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Livros e literatura: Por que cenas de sexo são tão importantes para os leitores jovens

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Estatística deprimente do dia: menos de metade dos Estados americanos exigem que educação sexual faça parte do currículo das escolas públicas. Deles, somente 19 exigem que as informações sejam “médica, factual ou tecnicamente” precisas.

Com tamanho déficit no ensino de sexo e de doenças sexualmente transmissíveis – sem falar em questões mais complexas, como consentimento --, como os jovens estão aprendendo sobre sexo?

Pais, parentes e amigos são todos fontes prováveis. Mas, para os adolescentes que querem estar informados antes de se aventurar na vida amorosa, redes sociais e livros para o público jovem estão cheios de informações – algumas úteis, algumas erradas e algumas completamente prejudiciais.

O mundo do Tumblr é dominado pelos adolescentes e tem vários sites de pornô softcore apreciados pelas meninas, mas também tem muito conteúdo que glamuriza a magreza.

Igualmente, há romances que visam ao público adolescente que explicam diretamente como denunciar estupros, mas outros livros tratam do assunto de maneira leve, em nome da ambiguidade que acompanha a linguagem artística. Ambas as abordagens têm seus propósitos, mas há autores que acreditam que uma discussão clara e explícita sobre sexo tem função importante no mundo dos romances juvenis.

Anna Breslaw, ex-editora de sexo e relacionamentos da revista Cosmopolitan , faz parte desse último grupo.

livros reprodução

Em seu próximo romance, Scarlett Epstein Hates It Here (Scarlett Epstein odeia este lugar, em tradução livre), uma protagonista engraçada e cínica conversa com o amigo geniozinho sobre exploração sexual. Ambos são marinheiros de primeira viagem, mas Audrey decide pesquisar na internet antes de conversar com os amigos. Aprendemos que a Wikipédia é uma ferramenta muito usada pelos adolescentes que querem saber mais sobre sexo.

O livro de Breslaw tem vários insights divertidos como esse, cada um com sua conclusão ligeiramente moralista. Ao longo da história, Scarlett, a protagonista, lida com luto, ciúme e suas próprias tendências a julgar os outros. Ela pesa os prós e os contras de perder a virgindade com um amigo próximo; aprende a expressar suas opiniões e desejos de maneira gentil. Nenhuma dessas progressões é forçada. Mas o livro deixa muito claras suas intenções.

Eu era uma adolescente esperta, mas, se meu livro predileto sugerisse que não estão se aproveitando de você mesmo que você esteja bêbada demais, eu teria acreditado.

“Se os leitores forem adolescentes”, explica Breslaw por telefone ao The Huffington Post, “não gostaria que eles ficassem com a ideia de que certa coisa é OK quando ela não é OK e poderia levá-los a fazer algo que não é bom para eles”.

Ela continua: “Se eu escrevesse uma cena num livro juvenil em que alguém transa bêbado, e não há consentimento claro, seria algo que teria de ser resolvido [...] me sentiria muito mal de colocar no mundo um livro em que o personagem principal não aprende que isso não é OK”.

guy book

Mas isso não quer dizer que Breslaw seja contra falar de sexo na literatura juvenil. Pelo contrário, ela é a favor. “Acho que você pode ter 17 cenas de sexo em um livro juvenil”, diz ela, rindo.

“Esse gênero fala muito de romance, de se apaixonar pela primeira vez. E sexo é parte disso. Se você está no último ano do ensino médio e não há menção a sexo, seria esquisito. Seria como escrever um romance para jovens sobre um bando de adultos de Nova York sem falar em álcool.”

O assunto só fica complicado, diz ela, quando envolve sexo problemático. Se um romance juvenil trata de estupro, ou de personagens de baixa auto-estima, esses aspectos não deveriam ser apresentados simplesmente como fatos da vida, mas como questões que contêm lições.

Embora os adultos tenham mais facilidade para discernir a perspectiva do personagem das opiniões do autor, os adolescentes são mais impressionáveis, diz Breslaw.

“Não se trata de subestimar os adolescente ou nada parecido”, diz ela. “Não tenho uma postura paternalista. Eu era uma adolescente esperta, mas, se meu livro predileto sugerisse que não estão se aproveitando de você mesmo que você esteja bêbada demais, eu teria acreditado.”

A ideia de que os adolescentes são mais impressionáveis que os adultos é demonstrável além das anedotas de Breslaw. Um estudo relatado pela revista Smithsonian Magazine revelou que os jovens são mais “vulneráveis” e “altamente abertos a feedbacks positivos”.

Conselhos diretos sobre certos assuntos pode parecer exagero para leitores adultos, mas para os adolescentes eles podem ajudar a navegar interações românticas e a entender certas atitudes prejudiciais.

As obras de fan fiction são uma maneira de navegar esse novo mundo – tanto para os adolescentes do mundo real quanto para uma personagem de Breslaw. Scarlett escreve histórias longas sobre seus personagens favoritos de uma série de TV que foi cancelada.

Ela se insere nas tramas. Fazendo isso, ela consegue entender seus próprios sentimentos e experimenta identidades e interações antes de se comprometer na vida real.

Breslaw se inspirou nas suas próprias experiências para criar essas cenas – ela escrevia fan fiction online quando estava no ensino médio.

“Minha vida sexual na escola era não-existente”, diz ela. “Achava que não gostava de ninguém. Tive algumas paixões idiotas, mas não me sentia à vontade no meu corpo. Como várias meninas, imagino. Nunca me coloquei nas minhas histórias, mas acho que é por isso que eu gostava tanto. Se você está pouco à vontade com sua sexualidade nessa idade, é uma maneira segura e divertida de explorar a sexualidade por meio de personagens que não têm nenhuma participação na sua vida real.”

Breslaw também menciona o fato de que a comunidade da fan fiction é composta por muitas mulheres, homens gays e pessoas “que são mais marginalizadas no dia-a-dia, pessoas que muitas vezes são desconsideradas”.

“Acho que a comunidade [fanfic] seria muito menor se houvesse menos Jonathan Franzens”, diz ela, “mas não há menos Jonathan Franzens. Ainda tem muitos”.

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