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Escritoras são menos reconhecidas por suas obras do que os homens. O que estamos fazendo para mudar isso?

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As escritoras têm menos respeito. Seus livros são menos resenhados que os escritos por homens, e eles ganham menos prêmios. Até mesmo as personagens de ficção são inferiores; histórias centradas em protagonistas homens são mais elogiados.

Metade dos livros vencedores do Prêmio Pulitzer entre 2000 e 2015 foram escritos por homens e tinham homens como personagens principais, e outros 25% foram escritos por mulheres, mas eram sobre homens.

No prêmio Man Booker Prize, a disparidade é ainda maior.

Mas calma!

Ainda tem mais: segundo uma pesquisa informal realizada por uma editora, 22% dos autores que inspiram os autores de hoje são mulheres – os 78% restantes são homens.

O setor editorial pode estar numa situação melhor que outros em termos de paridade de gênero. No cinema, por exemplo, o desafio é maior, se o Oscar serve como indicação. E as equipes das editoras são desproporcionalmente femininas – embora majoritariamente brancas.

O mundo da literatura merece um exame atento, pois costuma ser a fonte das histórias que disseminamos. Quatro dos oito filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano eram adaptações de livros – cinco se você contar Mad Max, uma adaptação de uma história em quadrinhos.

Um número desproporcionalmente grande de livros centrados em homens pode significar um número desproporcionalmente grande de filmes – e proporcionalmente menos conversas sobre as experiências femininas. Tudo isso para dizer: é um problema que merece ser discutido.

E essa discussão está acontecendo. Existem blogs dedicados a livros sobre mulheres; eu escrevo um deles.

Outros, muito eloquentes, falam de evitar autores misóginos. E agora?

Em On Pandering, Claire Vaye Watkins dá algumas sugestões. A mais vaga e mais forte: “Vamos queimar essa porra de sistema e construir algo melhor”.

É um chamado que gerou muitas respostas, e com resultados ambíguos. Amy Collier fez o que muitas mulheres determinadas fariam: lançou uma campanha no Kickstarter.

Confrontando o abismo sexista que separa autores e autoras, ela pediu que os participantes da campanha apoiassem sua causa: ler um romance de Jonathan Franzen, mas só se ela recebesse por isso.


Vamos olhar bem para essa questão e consertar a maneira como o privilégio se manifesta nas instituições.


Pagar mulheres para ler o terrível cânone masculino em vez de esperar que o façamos de graça e com gratidão intelectual.

“É piada e não é”, explica ela.

“Ler um livro demora bastante. Você passa uma parte minúscula mas mensurável da sua vida o fazendo. Você entra na psicologia do livro, mesmo que ele não esteja nas suas mãos ou nos seus olhos. Então, quanto custaria para mim ler um livro que realmente não quero ler, que tira a minha força e a das outras mulheres?”

A campanha meio de brincadeira arrecadou mais de US$ 1 mil antes de ser suspensa pelo Kickstarter. Questionado a respeito, um porta-voz da empresa explicou num email compartilhado pelo Jezebel:

“Todo projeto precisa de um plano para criar algo e compartilhar essa criação como mundo. Em algum ponto, o criador deve poder dizer: ‘Está pronto. Eis o que criamos. Divirtam-se!”.

Justo – mas essas mesmas regras não impediram que uma campanha de um cara para fazer uma salada de batata fosse até o fim. Mais uma prova de que uma questão tão insidiosa como o sexismo, intangível, é fácil de desprezar – pelo menos no que diz respeito a campanhas de crowdfunding.

Outras respostas intangíveis para questões intangíveis de desigualdade entre os gêneros no mundo editorial geraram reações. Comentando sobre o excesso de textos pessoais sobre listas de livros para mulheres, Jia Tolentino escreveu no Jezebel:

“Sabemos que os autores homens dominam muito das atenções literárias; a solução não é enfiar todo o resto das pessoas em um vidro de xarope de justiça social e beber tudo de uma vez”.

Em vez de fazer campanha por mudanças, ela sugere comprar, ler e debater uma gama diversa de vozes. Ao contrário de um texto pessoal, um bom livro é um forte agente de mudanças. Pode ser um lar onde vozes ausentes do coro podem ser ouvidas. É um recurso primário. Você consegue segurá-lo nas mãos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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