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Yeethoven: O mashup de Kanye e Beethoven que você estava esperando

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KANYE WEST_BEETHOVEN
PRISCILLA FRANK
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Quando Kanye West lançou seu sexto álbum solo, intitulado Yeezus, em 2013, com apenas um jogo de palavras ele fundiu sua identidade com a figura central do cristianismo.

A conexão entre Ye e JC foi mais que um arroubo egocêntrico de um rock star narcisista – foi uma mensagem sobre poder, sacrifício, influência e visão, por mais bombástico que pudesse parecer.

Agora, três anos depois, Ye recebeu outra comparação elogiosa. Em 16 de abril, no Artani Theater, em Los Angeles, a Young Musicians Foundation Debut Orchestra interpretou The Great Music Series: Yeethoven, comparando West a Ludwig van Beethoven e explorando as sobreposições entre música clássica e hip-hop, camisas de golas elaboradas do século 18 e calças de couro deste século.

Yuga Cohler dirige a performance, junto com o co-criador do projeto e compositor Stephen Feigenbaum.

Os dois são nativos do mundo da música clássica e fãs de longa data de Kanye, e tocam juntos desde os tempos de colégio.

A Young Musicians Foundation Debut Orchestra é composta por 70 músicos de Los Angeles de idades entre 15 e 25 anos. Cohler foi apontado diretor no ano passado. “Sabia que uma das coisas que queria fazer era envolver a música clássica com a de hoje, música que é muito ouvida e incrivelmente popular”, explicou Cohler ao Huffington Post.

Desde o começo, Cohler e Feigenbaum estavam interessados em “Yeezus”, o álbum áspero e sombrio que ao mesmo tempo parece protesto, revelação divina, pesadelo e rave industrial. “Muitas coisas do álbum parecem mais música clássica que hip-hop”, diz Feigenbaum.

“Tentamos examinar esse lado e argumentar que os pontos em comum entre os gêneros são mais interessantes que as barreiras.”

Com Yeezus como ponto de partida, Cohler e Feigenbaum começaram a procurar um músico improvável cuja obra reverberasse com a de Ye. E, se esse músico tivesse um nome que rendesse um bom trocadilho, melhor ainda.

“Logo chegamos a Beethoven, que também era controverso em sua época, autoconfiante e agressivo”, diz Cohler. “Beethoven era espinhoso. É um dos primeiros exemplos de modernidade, e muitas vezes o público não gostava disso.”

Eles começaram então a casar as músicas de “Yeezus” com peças análogas do repertório de Beethoven.

Por exemplo, New Slaves, de Kanye, um discurso bombástico que cobre de tudo, do racismo sistêmico ao vício em moda, mostrava semelhanças com Egmont Overture, com sua energia sombria e tumultuada.

“Em ambas as músicas, o fim é bizarramente edificante, parece quase amargo”, explica Cohler.

No começo, a ideia é justapor músicas de Kanye e de Beethoven para iluminar as comparações entre elas. Depois, o trabalho dos dois artistas vai se integrando cada vez mais, até que a linha que separa as duas obras se derreta. “Acho que as barreiras que criamos [na música] são necessariamente artificiais e não precisam ser respeitadas”, diz Cohler.

Apesar de Cohler e Feigenbaum ressaltarem que o projeto não está muito interessado com a personalidade dos dois artistas, mas sim com suas obras, é difícil ignorar o fato de que, como Kanye, Beethoven era meio egocêntrico.

Quando uma resenha declarou que o “Concerto de Cordas nº 13” era “incompreensível, como o chinês”, ele respondeu indignado e sem nenhum tipo de dúvidas a respeito de sua genialidade, chamando o público de “jumentos”. Uma de suas frases mais famosas – “Há muitos príncipes, e continuará havendo milhares mais, mas há só um Beethoven” – parece bastante familiar. A apresentação termina com uma comparação entre o último movimento de Quarteto de Cordas nº 14 e On Sight.

“Se você não conhece as músicas, não tem ideia de onde começa uma e termina a outra”, descreve Cohler. “É muito emblemático do embrião criativo que caracteriza tanto Beethoven quanto Kanye – essa propulsão, impulso e empenho.”

Nem todo mundo gostou da performance. O editor-sênior da Pitchfork Jayson Greene classificou o projeto de uma “má ideia espetacular”.

Greene, que escreve sobre música clássica e hip-hop, não vê ligações entre os dois artistas além do trocadilho e descreve o projeto como uma tentativa preguiçosa de unir alta e baixa cultura, subestimando tanto os artistas quanto o público.

“Juntar coisas em lados opostos de uma sala e marcar uma linha é menos difícil que descobrir onde vai cada elemento individual em um determinado espaço”, escreve Greene.

“E, se você vai começar a fazer esse tipo de casamento – estabelecendo um paralelo entre um rapper e um compositor, além de fronteiras de gênero, países e séculos, por exemplo – pelo amor de Deus, pense bem no que está fazendo.”

Gostando ou não do mashup, depois de conversar brevemente com Cohler e Feigenbaum, é difícil negar que eles pensaram bastante no casamento.

O concerto foi preparado por cerca de um ano. E, embora Greene afirme que Igor Stravinsky seja um paralelo melhor em relação a West, seu argumento se baseia tanto no caráter e na visão dos artistas quanto em suas obras – que foram o ponto central do trabalho de Cohler e Feigenbaum.

Não conheço muito de música clássica, então não posso comentar sobre as comparações entre Ye e Be. Mas sou totalmente a favor de um concerto instrutivo, tocado por jovens músicos, iluminando pontes improváveis entre artistas que podem ser aceitas ou rejeitadas pelo público.

Em vez de insultar o público, Cohler e Feigenbaum o convida a participar de um experimento imperfeito, que pode iluminar a natureza tênue das fronteiras e categorias que confinam todas as formas de arte. “Quanto mais jovens músicos perceberem que podem aprender Bach e também improvisar, tocar numa banda e aprender que essas coisas não precisam ser separadas”, melhor, não?

Além disso, o potencial que “Yeethoven” tem para provocar discordâncias, ultraje e falta de harmonia parece bastante apropriado para o tema do projeto, não?

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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