprendi a trabalhar em equipe e a valorizar as pessoas que estão ao meu lado. O deficiente visual é muito metódico. Se você tira uma coisa do lugar, você já se sente perdido. Então, conviver com um deficiente não é fácil, eu sei disso. Quando eu enxergava, era muito bagunceiro. Hoje eu sei a importância que têm pra mim a ordem e a organização.

Comecei a usar o app para me ajudar com isso no dia a dia. Fico sozinho em casa a maior parte do tempo, então preciso de auxílio em relação a roupa, à validade de alimentos, às coisas que tenho na geladeira. Com o tempo de uso, percebi que o Be My Eyes me conectava com tanta gente bacana, voluntariosa, que estava ali disposta a ajudar. Então eu mudei o meu foco: passei a usar as ligações para criar relações com as pessoas e, principalmente, para tentar encontrar um cão guia."

Leonardo diz estar encontrando muita dificuldade em adotar o animalzinho aqui no Brasil.

"Aqui existe uma fila de espera de mais de 3 mil pessoas. Resolvi pedir ajuda aos voluntários que estão morando fora do país. Já me conectei com pessoas que estão na Itália, no Japão, nos Estados Unidos e com a Ludmilla, que está na Inglaterra. Ela foi além do que o app promove. Trocamos nossos contatos e ela teve boa vontade em me ajudar na busca pelo cão guia."

Do outro lado do oceano Atlântico, Ludmilla se sensibilizou com a luta de Leonardo.

"Ele está tão determinado que disse que viajaria para qualquer lugar do mundo pra conhecer um cão guia. Enquanto ele falava, fiz umas pesquisas, o inscrevi em filas de espera, mandei mais de 10 e-mails para instituições aqui na Europa e liguei para outras. Este é um processo realmente muito burocrático e ainda não recebi nenhuma resposta.

Tivemos a ideia de adotar um filhote e contratar um adestrador. Ligamos pra alguns no Brasil, mandamos e-mails para outros aqui fora, mas ainda assim é difícil achar alguém que tenha know how nessa área. É algo muito específico e requer treinamento cuidadoso. Estou com o contato do Leonardo e vou continuar tentando ajudá-lo daqui. Em pouco tempo de conversa, deu para perceber que ele é bastante dinâmico e está cheio de vontade de sair por aí e conhecer o mundo com ajuda do cão guia."

Alcance do aplicativo

Apoiado pela Danish Blind Society, a Velux Foundations e a empresa de software Robocat, o aplicativo Be My Eyes está disponível apenas para os usuários de IOS, o sistema operacional que roda exclusivamente em aparelhos da Apple: iPhones e iPads.

O download gratuito e oficial pode ser feito aqui.

No site do app, contudo, há um link para que você possa demonstrar interesse em ter o programa na versão Android.

Para Leonardo, o fato de o Be My Eyes só estar disponível em um formato influencia no alcance dos usuários sem visão, que ainda acumulam um número muito menor de perfis cadastrados quando comparado aos usuários com visão.

"Além de ter o Be My Eyes, a tecnologia IOS me permite gravar as aulas da faculdade para eu estudar em casa, posso ter aplicativos que scanneiam e leem para mim as apostilas que meus professores entregam e, ainda, o smartphone pode ser configurado para oferecer maior acessibilidade ao deficiente visual. Mas eu sei que é um produto extremamente caro. Nem todo deficiente visual pode ter. Eu tenho muitos amigos que têm smartphones também acessíveis, mas que funcionam com o sistema Android. Os desenvolvedores do Be My Eyes deveriam lançar neste formato o quanto antes. Só assim para conseguir melhorar a vida de mais usuários sem visão."

O aplicativo, no entanto, depende de doações e da rede de voluntários para continuar crescendo. Idealizado em 2012 por Hans Jorgen Wiberg, um artesão dinamarquês que perdeu a visão aos 25 anos, o Be My Eyes funciona como uma organização sem fins lucrativos.

A rede de cooperação entre os usuários os encoraja a trabalhar no código aberto do software no Github e, assim, traduzir o serviço para outras línguas e outras plataformas.

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