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Pornô gay, assassinatos e cinema: James Franco fala sobre seu novo filme, 'King Cobra'

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JAMES FRANCO TRIBECA
Franco posa no Festival de Cinema de Tribeca, em abril deste ano | Larry Busacca via Getty Images
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James Franco deitou na cama comigo.

Essa é a frase de abertura mais libertina que consegui escrever, mas tudo faz muito sentido. Estávamos num hotel de luxo em Manhattan, discutindo King Cobra, uma cinebiografia pornô gay que estreou no Festival de Cinema de Tribeca deste ano. Girl Gone Wild, da Madonna, tocava nas caixas de som.

Na verdade, antes de Franco chegar, eu estava sentado na cama com Justin Kelly, roteirista e diretor do filme, porque, bem, não sei exatamente o porquê.

O assessor de imprensa nos levou para um quarto que só tinha aquela cama, então foi lá que sentamos. Depois de cerca de dez minutos de conversa, Franco e outros atores do filmes – Garrett Clayton e Christian Slater – chegaram para participar da entrevista. Franco correu e pulou na cama. “Quer deitar de conchinha?”, perguntou Franco para Kelly.

king cobra
Slater, Clayton, Allen e Franco em pôster de King Cobra

Imagine a cena: fazer entrevistas sobre um filme que trata de sexo gay numa cama com uma das estrelas mais sexualmente ambíguas de Hollywood.

Mas, assim que Franco e cia estavam à vontade, o assessor nos levou para um quarto com acomodações mais apropriadas (sofás e cadeiras). E assim acaba a brincadeira dessa história – pelo menos para mim.

Para os caras envolvidos com King Cobra, as histórias provavelmente não vão parar tão cedo. Como todos sabem, elas começaram com uma foto postada no Instagram em outubro passado:


Keegan Allen, ator da série Pretty Little Liars, também apareceu na adaptação de O Som e a Fúria, dirigido por Franco em 2014.

A foto se tornou outra marca na narrativa sobre a sexualidade enigmática de Franco, exacerbada por quatro porradas: Milk – A Voz da Igualdade (2008), Howl (2010), Interior. Leather Bar (2013) e Eu Sou Michael (2015), outro filme dirigido por Justin Kelly, no qual Franco interpreta Michael Glatze, ativista gay que renunciou à sua sexualidade para se tornar pastor cristão.

Eu Sou Michael estreou no Festival de Cinema de Sundance de 2015. Kelly diz que o filme deve ser lançado nos cinemas só em junho deste ano, por causa de dificuldades para encontrar um distribuidor: “As pessoas não sabem lidar com um filme que trata de religião-encontra-homossexualismo”.

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Keegan Allen em cena de King Cobra

Foi muito mais fácil fazer acontecer King Cobra que Eu Sou Michael, ainda que – ou talvez porque – o novo filme pareça mais escandaloso no papel. A história de Sean Paul Lockhart – mais conhecido por seu nome artístico, Brent Corrigan – se tornou assunto da mídia mainstream em 2007, quando Bryan Kocis, o fundador do império do pornô gay Cobra Films, foi assassinado na casa da Pensilvânia em que ele documentava as transas de jovens sarados e gays.

Kocis contratou Lockhart, um rapaz de 17 anos que afirmava ter 18, e o transformou numa estrela do mundo da pornografia gay online. Quando dois estelionatários falidos, Harlow Cuadra e Joseph Kerekes, tentaram roubar Lockhart de Kocis, eles encontraram um problema: o nome artístico do ator pertencia à Cobra Films.

Cuadra e Kerekes queriam enriquecer com a marca Brent Corrigan, mas, como Lockhart não podia abandonar seu contrato com a Cobra, eles decidiram resolver as coisas com as próprias mãos. Cuadra esfaqueou Kocis e botou fogo na casa para destruir as pistas do crime. (Não adiantou: Lockhart ajudou os investigadores a encontrar os suspeitos, e Cuadra e Kerekes foram presos.)

Kelly queria transformar essa história num longa-metragem, uma empreitada que avançou rapidamente. Franco e Kelly já haviam trabalhado juntos em Eu Sou Michael e estavam olhando outros projetos quando Kelly sugeriu a história de Lockhart.

