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O que a nova história de J.K. Rowling revela sobre a apropriação cultural

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Depois de deixar os fãs de “Harry Potter” vivendo de releituras e migalhas sobre a professora McGonagall vindos do Pottermore por um período que pareceu durar décadas, J.K. Rowling voltou com a corda toda.

Uma peça de teatro, Harry Potter and the Cursed Child (Harry Potter e a criança maldita), mostrará aos fãs uma visão da vida de Harry como pai de família, com sua vida como Auror ocupado, marido e pai de um filho problemático.

O filme ainda inédito Animais Fantásticos e Onde Habitam, com Eddie Redmayne, levará o mundo dos magos à tela grande pela primeira vez desde As Relíquias da Morte. E, para preparar-se para esse segundo projeto, Rowling publicou recentemente a história em quatro partes History of Magic in North America (História da magia na América do Norte), que lança um olhar sobre os julgamentos das “bruxas” de Salém, o Congresso de Magia dos Estados Unidos da América, a escola de feitiçaria de Ilvermorny e os skinwalkers (NT: literalmente “pessoas que andam em peles”. Na tradição navajo, são bruxos que possuem o poder de converter-se em animais ou disfarçar-se de animais).

Ah, quanto a esse último item: uma das quatro partes da história da magia escrita por Rowling trata da magia na “comunidade” indígena norte-americana, conforme a colocação dela, incluindo a tradição navajo dos skinwalkers, que Rowling descreveu como lendas que cercam os “Animagi” indígenas, nascidas de boatos espalhados por curandeiros invejosos.

Toda a seção escrita por Rowling sobre a magia indígena norte-americana, que apareceu no Pottermore na semana passada, passou por cima de toda a multidão de nações tribais singulares e diferentes em todo o continente, apostando em vez disso em generalizações e estereótipos vagos sobre a magia indígena. Com isso, atraiu uma reação negativa imediata de líderes e ativistas indígenas.

“Nós, povos indígenas, somos constantemente retratados como criaturas de fantasia”, escreveu a estudiosa cherokee Adrienne Keene em seu blog, Native Appropriations. “Mas não somos seres mágicos –somos povos contemporâneos. Ainda vivemos aqui e ainda praticamos nossas tradições espirituais, tradições essas que não são comparáveis a um mundo de magia completamente imaginário.”

Keene não foi a única a se manifestar. Sua resposta a History of Magic in North America foi reproduzida amplamente, juntamente com blogs, artigos e posts nas mídias sociais feitos por muitos leitores indígenas americanos incomodados com a inclusão superficial e generalizada de tradições e estereótipos indígenas na história.

O artista e autor Aaron Paquette, das Primeiras Nações (termo usado no Canadá para descrever os povos indígenas da região, com a exceção dos inuítes), falou sem meias-palavras em artigo publicado no “Ottawa Citizen”: “Isto é colonialismo. Para falar francamente, é roubo cultural. Estas histórias não pertencem a J.K. Rowling, ela não tem o direito de contá-las.”

Para quem estiver prestando atenção, está claro que Rowling cometeu uma gafe grave.

Quando se lêem e ouvem ativistas, autores e leitores indígenas americanos e das Primeiras Nações reagindo ao tratamento dado ao seu legado cultural, alguns pontos importantes reaparecem a todo momento:

History of Magic in North America se baseia em estereótipos gastos que apagam as distinções entre tribos, ignoram as culturas e tradições reais das diferentes nações indígenas e reforçam a concepção dos povos indígenas como sendo seres místicos, em lugar das pessoas reais que continuam a existir até hoje.

O livro é superficial e mal pesquisado. Não é um estudo detalhado e meticuloso das histórias de povos que habitam este continente há séculos.

A acadêmica Amy H. Sturgis, de ascendência Cherokee, me disse: “Algumas das descrições feitas por Rowling –a afirmação de que a comunidade de feiticeiros indígenas americanos era ‘especialmente versada na magia com animais e plantas’, por exemplo – guardam menos relação com as tradições culturais indígenas americanas que com os estereótipos do ‘nobre selvagem’ usadas há séculos por não indígenas para fazer os indígenas parecer exóticos e ‘outros’.”

Com relação à narrativa sobre os skinwalkers, recebida com ultraje especial, Sturgis disse que é especialmente preocupante ver Rowling utilizar uma tradição navajo “como lenda, como cortina de fumaça da história da magia ‘real’, e para divorciar essa tradição de suas origens específicas e aplicá-la à América indígena como um tudo”.

Uma coisa é certa: Rowling sabia pouco sobre o tema do qual estava escrevendo, e isso ficou evidente. “Acho que ela não possui o conhecimento necessário para escrever com correção sobre povos que são marginalizados”, me disse Debbie Reese, acadêmica da nação indígena Pueblo Nambe.

