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Precisamos falar sobre Luana: lésbica, pobre e negra, morta após ser espancada por PMs

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Luana Barbosa dos Reis, 34 anos, saiu de casa para levar o seu filho de 14 anos para a aula. Ela morava no bairro Jardim Paiva, em Ribeirão Preto. Na esquina de sua rua, foi abordada por policiais militares. Luana não voltou naquela noite.

De acordo com informações do G1, ela morreu na quarta-feira (13), cinco dias após ter sido internada na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas (HC-UE). Consta na declaração de óbito que ela sofreu uma isquemia cerebral aguda causada por traumatismo crânio-encefálico.

A vizinha da mulher, que preferiu não se identificar, afirmou ao jornal da Globo que Luana foi brutalmente agredida por pelo menos seis policiais na rua onde morava.

“Foi uma coisa de terrorismo que eu nunca tinha visto na minha vida. Eles foram muito violentos. Deram bastante cacetada nela, nas pernas, mas muito. Batiam com o cassetete”.

Os PMs Douglas Luiz de Paula, Fábio Donizeti Pultz e André Donizeti Camilo, do 51 Batalhão da corporação, são os suspeitos e estão sendo investigados.

Para a irmã da vítima, Roseli, tudo aconteceu muito rápido.

“Foi questão de dez minutos para começarem os gritos e os tiros. Ao abrirmos o portão, já estava uma cena de guerra, com policial apontando arma, vizinhos correndo e minha irmã gritando pedindo ajuda”.

O tenente coronel da PM, Francisco Mango Neto, ouvido pelo G1, nega as agressões e informou que o motivo da abordagem era a suspeita de que Luana dirigia naquele momento uma moto roubada.

Segundo ele, a mulher "se mostrou exaltada" desde o início da conversa com os policiais e que o uso da força foi preciso para "contê-la após xingamentos".

“Eu acredito que não [tenha havido excesso]. Na realidade foi para contê-la. Tanto que os policiais estavam muito mais lesionados, com cortes, e ela não. Ela foi íntegra para a delegacia, lá foi solicitado exame de corpo de delito, o qual ela deveria passar”.

Mas a versão relatada por Roseli à Ponte Jornalismo difere bastante da do policial. De acordo com a irmã, após ameaçarem ela e sua mãe, os PMs invadiram a casa em que moravam escoltando o filho de Luana e perguntaram se ela estava envolvida com o tráfico de drogas.

“Os policiais não falaram por que abordaram ela e saíram de casa sem falar o que estavam procurando. Perguntei o que tinha acontecido, falaram que ela tinha agredido um policial e que estavam fazendo um procedimento normal no bairro”.

No documento oficial da delegacia, os policiais alegam que foram desacatados e agredidos pela mulher, que estava "descontrolada". Um dos policiais disse ter sofrido ferimentos na boca e o outro teve uma lesão no pé. Já Luana foi morta, com brutalidade.

À reportagem da Ponte, um familiar relatou que Luana estava só com as peças íntimas na delegacia, tinha os olhos inchados e vomitava. Foi ele quem ajudou Luana a assinar os termos, os quais ela mal podia enxergar ou ler o conteúdo. "Ela não conseguia ficar em pé, parecia o corpo de alguém que não tinha ossos”, contou.

Além de negar as denúncias feitas pela família, o coronel afirma que foi solicitado um laudo que vai apurar se a causa da isquemia foi, de fato, a violência:

“Vamos apurar se esse AVE ela teve por lesão ou se teve por um outro motivo, como drogas, anabolizantes, porque ela era uma lutadora de arte marcial, bem forte.”

Passagem pela polícia e ressocialização

Para a família de Luana, ouvida pela Ponte Jornalismo, outro fator agravante do espancamento era o fato de ela ter um registro policial anterior, quando foi acusada de porte de arma e roubo. Luana deixou a prisão em 2009 e, segundo sua irmã, ela continuou os estudos e trabalhava como faxineira, garçonete e vendedora.

“Ela não pode refazer a vida? Ela não tem mais direitos e nem é ser humano por ter passagem? Não tinha nenhuma acusação contra ela. Estão tentando usar o fato de ela já ter tido passagem para convencer a opinião publica de que foi merecido. Que bandido bom é bandido morto. Por que não levaram ela presa pelo desacato? Por que fizeram tudo isso com ela? Ela já estava rendida, não tinha necessidade disso."

Lesbofobia e discriminação

Para Roseli, sua irmã foi vítima de lesbofobia.

"A Luana já tinha passado por preconceito antes, em uma festa com a namorada. Ela ja tinha levantado a blusa uma vez pra mostrar que era mulher e não apanhar dos caras. Talvez aquela abordagem teria sido outra se ela se vestisse de maneira diferente e tivesse outra aparência. Ela dizia que não aguentava mais ser parada nas ruas daqui. Ela pagou o preço por parecer um homem negro e pobre, ela foi abordada como outros homens da periferia são."

Luana era mulher, lésbica, negra, mãe, de periferia, com passagem pela polícia. De cara, ela foi considerada culpada. Foi vítima não somente da força dos policiais, mas de uma série de violências estruturais de nossa sociedade. Como ela, infelizmente, existem milhares de mulheres que são submetidas a situações como essa. Precisamos falar sobre Luana.


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