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Estes relatos mostram a beleza e importância do vínculo entre grávidas e suas doulas

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A importância de uma doula para uma mulher que está grávida ultrapassa questões meramente medicinais.

Não que essas questões não estejam ali e não sejam importantes, mas a construção da relação doula-mãe é envolta por muito afeto e cumplicidade, que forma um vínculo imensurável para estas mulheres.

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A doula é uma profissional que acompanha as mulheres grávidas durante o período de gestação, parto e pós-parto. Elas cuidam para que as futuras mamães tenham todo conforto nesse meio tempo. Além disso, elas têm conhecimentos técnicos especializados na área da saúde para impedir que essas mulheres sofram violência obstétrica.

De acordo com a organização Artemis, 1 em cada 4 mulheres é vítima de violência obstétrica no Brasil. Esses dados são resultado do alto índice de cesarianas que temos tanto na rede pública de saúde (54%), quanto na rede privada (80%) -- que contrariam a recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) de uma taxa de 15% destes procedimentos.

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A origem da palavra doula é grega e significa "aquela que serve", mas a relação estabelecida entre uma mulher grávida e uma doula é muito mais profunda do que servil. O apoio emocional e os cuidados feitos com tamanha entrega pela doula se concretizam numa amizade que, muitas vezes, se estende para além daquele momento e dura uma vida inteira.

Existem doulas para todos os bolsos e até doulas voluntárias para mulheres pobres que não tenham condições financeiras de pagar. O interesse é sempre que a mulher grávida esteja bem respaldada.

O HuffPost Brasil entrevistou seis doulas -- algumas que, inclusive, também são mães -- para falar sobre o laço que elas e as futuras mães desenvolveram durante todo o processo juntas.

Elas contam sobre as trocas que tiveram, os sentimentos que brotaram nessa relação e algumas lembranças de histórias que ficaram marcadas.

Você pode ler estes depoimentos abaixo:

"Ao longo da minha caminhada como doula percebi que o grande valor deste trabalho não estava simplesmente na participação da conquista do tão sonhado parto das mulheres que acompanhei, mas sim no envolvimento sincero e profundo entre a mulher e eu, onde o conhecimento permeava a relação, mas reservava o espaço para um vínculo poderoso de confiança e amorosidade desenvolvido a partir de componentes como a sensibilidade e a empatia.

E é neste campo sagrado que a relação entre a doula e a mãe acontece. Acredito que quando este vínculo realmente é construído, resgata-se um tesouro perdido pela sociedade: a cumplicidade entre mulheres. E a partir da presença empática e da crença de que toda mulher é capaz de dar à luz e maternar com saúde e amor, a doula encoraja a mulher a acreditar em sua sabedoria e sua capacidade, traduzindo a vivência da maternidade numa experiência recheada de confiança e tranquilidade.

Nitiananda Fuganti, doula em Curitiba, Paraná

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Nitiananda doulando o pós-parto de uma das muitas mulheres que vão na Casa Mãe, uma casa de parto em Curitiba

Existem aqueles acompanhamentos que viram amizade. Com Iane Rocha e Jack foi assim. Uma empatia mútua desde o primeiro encontro. Eles se prepararam muito para o parto, frequentaram quase todas as rodas de apoio, em todos encontros individuais estavam juntos, lutaram e conquistaram cada etapa do planejamento. Iane teve um longo e intenso trabalho de parto, super apoiada por Jack, nossa equipe e sua obstetra. A cesárea foi indicada e essa família linda chorou junto, respirou e fomos receber o grande bebê Logan com muito amor e foi muito emocionante acompanhar essa chegada tão esperada. O vínculo continua e minha eterna admiração por eles também!

Krys Rodrigues, doula em Fortaleza, Ceará

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Krys auxiliando Iane no parto de seu bebê Logan

Quando Dryka (Adriana Almeida) anunciou que eu seria sua doula fiquei muito feliz pois ela estava firme em seu propósito de percorrer a trilha do parir.

Estivemos juntas em episódios de tensão: Pedrinho em posição pélvica com 35 semanas, troca de obstetra, mudança dos planos de parto... E eu torcendo e vibrando pelas conquistas cotidianas de uma mulher que demonstrou sua força a cada desafio superado. E assim o fez, com fé no corpo, pariu depois de quase cinco dias em trabalho de parto, e percebendo que nem sempre temos o controle de tudo. Foi lindo do seu jeito! Foi forte e transformador! E ainda é... Quantos desafios eu assisti e continuo assistindo Dryka superar: colaborando, compartilhando, acalentando, fortalecendo, acreditando.

