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Para além de Dilma: Por que o desemprego no Brasil aumentará ainda mais nesta década

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Não é difícil se lembrar de alguém próximo que perdeu emprego e ainda não conseguiu se recolocar no mercado de trabalho — e essa realidade é cada vez mais comum no País inteiro.

A taxa de desocupação (porcentagem de quem procura emprego, mas não acha) atingiu 10,9% nos três primeiros meses deste ano. Isso significa que o Brasil tem mais de 11,1 milhões de desempregados, um aumento de 22,2% (dois milhões de pessoas!) em relação ao número de desempregados do período imediatamente anterior — outubro a dezembro de 2015.

Os dados, divulgados na última sexta-feira (29) pelo IBGE, também são recorde para a série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012.

Diante de um panorama tão ruim, as expectativas também não aliviam. Economistas consultados pelo HuffPost Brasil são unânimes: ainda não chegamos ao auge do desemprego — o que significa que tempos (mais) difíceis estão por vir.

“Não se chegou ao fundo do poço, na verdade, pode ser bem fundo. Nem sabemos onde esse fundo está”, disse a professora da FGV e sócia da consultoria Stokos Economics Research, Juliana Inhasz. “É uma situação muito nova, nunca vivemos isso.”

Segundo ela, a perspectiva agora é de aumento do desemprego. “Não me surpreende que a taxa de desemprego chegue a 12,50% até o meio do ano que vem.”

A opinião é compartilhada pelo economista da Cofecon (Confederação Federal de Economia) e pós-doutorando da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Luciano D'Agostini. “O desemprego entre o fim de 2016 e início de 2017 beirará os 13%”, prevê.

Para ele, os próximos anos devem ser ainda mais difíceis: “Entre o fim de 2017 e meados do início de 2018, beirará os 17% [a taxa de desemprego medida pelo IBGE].”

As perspectivas vão ao encontro daquelas publicadas no Relatório Panorama Econômico Global do FMI (Fundo Monetário Internacional). De acordo com o estudo, a “recessão cobra seu preço no emprego e na renda”.

Até mesmo uma possível melhora no PIB brasileiro não deve significar mais empregos: a expectativa do Fundo é que o desemprego cresça de 6,8% em 2015 para 9,2% em 2016 e 10,2% em 2017.

“Para melhorar, é preciso piorar antes”

As previsões assustam, mas Juliana Inhasz explica que a taxa de desemprego é sempre o último indicador a mostrar melhora em tempos de recessão.

“No início da crise, quando alguns indicadores já mostravam desaceleração da economia, a taxa de desemprego permanecia igual. Mas, desde 2015, ela vem caindo a cada mês e deve continuar assim por algum tempo, antes de se estabilizar. É um dos últimos indicadores a reagir.”

Isso acontece porque os empresários dificilmente vão abrir vagas enquanto não virem um sinal de melhora na economia. O que vem acontecendo não é só realocação de empregados, mas um corte de vagas.

A explicação é simples: com a inflação pressionando os preços, juros altos e o desemprego já batendo na porta dos brasileiros, o consumo cai drasticamente e as empresas precisam diminuir o ritmo de trabalho. Se a produção não é mais como antes, o empresário precisa reduzir o número de funcionários, para ajustá-la à demanda.

Ou seja, enquanto a inflação não estabilizar e o consumo não aumentar, as vagas permanecerão fechadas. “Os tempos não são propícios para arriscar, investir em tecnologia e aumento de produção”, analisa a economista.

Para o economista da Cofecon, o futuro do mercado de trabalho está diretamente ligado aos desdobramentos da política brasileira. Segundo ele, a melhora da situação vai depender de uma série de fatos como: um novo plano estrutural; a readequação do orçamento público; a queda do endividamento das famílias; a melhora da percepção do chamado “Risco Brasil”; a queda da inflação e dos juros; e a volta da confiança dos empresários. Porém, a melhora de todo este conjunto é “lenta e gradual.”

A professora de economia da FGV explica que, quanto mais rápido forem tomadas as medidas que preveem ajuste fiscal, mais rápida será a melhora no mercado.

“Se este governo ou o próximo [caso Michel Temer substitua Dilma Rousseff] conseguirem reverter a situação, em um cenário muito bom, as coisas começam a melhorar em 2018. Já em um cenário pessimista, no qual não se faça qualquer reforma, muito provavelmente a situação só vai melhorar por 2019 ou 2020”, diz. “A questão é que a melhora da economia depende, basicamente, da política fiscal, que demora para ser implantada.”

A economista avalia que o Brasil não passou ainda pela “pior fase”, uma vez que ajustes, corte de gastos e planos para conter a dívida pública nem saíram do papel.

“Para melhorar hoje, precisamos piorar. A melhoria da economia passa por uma piora desse cenário que vemos hoje. É como se a gente precisasse descer um pouco para subir. A questão é: por que não se tomou impulso quando começamos a cair? Não fizemos nada até agora.”

Ela alerta que o governo precisa agir antes que o próprio mercado faça esse ajuste na economia brasileira. Um exemplo de ajuste do mercado é o pequeno alívio dos preços.

Em março, a inflação oficial fechou em 0,43%, o que representa uma desaceleração em relação a fevereiro, quando o índice fechou em 0,9%, e também na comparação com março do ano passado, quando a variação dos preços foi de 1,32%.

“A recessão está fazendo o ajuste que o governo não fez. A demanda está caindo porque o brasileiro está perdendo o poder de compra e isso está fazendo a inflação ceder. Agora sentimos alívio nos preços, mas a que preço? Não existe mais poder de compra no País.”

Junto ao desemprego, o arrocho salarial

Como se já não bastasse estar sem emprego, quem recebe uma proposta já percebeu que o salário está bem abaixo do que costumava ser. E não é só impressão.

Uma pesquisa feita pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisa e Economia) mostra que a média dos ajustes salariais em março de 2016 foi de 11%, 0,1 ponto percentual abaixo da inflação acumulada nos últimos 12 meses, que foi de 11,1%, de acordo com o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Nas convenções coletivas, a média foi de 10% e os acordos foi de 11%.

O estudo mostra ainda que 60,2% das negociações resultaram em ajustes salariais abaixo da inflação. Dos 189 acordos coletivos que trataram de ajustes salariais, 12 estabeleceram redução de jornada acompanhada de redução de salários, e destes, seis utilizaram o PPE (Programa de Proteção ao Emprego).

Segundo Juliana Inhasz, em tempos de desemprego, o trabalhador perde a “barganha” para negociar salário. No pleno emprego, os salários sobem, pois não há muitas pessoas sem emprego. Então, o empregador terá de oferecer uma remuneração mais vantajosa para atrair os profissionais.

Num cenário contrário, quando existem muitos desempregados, o salário cai porque a oferta de mão-de-obra desocupada é grande.

“Não só o desemprego vai aumentar, como a massa salarial vai cair muito”, explica a economista. “Com menor salário, a demanda cai mais ainda e as pessoas consomem menos; o comércio fecha as portas e manda mais pessoas embora.”

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