Reese é autora do blog American Indians in Children’s Literature, com resenhas cuidadosas de literatura infanto-juvenil que contém representações dos indígenas americanos, para detectar e apontar as representações equivocadas, muitas vezes grosseiras, as apropriações e os estereótipos prejudiciais contidos nos textos.

Na semana passada escrevi sobre o fato de a série Harry Potter original ser profundamente imbuída da cultura britânica, especificamente a narrativa das escolas internas, parte tradicional da literatura infanto-juvenil britânica.

Me pareceu inconveniente tirar o mundo da bruxaria de seu nicho aconchegante em Hogwarts; isso removeu a estrutura de história ambientada em uma escola, que tornou a série de livros tão familiar e aconchegante, e retirou a própria Rowling de sua zona de conforto. De repente ela estava escrevendo sobre a cultura mágica norte-americana, e, na realidade, o que é que Rowling sabe sobre a cultura norte-americana?

Considerando que a vivência e o legado cultural de J.K. Rowling são de uma pessoa branca e britânica, e considerando que a série original deu certo relatada dentro dos limites de um ambiente de escola interna britânica, talvez fizesse mais sentido a autora continuar com essa ambientação. Uma leitora, Milana, reagiu a meu artigo de outra maneira:

Parece estar gritando “quero que o Potterverso continue a ser branco”, mas não sou acadêmica.

Embora algumas pessoas de cor tenham aparecido em Hogwarts ao longo dos anos em papéis coadjuvantes, a ambientação da série fantástica que domina em grau espantoso a paisagem da literatura para adultos jovens é profundamente anglo-saxônica, predominantemente branca e culturalmente homogênea.

Para Milana e muitos outros leitores, por que os fãs de outros continentes, raças e culturas não podem ver qual seria a cara do mundo mágico paralelo em suas próprias sociedades?

Ao mesmo tempo, contudo, as reações negativas acima citadas sobre a inclusão inepta de tradições e cultura indígenas americanas em History of Magic in North America mostram claramente que muitos observadores não apreciaram a incorporação de suas culturas no universo “Harry Potter”, feita por Rowling.

Povos indígenas não são “acessórios” para você usar para diversificar suas obras de ficção.

Mas, já que estamos tendo esta discussão, como fica agora?

Teria havido uma maneira de Rowling escrever a história da magia na América do Norte sem escrever este livro History of Magic in North America, sem apropriar-se da cultura dos povos indígenas que compõem a maior parte da história do continente, ou sem apagá-la por completo?

O que devem guardar em mente os autores futuros que escreverem sobre as comunidades indígenas, sem fazer parte delas? E, de modo mais geral, como o mundo literário pode ampliar a representação de personagens indígenas e dos Primeiros Povos na literatura de fantasia para adultos jovens, sem proliferar esse tipo de catástrofe?

Milana (que pediu para não incluírmos seu nome completo), a autora do tuíte que nos levou a pensar sobre se o próprio Harry Potter deveria ser globalizado pelo bem da diversidade, me disse em e-mail que History of Magic in North America “infelizmente se lê como uma apropriação”.

Mas ela acredita que, “com a ajuda devida, Rowling poderia ter preservado e honrado o folclore indígena americano, em lugar de retratá-lo como uma cultura mítica que não existe mais”.
“Quando se tratam dos elementos de uma tradição profunda e espiritual, ou você cria relacionamentos e obtém permissão ou você não mexe nisso.” Aaron Paquette

A visão de Sturgis é semelhante. “Para falar da América do Norte é preciso falar da América indígena”, ela me disse, observando que a história é um passo evidente na criação de um ambiente receptivo para o filme “Animais Fantásticos e Onde Habitam” (o próximo do mundo de Harry Potter), ambientado na América do Norte.

“Teria sido impensável que Rowling tivesse ignorado as Primeiras Nações neste continente quando construiu sua história da magia”, disse a estudiosa. “Isto dito, o tratamento que ela deu ao tema não revelou o mesmo trabalho cuidadoso de pesquisa, o mesmo respeito e a mesma atenção aos detalhes mostrada no passado no tratamento dado a outras culturas mundiais. Nesse aspecto, fiquei decepcionada.”

Em suas pesquisas passadas, Sturgis escreveu extensamente sobre intersecções entre questões indígenas americanas e literatura fantástica, incluindo especificamente “Harry Potter”, e argumentou que autores que não sejam indígenas americanos não devem ser desautorizados a escrever sobre essa cultura. Em entrevista dada em 2009, a acadêmica disse à revista digital Journey to the Sea:

“Existe uma discussão grande sobre quem tem o direito de utilizar materiais tradicionais indígenas americanos, sobre quem é autêntico e digno de crédito. Essas perguntas me perturbam.” Apesar da proliferação de utilizações superficiais e descuidadas das tradições e da história indígena americana, como o que Rowling escreveu sobre os skinwalkers, ela explicou:

“Não penso que a solução seja impedir autores não indígenas de acessar esse material e se inspirar nele”.

