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O que eu, mulher heterossexual, aprendi em uma festa de sexo só para mulheres

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TEMPORADA DE ALGEMAS
VICTORIA DAWE, CORTESIA DE SAIA CLUBE
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A primeira vez que vi um lençol de borracha foi em uma aula de saúde na oitava série. A segunda foi em uma festa de sexo realizada no bairro do Lower East Side, na cidade de Nova York.

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Nunca pensei que um dia iria a uma festa de sexo. Festas de sexo, em minha opinião, eram um tipo de bacanal da vida real que você apenas vê em filmes pornô. Realmente não é a minha. Quero dizer, me considero uma mulher confiante e bastante aventureira sexualmente, mas sou muito contida no sentido de minhas preferências serem estritamente masculinas e de ser inclinada à monogamia.

“Então, por que eu teria ido a uma festa chique, somente de mulheres, no último fim de semana?”

Talvez tenha sido a voyeur dentro de mim que concordou quando a ideia veio ao meu encontro, mas os tons aparentemente feministas da empresa organizadora da festa reforçaram minha decisão.

Anunciada como uma “experiência feminina empoderadora”, o Skirt Club foi fundado em Londres, em 2014, para reunir “profissionais inteligentes em busca de uma exploração empoderadora em um ambiente privado e seguro”. Sou uma profissional inteligente e topo uma “exploração empoderadora”. Por que não dar uma chance?

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A festa começou às 21h, em um cobertura num sábado à noite. Minha amiga Kristin, a quem tive de dar um sermão para me acompanhar, e eu chegamos 20 minutos atrasadas. Não queríamos ser as primeiras a chegar, forçadas a jogar conversa fora por mais tempo do que o absolutamente necessário. Quando estávamos na porta, uma bonita britânica vestindo um espartilho decorado com correntes nos guiou pelo loft parcialmente iluminado, que estava decorado com pétalas de rosas e velas.

Recebemos taças de champanhe e, a primeira pessoa na qual reparei, foi uma bartender. Ela usava um maiô expondo completamente os seios, exceto os mamilos, que eram cobertos por paetês prateados. Eu e Kristin fomos conhecer o apartamento, rindo ao notar outro banheiro, a banheira de hidromassagem, remos, elásticos para cama e lençóis de borracha.

As primeiras horas foram estritamente sociáveis. Cerca de 50 mulheres, todas entre 21 e 49 anos, tomavam coquetéis e conversavam enquanto duas “chocolatiers” circulavam distribuindo doces — além de manteiga de cacau líquida. A única coisa que pensava era: “Aqui vamos nós”.

Devo fazer uma observação, porque trazer uma amiga para uma festa deste tipo não é algo corriqueiro. Por quê? Bem, acho que esta mensagem de texto resume tudo:

mensagem

"Jenna, você viu minha bunda pelada." Está é uma mensagem de texto real de Kristin um dia depois da festa

Depois de duas horas de festa, as degustações de chocolate e o bate-papo geral foram encerrados com a chegada de uma dançarina burlesca — uma morena esbelta com os olhos bem maquiados e um boá de plumas. No final da apresentação, as coisas passaram da observação para a ação.

A dançarina deixou que alguém lambesse chocolate em seu corpo praticamente desnudo e, depois, duas mulheres vestidas apenas com lingerie preta chegaram à sala e ofereceram seus corpos para um “body shot” (prática de beber a tequila “usando” o corpo de outra pessoa, lambendo o sal na pele e chupando o limão da boca do parceiro ao tomar as doses). Todas participamos. Afinal, frequentei a universidade. O que é uma pequena lambida de açúcar no traseiro de um estranho?

Isso levou a uma clara mudança no clima da sala, deixando muitas mulheres mais animadas a fazer propostas sexuais do que antes. Duas mulheres começaram a ficar no meio da sala, enquanto outras desapareceram por várias salas. Nenhuma porta ficou fechada, e qualquer pessoa podia entrar e sair como bem entendesse.

Eu e Kristin montamos um acampamento no banheiro do andar de cima. Ela preparou a banheira, entrou e eu sentei no balcão com minha champanhe. Ficamos lá cerca de 90% do tempo, saindo realmente apenas para repor nossas bebidas ou investigar o que estava acontecendo lá fora, para que pudéssemos comentar uma com a outra.

O banheiro se tornou nossa sala de estar, porque praticamente todas as outras superfícies — sofá, balcão ou cama — estavam ocupadas. Eu realmente não queria interromper o que estava rolando em outros cômodos, e a natureza transitória do banheiro fez com que este fosse um lugar extremamente interessante para ficar. As mulheres vinham usar o banheiro e ficavam para conversar... ou entravam no chuveiro separado para outras atividades.

