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'As Meninas Superpoderosas' é um desenho animado bem mais adulto do que você se lembrava

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AS MENINAS SUPER PODEROSAS
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As três personagens que você hoje reconhece como Florzinha (Blossom), Lindinha (Bubbles) e Docinha (Buttercup), de As Meninas Superpoderosas, estrearam em 1992 com um nome de equipe bem mais agressivo: The Whoopass Girls (em português, algo como “as meninas que ganhavam todas”).

O criador da série, Craig McCraken, era estudante da CalArts (California Institute of the Arts) na época em que mandou o curta original à Cartoon Network, a empresa que acabou comprando a série, estipulando que o título teria que se mudado para que ela pudesse alcançar uma audiência maior.

Durante todo o tempo que o desenho ficou no ar, As Meninas Superpoderosas foi um desenho para o público infantil, mas com um humor adulto no pano de fundo.

A ideia era que as crianças não entendessem as piadinhas sexuais sutis e as gags visuais, como O Cara - personagem da comédia de humor obscuro O Grande Lebowski interpretado por Jeff Bridges - parado numa esquina. Mas graças a essa maturidade adulta, as plateias mais velhas também podiam curtir o programa.

Esse éthos continua com a retomada recente do desenho sob a égide dos produtores executivos Nick Jennings e Bob Boyle, ainda para a Cartoon Network.

Os dois têm experiência de trabalho em séries que atraíram fãs mirins e adultos, como Hora de Aventura, Bob Esponja e Os Padrinhos Mágicos.

McCraken não tem participação no revival do desenho, mas Jennings e Boyle tomaram a decisão sábia de conservar os elementos principais da série original, ao mesmo tempo escolhendo atualizações corretas para garantir sua relevância para 2016.

As personagens estão quase idênticas aos desenhos originais de McCraken, exceto por modificações superficiais como o afinamento de seus contornos, para evitar uma estética de “logotipo”, segundo Jennings.

A julgar pelos primeiros episódios, que começaram a ir ao ar no início de abril, o novo Meninas Superpoderosas já pode ser visto como sucessor digno do original.

Se você assistiu ao original quando era criança, agora, finalmente, terá a oportunidade de curtir o humor adulto e os temas maduros ocultos.

Para ter uma visão mais clara de como a série agrada a plateias de mais idades do que seria de se imaginar, o Huffington Post conversou sobre o novo Meninas Superpoderosas com Jennings e Boyle, além dos roteiristas Haley Mancini e Jake Goldman.

Os roteiristas ocultam piadas para adultos dentro do desenho

docinho contra o vilão

Falando do esforço para incluir piadas para adultos e crianças na mesma série, Mancini citou as indiretas incríveis do desenho original. Ela achou que a nova equipe não vai conseguir alcançar o mesmo nível de subentendidos, mas disse que ela fará escolhas criativas.

“Acho realmente especial fazer humor voltado a crianças, mas incluir nele humor direcionado a adultos”, disse Mancini pelo telefone.

Uma das piadas de adultos da nova série é vista no segundo episódio, quando uma vilã (dublada por Mancini) usa um aplicativo em seu telefone que é basicamente um Uber para chamar monstros.

Um ator estereotípico com corpo de monstro atende ao pedido de carro, faz alguns aquecimentos teatrais tradicionais e então detona o carro ao crescer até chegar à altura de um edifício.

O outro roteirista, Jake Goldman, contou que cresceu assistindo a desenhos com sua família e que muitas vezes havia piadas ou gags que apenas o pai ou mãe presente na sala entendia.

“Quando você volta a assistir ao desenho anos mais tarde, é uma curtição renovada”, ele disse.

Mancini comentou: “Acho que conseguimos inserir em cada episódio vários momentos que nós mesmos mal acreditamos que poderiam ser incluídos”.