Para Paquette, Rowling teria feito bem em pedir a ajuda de acadêmicos e líderes dos povos indígenas que pretendia usar em seu trabalho de ficção. “O fato de ela ter pego os povos distintos de todo um continente e ter posto todos no mesmo saco é algo que, lamentavelmente, não é novidade para os indígenas, mas surpreendeu por ter sido feito por uma autora que parecia preocupar-se com a justiça e os direitos humanos”, ele me disse.

“Consultar as comunidades que se pretende retratar em uma obra de ficção me parece que seria uma das primeiras coisas que deveriam ser feitas por uma escritora dotada dos recursos de J.K. Rowling.”

Paquette destacou que a indignação não se deve ao fato de “Rowling não ser indígena mas ousar escrever sobre histórias indígenas. ...

Quando se tratam dos elementos de uma tradição profunda e espiritual, ou você forma relacionamentos e obtém permissão ou você não mexe nisso.”

Ele até especificou que isso se estende às distinções entre nações indígenas. “Se eu decidisse reivindicar totalmente as histórias de outro povo indígena e reescrevê-las, o fato de eu também ser indígena não faria diferença.”

Mas nem todo o mundo concorda com essa filosofia.

Debbie Reese me disse sem meias-palavras que, para ela, pessoas de fora não devem escrever sobre povos indígenas nem incluir indígenas como personagens em uma franquia dominada por brancos. “Aquilo que Rowling criou não tem nada a ver conosco”, disse Reese, falando do mundo de magia de “Harry Potter”. “Ela (Rowling) e outros podem achar que falar de ‘feiticeiros’ indígenas é sinal de diversidade e inclusão, mas isso é simplesmente colocar-nos no palco dela para servirmos de enfeite a uma história que não tem nada a ver conosco.”

E Reese disse que muitas lideranças indígenas concordam com ela. “Se Rowling tivesse conversado com acadêmicos indígenas que trabalham na literatura e na mídia e com líderes indígenas, teria ouvido um ‘não faça isso’ inequívoco”, ela explicou, citando várias instâncias de indivíduos e líderes destacados deixando claro no Twitter que prefeririam que Rowling nem sequer tentasse escrever sobre a cultura deles.

“Histórias como a que ela escreveu vendem bem”, observou Reese, “e as coisas que vendem bem costumam ser feitas de novo e de novo. Com isso, fazem sobra ao trabalho de escritores indígenas, que mandam manuscritos às editoras, manuscritos que são rejeitados porque não se adequam às expectativas do mercado.”

Rowling é apenas o exemplo mais destacado e influente de uma história lamentavelmente muito comum: uma obra de ficção de um autor não indígena que, por descuido, faz uma representação equivocada de tradições culturais e folclore, recebendo por isso mais apoio institucional e mais difusão do que autores indígenas jamais alcançarão.

Não é apenas que esta história individual seja profundamente preocupante: o problema é que o imenso poder de marketing de J.K. Rowling difunde o retrato estereotipado e falho que ela faz dos povos indígenas, reafirmando uma longa história de representações ignorantes, avalizadas por brancos, e jogando para o escanteio as vozes de autores indígenas que escrevem com conhecimento cultural profundo e investimento pessoal enorme.

Como muitas vezes é o caso, contudo, a enorme influência de Rowling poderia facilmente ter efeito positivo.
Milana enxergou uma possibilidade de Rowling aproveitar sua influência quase sobrenatural para ajudar o Potterverso a se expandir de maneira sensível e bem pensada: “....se ela desse a outros escritores de cor sua bênção para desenvolver as escolas [internacionais] segundo um conceito central”, ela sugeriu.

Essa abordagem parece uma aposta num futuro muito incerto, mas não seria a primeira vez que um autor de grande renome utiliza seu nome para imprimir o selo de sua aprovação a acréscimos a uma série escritos por outros autores.

“Acho que muitos autores indígenas adorariam essa oportunidade”, disse Paquette. Os fãs poderiam hesitar diante de um “Harry Potter” não escrito por Rowling, mas a vantagem de ver outra escola de magia construída com o mesmo grau de conhecimento cultural arraigado que Rowling usou para criar Hogwarts poderia pesar mais que essa hesitação.

Deixando de lado a possibilidade hipotética de um “Harry Potter” redigido por co-autores, já existem muitos escritores indígenas americanos, escritores de cor e escritores de diversas comunidades marginalizadas que estão recorrendo à sua própria experiência e conhecimentos culturais para criar mundos de fantasia originais.