E essa relação vai além das visitas contratuais. Reverbera! Acompanhamos, mesmo sem ter tanto tempo disponível, os pequenos crescerem e a confiança das mulheres se tornar o norte para seu maternar. Pedrinho hoje tem um aninho, e adora se sujar todo de terra e lama pra sentir as coisas boas da vida!
Maria Elaine, doula em Camaçari, Bahia

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Dryka e Maria Elaine a acalmando com cafuné.

"Daniele me encontrou via redes sociais e passamos a conversar muito desde então. Ela morava em Santiago, no Rio Grande do Sul, e veio para Porto Alegre para parir com o respeito que gostaria e não conseguiria em sua cidade.

Dani ficou um mês com muitas contrações e sempre me ligava. Nós conversávamos, eu a acalmava, saíamos para caminhar, desabafar. Eu e mais algumas “irmãs de barriga” éramos a referência dela na cidade, então fizemos um círculo de apoio. Talvez aquele mês inteirinho que ela passou aqui esperando seu bebê nascer (a linda Sofia, que só descobrimos o sexo quando nasceu) tenha ajudado nesse nosso vínculo.

Daniele se transformava e a cada dia que acordava com contração, encarava seu corpo de forma diferente, como se ele avisasse a ela: “Está tudo bem, seu corpo é perfeito, na hora certa o trabalho de parto engrena!”.

E assim foi: Ela teve um trabalho de parto tranquilo cercado de respeito e carinho. Sofia nasceu muito bem e cerca de 3 horas depois, voltei pra casa. Sensação maravilhosa de dever cumprido com sucesso. Fiz uma visita pós parto, conversamos muito sobre as lembranças gostosas do trabalho de parto, auxiliei com algumas dúvidas que ela tinha e fui embora.

Pensam que acabou aí? Daniele é hoje minha amiga, passamos por coisas muito íntimas juntas, não da pra apertar as mãos no fim do trabalho e encerrar o caso. É vínculo forte, é vínculo de nascimento. Tenho contato com praticamente todas as mulheres que doulei e é uma delícia seguir acompanhando esses bebês chegados com respeito."
Camila Lima, doula em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

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Daniele, seu marido e Camila poucas horas antes do parto

"Sempre digo que a doula surgiu em mim depois que me tornei mãe e pude sentir realmente empatia com outras mães. Algumas das mulheres que atendi brincam que sou a doula delas pra sempre, mesmo as que não engravidaram de novo.

Tive a oportunidade de doular no SUS aqui em Minas Gerais. A demanda era grande e havia pouco tempo pra criar vínculo, visto que o primeiro contato era já na sala de pré-parto e, mesmo assim, encontro algumas que me reconhecem na rua ou supermercado e agradecem o trabalho que fiz.

Mesmo com uma centena de partos acompanhados eu ainda não sei lidar com agradecimentos das mulheres, sempre saio grata dos partos, acho uma honra elas me escolherem ou permitirem que eu esteja ali, no momento que elas lembrarão pra sempre, como agente daquela história.

Todas as histórias que acompanhei me fortaleceram como mulher e mãe, recentemente dei a luz à minha filha, hoje com 2 meses, e durante o trabalho de parto lembrei de muitas dessas mulheres."
Laura Muller, doula em Ouro Preto, Minas Gerais

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Laura doulando Aline, uma das muitas mulheres que ela assistiu durante o parto.

"Todas as mulheres que doulei me marcaram muito. Acompanhando-as em suas jornadas pude aprender muito sobre a maternidade, sobre elas e também sobre mim.

Vi uma mulher desistir e pedir uma cesárea e tive que aprender que aquele parto era dela e não meu, e que eu não podia querer aquilo mais do que ela. Vi outra mulher se empoderar muito durante a gravidez, desabrochando para o feminismo e para o ativismo pelo parto a ponto de conseguir enfrentar a violência do sistema e fazer sua vontade valer. Mesmo assim, ter que lutar pelo seu parto daquela forma, ter que viver um verdadeiro combate em um momento de tanta vulnerabilidade a machucou profundamente e eu a vi chorar, dias depois do parto, pela violência que ela lutou para não sofrer e também pela que outras mulheres passaram.

Uma outra passou as mais de 20 horas de trabalho de parto dizendo que não ia conseguir, mas mesmo assim conseguiu, mostrando que tem vários jeitos de enfrentar nossos medos e questões, e assumir que se tem medo pode se ter também uma grande coragem. Com todas as mulheres que doulei eu aprendi, reiteradas vezes, que o parto de cada mulher é fruto de sua história e de suas escolhas, o que torna cada nascimento inevitavelmente único."
Maíra Pinheiro, doula na cidade de São Paulo

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Krys Rodrigues doulando outra futura mãe, Débora

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Imagens capturam a especial relação entre mães e assistentes de parto.
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