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Impeachment ou golpe? O que a imprensa estrangeira está dizendo sobre o processo no Brasil

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IMPRENSA
Afinal, o que jornais estrangeiros falam sobre crise política no País? | Montagem/Andressa Anholete via Getty Images
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Diante do cenário político conturbado no Brasil, não é difícil ler por aí que "quem não está confuso não está bem informado". E se, de fato, já é difícil acompanhar os desdobramentos do processo contra a presidente Dilma Rousseff nos veículos nacionais, acompanhar o que se diz no exterior pode ser ainda mais desafiador.

Pensando nisso, fizemos uma compilação de alguns veículos importantes lá fora, que vêm acompanhando a crise por aqui de perto. Embora o debate seja acalorado, principalmente nas redes sociais, a maioria dos jornais estrangeiros evita usar o termo "golpe" em textos noticiosos. Nesse caso, boa parte dos veículos se refere ao processo como "afastamento da presidente".

A discussão é maior, naturalmente, entre os articulistas e formadores de opinião que têm espaço nos veículos de comunicação mas não expressam, necessariamente a opinião do veículo. No texto abaixo, você vai conhecer um pouco do que saiu na mídia nos EUA, na Inglaterra, em Portugal e na França.

É unânime, no entanto, entre jornalistas e articulistas, um fato: a sessão de votação do impeachment na Câmara foi motivo de vergonha e expôs nosso País ao ridículo diante dos olhos do mundo.

CNN

Brian Winter, editor chefe do Americas Quartely, expressou sua opinião ao dizer que as coisas podem melhorar com um novo governo, mas que ainda devem piorar antes disso.

Ele questiona Michel Temer na presidência e enfatiza que 58% dos brasileiros também querem a saída do vice do poder.

"As más notícias são que todas as etapas são politicamente difíceis. E as teorias de que 'Quando Dilma sair, o Brasil ficará imediatamente melhor', começam a cair por terra".

Quem também falou à repórter Christiane Amanpour foi Glenn Greenwald, ganhador do Prêmio Pulitzer, dias após a votação do impeachment na Câmara.

"É extraordinário porque não apenas praticamente toda a classe política envolvida no processo de impeachment de Dilma também está envolvida em casos de corrupção, a coisa mais surreal que vi durante minha carreira como jornalista cobrindo política foi que ontem [durante a votação na Câmara] (...) um a um os deputados levantavam e diziam 'nós temos que tirar a presidente por corrupção'. E, incrivelmente, Dilma é uma das poucas políticas que não está envolvida em casos de corrupção".

Durante sua fala, Glenn classificou o processo de impeachment como anti-democrático. A âncora - que entrevistou Dilma Rousseff recentemente - também apontou o fato de grande parte dos deputados que julgam a presidente terem sido investigados por corrupção.

The New York Times

Principal jornal dos EUA e um dos mais influentes do mundo, o NY Times vem dedicando ampla atenção aos assuntos brasileiros - além da crise política, o jornal enfatizou o recente bloqueio do WhatsApp no País e, é claro, os Jogos Olímpicos.

Em seu texto mais recente, o correspondente do jornal no Brasil, Simon Romero, noticia o fato de que o vice-presidente brasileiro, Michel Temer, não será investigado no escândalo de corrupção da Petrobras, mesmo diante da delação premiada de Delcídio do Amaral.

Colunista do jornal americano, a brasileira Vanessa Barbara denunciou o voto do deputado Jair Bolsonaro e uma onda de nostalgia em relação ao período militar no Brasil.

"Nas últimas décadas, especialmente desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder há 13 anos, a realidade mudou, ainda que não tenha mudado completamente. Agora, a democracia significa que todo cidadão tem o mesmo status e que todos merecem uma voz. Talvez, toda essa nostalgia da ditadura militar seja sobre manter as pessoas no seu lugar."