Paquette, que é Cree e Metis, é autor de um romance premiado para adultos jovens, Lightfinder, inspirado em tradições dos Cree. Mas, em um mundo literário dominado por brancos, os autores indígenas muitas vezes enfrentam grandes obstáculos.

“Não creio que haja necessidade de cobertura desde uma perspectiva branca, mas o endosso de gente como Rowling seria uma mão na roda”, disse Milena. Usar a reputação ímpar de Rowling para divulgar as histórias de autores indígenas de obras de fantasia, em lugar de afogar as vozes deles com mais uma fantasia indígena cheia de estereótipos e meias-verdades, seria um passo positivo.

Sturgis me disse que ainda espera que as explorações fictícias futuras do mundo de magia de “Harry Potter” na América do Norte melhorem, em relação ao que vimos até agora. “É muito problemático retratar toda a América indígena como um todo monolítico dotado das mesmas tradições e crenças.

A dúvida é se, quando detalha mais as informações que ela já obteve sobre a magia na América do Norte, Rowling vai observar os mesmos critérios de pesquisa cuidadosa e execução respeitosa que observou anteriormente em suas construções de mundops”.

Não existe uma via clara para evitar debacles semelhantes no futuro. Como disse Aaron Paquette, “não dá para agradar a todo o mundo ao mesmo tempo”. Muitos estudiosos, autores e ativistas indígenas prefeririam que autores não indígenas nem sequer se aventurassem a escrever sobre os povos indígenas. Outros veem a comunicação e colaboração ativa e atenta como sendo a abordagem ideal.

Para resolver o problema, porém, é preciso começar por ouvir o que estão dizendo as pessoas como Reese e Paquette. É preciso que o mundo literário utilize seu poder para promover as representações feitas por autores indígenas de suas próprias culturas e mitologias.

E é preciso que os autores brancos aprendam a importância de pesquisar profundamente e construir relacionamentos com os povos sobre os quais escrevem, em vez de utilizar estereótipos simplistas.
Infelizmente, se figuras de destaque como J.K. Rowling continuarem a agir como têm agido, as consequências para os povos indígenas não serão desprezíveis.

Reese apontou para as pesquisas de Stephanie Fryberg, que sugerem que os estereótipos indígenas que dominam a ficção e a representação cultural podem prejudicar a autoestima e as ambições dos jovens indígenas. Em um estudo intitulado

Of Warrior Chiefs and Indian Princesses: The Psychological Consequences of American Indian Mascots (Sobre chefes guerreiros e princesas indígenas: as consequências psicológicas dos mascotes indígenas americanos),

Fryberg e seus coautores concluíram que a exposição aos mascotes indígenas estereotípicos limita a visão que os jovens indígenas têm de seu próprio futuro e os leva a dar menos valor às suas comunidades.

A perpetuação ampla em toda a sociedade de uma imagem específica dos povos indígenas –uma imagem em que falta a apreciação da riqueza de distinções entre as tribos, da história real e rica dessas nações e da presença contínua e vital dos povos indígenas na América de hoje—tira o espaço que poderia ser ocupado por representações mais diversificadas e empoderadoras dos indígenas, algo que reconhecesse sua humanidade individual, suas vidas contemporâneas reais e o valor de suas culturas.

“As obras de ficção funcionam bem quando a realidade das pessoas cuja vida é retratada é conhecida por leitores que dominam o assunto desde o início”, explicou Reese. “No caso dos povos indígenas, não existe essa familiaridade. O que a maioria das pessoas supostamente ‘sabe’ sobre eles é algo místico, romântico, trágico, nobre... mas não tem nada a ver conosco, povos de hoje que ocupamos um status singular nos Estados Unidos.”

Agora pessoas em todo o mundo podem estar sendo reapresentadas aos povos indígenas americanos pela força que é “Harry Potter” de J.K. Rowling, e o tratamento apropriador e estereotipado dado às comunidades indígenas não apenas representa uma oportunidade perdida, mas um reforço maciço de um problema que já prejudica os indígenas.

Mas não é tarde demais para Rowling fazer uso de sua fama internacional e sua presença poderosa no Twitter para fazer uma diferença positiva para os povos indígenas. Reese sugeriu que a escritora tome a iniciativa de pedir desculpas abertamente e explicar a seus leitores onde foi que errou. “Isso ajudaria todos que foram impactados por suas histórias, e, de quebra, acho que não faria mal algum ao perfil dela”, Reese me disse. “Rowling pode admitir e responsabilizar-se pelo que fez e pode usar suas palavras para educar e informar leitores em todo o mundo.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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