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'Nude Laughing': Uma performance situada entre o erótico e o grotesco

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Aviso: esta reportagem contém cenas de nudez e pode não ser apropriada para ser vista no trabalho.

xandra ibarra

Nós a ouvimos antes de vê-la. O som das risadas da artista performática Xandra Ibarra, de Oakland, ecoou do outro lado do Broad Museum, por onde eu estava andando com um amigo. Pensei: “O que será que está arrancando gargalhadas de alguém aqui? Aquela escultura de Michael Jackson e Bubbles criada por Jeff Koons não é tão hilária assim.”

É um pouco irritante ouvir gargalhadas altas em um museu, um lugar que parece exigir voz baixa e comedida. Seguindo o som dos risos, encontramos Ibarra andando de sapatos amarelos de salto agulha, nua exceto por seios falsos cor da pele, com mamilos e tudo, carregando um comprido saco de náilon cheio de “acessórios típicos de senhora branca”, peles, perucas loiras, pérolas, sapatilhas de balé e seios falsos.

Sua voz oscilava entre risadinhas agudas e gemidos orgásticos e ela deu duas voltas completas pelo segundo andar do museu, deixando o público fascinado. Obras de arte de tamanho grande de artistas como Jeff Koons, Christopher Wool e El Anatsui pareciam estagnados e mortos quando justapostas à presença viva de Ibarra, com seu corpo carnudo e risadas histéricas.

nu rindo

Intitulado Nude Laughing (Nu rindo), o trabalho tira sua inspiração da pintura Laughing Nude (1998), de John Currin, que mostra uma mulher branca nua gargalhando como louca, num registro a meio caminho entre o erótico e o grotesco.

Mas ao apresentar o ato da gargalhada na vida real e com seu próprio corpo, Ibarra acrescenta outra dimensão à mulher nua que ri.

Ela explicou em e-mail enviado ao Huffington Post:

“Quero captar o que consigo dessas mulheres brancas com meu próprio corpo moreno, com minha própria pele, e encenar uma união entre som e gesto que não pode ser captada numa pintura. Quero dar vida a essas mulheres nuas, dentro do corpo ‘errado’, e reforçar as dimensões grotescas, táteis e expressivas de como imagino a feminilidade branca.”

complexidades_ impossibilidades e possibilidades

Segundo a artista, a brancura e a feminilidade branca estão estreitamente ligadas às complexidades, impossibilidades e possibilidades da feminilidade “racializada”. Em lugar de encenar a feminilidade branca como expressão de aspiração, Ibarra o está fazendo para transmitir a dificuldade de sintonizar-se com a feminilidade branca e a pressão para fazê-lo.

Depois de dar a última volta do espaço, a artista se deitou no chão, tirou os sapatos e puxou o casulo de náilon sobre seu corpo e cabeça. Então ficou se contorcendo silenciosamente, em movimentos lentos e fluidos, formando um contraste marcante com sua caminhada ruidosa pelo museu.

museu

apresentação_chão

Nos últimos anos o trabalho de Xandra Ibarra explorou a ecdise das baratas – o processo de mudança do exoesqueleto dos invertebrados, para literalmente e figurativamente vestir o status abjeto de ser latina, segundo ela.

Através de suas performances e de uma série fotográfica sobre a muda, ela explicou que percorreu imagens fixas e expectativas exploradoras por meio da “cucaracha” (barata) – os medos de superpopulação, resistência e infestação.

“Durante a ecdise, o inseto se liberta de sua pele velha para então reaparecer exatamente igual. Como a barata, eu continuo a mesma – hispânica --, mesmo depois de me livrar do meu figurino hiper-racializado, como se fosse uma pele, e da minha pele como figurino hiper-racializado”, disse Ibarra.

“O espectador e o mundo não permitem essa transformação.Não há transformação, apenas presença corporal como nó racial.”

Além de jogar com essa metáfora, a artista utiliza a nudez para inserir-se em uma conversa secular na história da arte, envolvendo a figura do nu. Em lugar de ser o sujeito (geralmente homem) que procura representar um corpo objetificado (geralmente feminino), ela própria é ao mesmo tempo a criadora e o objeto criado.

performance

“Nesta performance e em muitos de meus trabalhos, a nudez é essencial e necessária devido à materialidade carnuda transmitida por minha pele hispânica. Acho que os corpos racializados possibilitam interpretações e significações intermináveis, dependendo do contexto, história e especificidade”, observou Ibarra.

“O corpo moreno nu está em um museu? Uma estação rodoviária? Um deserto? Uma pintura? Um anúncio de tráfico sexual? O que há em volta? Como ele está posicionado? Me interessam as significações intermináveis do corpo nu em diversos contextos.”

Ao final de Nude Laughing, Ibarra não estava mais rindo e estava ainda mais exposta que antes, tendo removido os seios falsos e os sapatos.

Ela desceu a escada do museu Broad, que lembra um canal de parto, passou pelo saguão e desapareceu. Sobramos nós – uma plateia cheia de diferentes tons de moreno, negro e branco, mais conscientes agora de nossos próprios corpos e das complexidades visíveis presentes entre eles.

fim

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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