Celso de Rocha Barros, que também escreve para o NYT e para a Folha de S.Paulo, explica o impeachment de Dilma de um jeito mais simples. "A razão real pela qual a presidente está sendo agastada é porque o sistema político brasileiro está em ruínas", afirma ele, que enfatiza ainda o fato de Dilma não estar diretamente envolvida em escândalos de corrupção, mas era uma presidente "fraca e impopular".

"Resumindo, ela é um alvo fácil para a fúria popular."

Por fim, o colunista afirma que a saída da presidente do posto seria uma season finale "épica" para a Operação Lava Jato: uma catarse de proporções épicas.

The Economist

A revista americana foi uma das que manifestaram sua postura de forma mais incisiva. Em um editorial - texto que expressa a opinião do veículo -, defendeu a realização de novas eleições no Brasil.

A crise na qual está mergulhado foi destaque na capa da publicação no mês de abril. O Cristo Redentor, que já simbolizou a decolagem e a derrocada do País para a Economist, agora veio com uma placa que pede socorro.

Embora responsabilize Dilma pelo fracasso econômico do Brasil, a publicação afirma que os que trabalham para tirá-la do cargo são "em muitos aspectos, piores", e cita Eduardo Cunha como exemplo.

"O fracasso não foi feito apenas pela senhora Rousseff. Toda a classe política tem levado o País para baixo através de uma combinação de negligência e corrupção. Os líderes do Brasil não ganharão o respeito de volta de seus cidadãos ou superarão os problemas econômicos a não ser que haja uma limpeza completa."

Para a Economist, "não há maneiras rápidas" de resolver a situação. As raízes dos problemas políticos viriam, segundo a revista, da economia baseada no trabalho escravo do século XIX, a ditadura do século XX e o sistema eleitoral em vigor. "No curto prazo, impeachment não vai consertar isso", diz a revista.

"Os eleitores também merecem uma chance de se livrar de todo o Congresso infestado de corrupção. Apenas novos líderes e novos legisladores podem realizar as reformas fundamentais que o Brasil necessita."

Guardian

Foi de autoria do correspondente do jornal britânico na América Latina Jonathan Watts um dos textos mais ácidos sobre a votação do impeachment na Câmara:

“Sim, votou Paulo Maluf, que está na lista vermelha da Interpol por conspiração. Sim, votou Nilton Capixaba, que é acusado de lavagem de dinheiro. ‘Pelo amor de Deus, sim!’ declarou Silas Câmara, que está sob investigação por forjar documentos e por desvio de dinheiro público.”

Watts, porém, destacou que o "Brasil se virou dramaticamente contra a primeira presidente eleita do País":

"Uma das líderes que já foi uma das mais populares do mundo, com taxas de aprovação de 92%, viu seu apoio despencar como resultado da recessão da economia, crise política e investigação da Lava Jato, sobre corrupção na Petrobras, que implicou alguns dos maiores partidos políticos."

O jornal inglês também deu voz a David Miranda, ativista e criador de uma campanha de proteção a Edward Snowden, que usou o espaço para criticar a postura de imprensa brasileira diante da situação política do País, a quem acusa de pintar uma "caricatura simples e bidimensional" do momento que vivemos.

Em seu texto publicado no jornal, Miranda também se posiciona claramente contra a saída de Dilma do poder: "Nem os mais poderosos do Brasil podem convencer o mundo de que o impeachment de Dilma é sobre combater a corrupção – seu esquema iria dar mais poder a políticos cujos escândalos próprios destruiriam qualquer carreira em uma democracia saudável."

"Por um ano, esses mesmos grupos midiáticos têm vendido uma narrativa atraente: uma população insatisfeita, impulsionada pela fúria contra um governo corrupto, se organiza e demanda a derrubada da primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e do Partido dos Trabalhadores (PT). O mundo viu inúmeras imagens de grandes multidões protestando nas ruas, uma visão sempre inspiradora."