Uma dessas instâncias talvez seja um vilão chamado Manboy que aparece no sexto episódio. Ele é uma paródia da moda recente dos homens que ressaltam sua masculinidade usando visual de lenhador (com camisas xadrez, cabelos desgrenhados, etc.) e controla um exército que inclui um monstrengo feito de madeira e bifes antropomórficos.

Boyle, o criador desse personagem, disse que não conhecia o termo “lumbersexual” (uma mistura de metrossexual e lumberjack, ou lenhador), embora os outros roteiristas o conhecessem. O co-produtor executivo admitiu: “Parece bem contemporâneo”.

“Basicamente, queremos nos fazer gargalhar”, falou Jennings. “Honestamente, até esqueci que estávamos fazendo a série para criancinhas”, disse Boyle.

O desenho não tem medo de abraçar o feminismo

as meninas super poderosas

“Como mulher, uma das coisas que mais gosto desta jornada com o desenho é ver o quanto o feminismo avançou desde que o desenho original saiu do ar”, comentou Mancini.

“O público pode simplesmente curtir ter três garotinhas como protagonistas. Pode gostar que as Meninas Superpoderosas podem ser femininas e também fortes; podem ser personagens de vários níveis e que não carregam muita responsabilidade. É superdivertido escrever sobre três menininhas reais, que podem ter seus defeitos e suas manias.”

No fundo, disse Jennings, As Meninas Superpoderosas sempre será sobre “meninas que dão uma surra em monstros e procuram acabar tudo antes da hora de dormir”. Mas essa própria premissa já é progressista.

Os responsáveis pelas novas Meninas Superpoderosas se consideraram sortudos porque hoje o feminismo está muito mais integrado aos espaços culturais pop do que as plateias permitiam durante a série original. “Na época, meninas super-heroínas eram novidade”, falou Boyle.

“Hoje as meninas curtem ser geeks e não há problema em garotos curtirem super-heroínas. A dinâmica toda mudou muito desde que a série primeiro foi ao ar.”

As Meninas Superpoderosas têm idade ambivalente. Podem ser meninas ou mulheres

docinho

A verdadeira idade das Meninas Superpoderosas ainda é um mistério, mas Goldman acabou revelando ao HuffPost que as personagens são “crianças da pré-escola”.
Mesmo assim, o minimalismo hoje icônico de seu design permite que o espectador projete sobre elas mais ou menos a idade que quiser.

Um pouco como os personagens de South Park, igualmente redondos, mas mais boca-suja (e vale lembrar que a série original chegou a incluir uma referência a South Park, com Florzinha usando as roupas de Cartman, numa gag visual), as

Meninas Superpoderosas muitas vezes parecem sábias demais para crianças de sua idade. (Se bem que, se quisermos ser detalhistas, as irmãs chegaram ao mundo já completamente formadas, depois de ser criadas em um laboratório por seu pai, professor Utonium. Por isso as regras normais sobre idade não se aplicam realmente a elas.)

Tanto crianças quanto adultos encontram algo com que se identificar, fato que não passou despercebido de Mancini e Goldman, ambos jovens o suficiente para terem crescido assistindo à série.

Quando era criança, Mancini fazia parte do público-alvo ideal de “Meninas Superpoderosas”. Ela assistia ao programa com duas de suas amigas.

Elas acabaram batizando seu grupinho de amigas de Meninas Superpoderosas, já que seus cabelos eram das mesmas cores que as das personagens.

Hoje, mais velha, Mancini ainda é apegada ao trio de garotas que combatem o crime e procura um ponto de equilíbrio entre o que ela curtia nas personagens quando ela própria era criança e o que gostaria que elas fossem, hoje.

“Sou superfã das ‘Meninas Superpoderosas, que cresci vendo”, falou Mancini. “Nosso objetivo foi conservar a essência do que McCracken criou e atualizá-lo para uma nova geração. Não há necessidade de fazer a série pensando exclusivamente em um tipo de público-alvo.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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