Embora a banheira tenha se tornado um local para atividade sexual nas primeiras horas da manhã — depois que a desocupamos—, na maior parte da noite funcionou como uma mesa para que todas sentássemos em volta.

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Não estava nervosa para ir à festa, a não ser horas antes naquele dia.

Uma amiga perguntou: “Peraí, então é uma festa de sexo para garotas heterossexuais transarem com outras garotas heterossexuais?”. Gaguejei enquanto tentava explicar.

A fundadora do Skirt Club, Genevieve LeJeune, classificou o evento como um lugar onde “garotas heterossexuais experimentam, e garotas ‘bi’ encontram uma casa onde podem encontrar outras garotas ‘bi’”. Fazia sentido para mim, até alguém dizer aquilo em voz alta.

Não entendia muito bem por que garotas heterossexuais iam querer ficar com outras garotas heterossexuais.

À medida que a noite avançava, as bolhas na banheira de Kristin aumentavam cada vez mais, e os sons de gemidos na quarto ao lado ficavam cada vez mais altos. As mulheres começaram a entrar e sair do banheiro — cada vez com menos roupa. Meu top sobreviveu por três horas, e minha saia apenas 30 minutos a mais.

mulheres
As mulheres estavam usando muuuuito menos roupa do que isso, para ser honesta

Não havia pressão para ficar pelada, mas, quando ainda tinha roupas além do sutiã e da calcinha, outras mulheres pensaram que eu estava nervosa em participar — que eu queria, mas não tinha coragem. Elas me perguntavam por que eu não estava de calcinha e sutiã — ou simplesmente sem roupa — para me incluir, não para me criticar. Este nível de respeito foi consistente durante toda a noite.

No fim da noite, quase não percebi que todas estavam em vários estágios de nudez. A nudez se tornou completamente insignificante. Quero dizer, quando alguém está amarrado com uma corda elástica vermelha e curvado em frente a uma grande janela, sua nudez não parece tão relevante.

Há uma certa confiança que surge ao fazer strip-tease até ficar só de lingerie, quando todo mundo está quase ou completamente pelado. Provavelmente nunca me senti tão confiante em relação ao meu corpo praticamente nu.

Este ambiente confortável e libertador, de certa forma, justificou a entrada de US$ 180 (cerca de R$630) — é bastante fácil deixar a inibição de lado quando as condições permitem. A entrada também comprou a privacidade de um apartamento de luxo e o entendimento mútuo do “vale tudo” para todas as participantes.

Mas ficou claro que o Skirt Club atende a uma classe muito específica de mulheres. É uma experiência empoderadora, mas para uma “elite”, disponível apenas para mulheres que podem pagá-la.

A minha única crítica ao Skirt Club são os rótulos que eles usam para promover os eventos. LeJeune insistiu que suas festas não são “festas de sexo para lésbicas”, mas reuniões para “mulheres heterossexuais e bi-curiosas [pessoas que não homossexuais nem bissexuais, apenas mostram interesse em experimentar].

O que eu não havia entendido antes da festa, mas que agora entendo, é que essa distinção foi feita para incluir mulheres que gostariam de ter experiências sexuais com mulheres, mas que não necessariamente definem suas identidades como bissexuais ou lésbicas. A intenção parece ser inclusiva, não alienadora, mas aquela suposta inclusão vem acompanhada com seus problemas.

LeJeune afirmou que mulheres gays, especificamente, “muitas vezes se dão conta que não estão procurando o que oferecemos”, destacando um motivo pelo qual as festas não são promovidas para elas. Mas, quando disse a uma mulher gay, que é uma grande amiga minha, onde eu tinha ido um dia depois da festa, sua única resposta foi: “Onde estava meu convite?”.

***

No fim da noite, o apartamento havia se transformado em um antro de mil orgias. O amplo box de vidro de um banheiro tinha oito mulheres em dado momento. A banheira tinha seis. A banheira de hidromassagem estava cheia de taças de champanhe quebradas. Em cada cama, era quase impossível dizer onde uma mulher terminava e a outra começava.

Kristine e eu acabamos indo para um closet para decidir quando deveríamos ir embora, quando fomos interrompidas por duas mulheres beijando-se fervorosamente, uma puxando a cabeça da outra para baixo.

Em última análise, o Skirt Club é excelente para mulheres que querem explorar a própria sexualidade e estão buscando experimentar coisas diferentes em um espaço totalmente privado e seguro. Sendo heterossexual, agora com um pouco mais de visão sobre o sexo entre mulheres do que antes, iria outra vez para uma festa de sexo exclusivamente feminina?

Provavelmente não. No entanto, extremamente recomendo que outras mulheres participem de uma pelo menos uma vez nada vida.

Algumas aventuras realmente valem a pena, especialmente quando as roupas são opcionais.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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