O texto deu o que falar. Segundo relato do próprio Miranda, publicado no The Intercept , ele foi "atacado" por membros da família Marinho, proprietários da Rede Globo.

Os outros conteúdos recentes - do ponto de vista editorial - que o Guardian publicou repercutem a entrevista de Dilma à CNN, quando a mandatária reconheceu que pode estar afastada do cargo durante os Jogos Olímpicos e também falou sobre a ida da presidente a Nova York.

Outro texto opinativo, desta vez de autoria de Richard Bourne, professor de estudos políticos da Universidade de Londres e autor de um livro sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, explora as potenciais consequências de um saída de Dilma do poder e diz ainda que os problemas em Brasília serão sentidos no âmbito global.

Le Monde

O texto do jornal francês que mais repercutiu por aqui foi escrito pelo ombudsman, que tem como papel principal questionar determinados conteúdos - ou até mesmo posturas - do jornal.

Como o Le Monde vem acompanhando de perto a situação por aqui, vários brasileiros que vivem na Europa mandaram cartas questionando a cobertura do jornal, especialmente o editorial que afirmava que o que acontece por aqui não é um golpe. O texto Brésil : ceci n’est pas un coup d’Etat (Brasil: isto não é um golpe de Estado, em tradução livre) foi publicado no dia 31 de março.

Esse editorial, segundo Franck Nouchi, foi especialmente desequilibrado por não abordar o fato de que os principais entusiastas do impeachment dentro da Câmara são acusados de corrupção.

Entre os questionamentos, estava o porquê de o Le Monde não ter ouvido importantes figuras brasileiras, como Chico Buarque, Gilberto Gil e Leonardo Boff, que são contra o afastamento de Dilma. No entanto, Nouchi argumenta que, se alguns criticaram a cobertura por ser parcial ao impeachment, outros leitores (em menor número) afirmaram que o jornal defende as posições do PT.

Por fim, ele propõe uma reflexão questionando se o Le Monde tem motivos para ser parcial ao abordar a crise política brasileira e cita o sentimento de ódio de uma classe média com "sentimentos escravagistas".

Público

Além da cobertura factual, o periódico português vem dando bastante espaço aos textos opinativos. Kathleen Gomes, correspondente no Brasil, disse recentemente que o Supremo Tribunal Federal é a última opção de Dilma para evitar o afastamento. "O processo está longe do fim mas poucos acreditam que o desfecho não seja a derrota de Dilma", conta a jornalista, que cogita a possibilidade de uma votação "menos circense" no Senado do que foi a da Câmara dos Deputados.

Jorge Almeida Fernandes, editor de Internacional no Público, afirma em sua coluna que o objetivo de Cunha e de Temer é "tirar o PT do poder a qualquer preço. Cavalgam a onda de impopularidade de Dilma".

"Os brasileiros condenam Cunha e Temer mas não defendem a presidente. O PT perdeu a rua. (...) O eleitorado petista estava cada vez mais descontente e a popularidade do partido a derreter-se."

Gustavo Cardoso, docente do Instituto Universitário de Lisboa, diz que o Brasil encaminha-se "para um caricatura daquilo que pretendia ser".

"Mas também é verdade que toda a gente no Brasil, ou pelo menos os políticos brasileiros de todos os partidos, sabem que o problema não é do PT ou do PSDB – os dois últimos partidos que elegeram presidentes. O problema reside "na situação" que infiltra esses partidos quando estão no poder ou quando partidos do centrão permanecem tempo demais em alianças com diferentes governos – como o PMDB que esteve também nas últimas décadas em vários governos, incluindo os de Lula e Dilma."

Francisco Assis, outro articulista do periódico português, tenta fazer uma ponderação. Se, por um lado, diz que Dilma saiu "agigantada" depois da votação na Câmara, e afirma que a presidente é uma mulher série e com um passado político notável, por outro diz que "não assiste inteira razão a quantos falam do cometimento de um golpe de Estado antidemocrático."

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