O diretor encontrou Lockhart, que estava “cético” porque já tinha sido procurado por outros para falar de um possível filme. Mas Lockhart cedeu os direitos de sua história, e Kelly adquiriu os direitos de Cobra Killer, livro sobre o caso escrito em 2012 por Andrew E. Stoner e Peter A. Conway.

Kelly também garantiu a aprovação de Lockhart para o roteiro, que cortou alguns detalhes da história, como costuma acontecer em cinebiografias.

Depois da aparição da primeira imagem de Garrett Clayton o interpretando – ou, tecnicamente, Brent Corrigan –, Lockhart escreveu no Twitter que “não foi capaz de corrigir as várias inconsistências do roteiro”, o que deu ao filme um ar de controvérsia.

“Não foi tão negativo, mas fiquei um pouco surpreso porque ele tinha dado o OK”, disse Kelly sobre as declarações de Lockhart nas redes sociais. “Entreguei o roteiro para ele, e ele teve a chance de fazer observações. Se odiou, teria me dito.”

Escândalos menores à parte, enquanto Kelly, Clayton, Franco (que faz o temperamental Kerekes), Slater (que interpreta Kocis, embora o nome do dono da Cobra tenha sido alterado no filme) e eu discutíamos o filme, um tema surgiu: Franco não é tímido, como ator ou produtor.

Slator e Clayton disseram ter hesitado para aceitar os papeis – Slater porque era algo tão diferente para ele, e Clayton porque, bem, também era algo muito diferente.

“Sinceramente, quando li o roteiro pela primeira vez, eu disse: ‘Não vou fazer’”, afirmou Clayton, que ficou conhecido por Teen Beach Movie, do Disney Channel, e The Fosters, da ABC Family.

“Por motivos óbvios: meu histórico. Você não pensaria: ‘Ah, esse menino vai fazer um filme sobre a indústria do pornô gay’... O que aprendi com a experiência toda é que quando você faz esses trabalhos para o público jovem adulto ganha notoriedade, mas não conquista o respeito da comunidade. Tenho dado muito duro para conquistar esse respeito.”

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Molly Ringwald, Justin Kelly e Alicia Silverstone na estreia de King Cobra, no Festival de Cinema de Tribeca.

Foi a pegada Boogie Nights que chamou a atenção dos atores. Kelly se inspirou no filme de Paul Thomas Anderson sobre a indústria do pornô dos anos 1970, que usa humor negro e diálogos “ridículos” para aumentar o quociente de surrealismo.

Kelly também citou como inspiração Coração Selvagem, de David Lynch, e eu disse que a insipidez calculada de Bling Ring: A Gangue de Hollywood, de Sofia Coppola, poderia ser outro ponto de referência, dadas as frequentes imagens de Franco e Allen (que interpreta o volátil Cuadra) fazendo musculação e aparecendo suados e sem camisa sob o sol. Os eventos de King Cobra se desenrolam com uma distância cômica que é ao mesmo tempo sensual e aduladora.

Mas Cobra não tem nus frontais, o que nos leva a perguntar até onde Franco estava disposto a ir. (“James queria [aparecer nu]”, disse Kelly meio brincando quando mencionei a ausência de pênis no filme.)

Quando pressionei, Franco riu da pergunta e, em vez de responder, falou de uma performance artística bizarra na qual ele lutava nu com o artista Paul McCarthy.

“Depois daquilo, achei que poderia fazer de tudo, desde que confiasse no diretor”, disse Franco sobre o projeto de 2013. “Se aceito um trabalho, sou a favor de fazer o que for necessário para o projeto.”

Mesmo sem nudez frontal completa, Kelly reconhece que o público – e os potenciais distribuidores – podem achar que o filme é chocante, embora a violência contra mulheres na tela não seja alvo das mesmas objeções.

De qualquer modo, dois dos produtores do filme – Jordan Yale Levine e Scott Levenson – me disseram numa entrevista feita depois que eles se reuniram com vários estúdios independentes de primeira linha que estavam interessados em comprar os direitos do filme e lançá-lo nos cinemas, incluindo A24, Bleecker Street, CBS Films e The Weinstein Company. (O fato de que Alicia Silverstone e Molly Ringwald tenham pequenos papeis em “King Cobra” provavelmente ajuda.)

É claro, todos os envolvidos reconhecem que a enigmática imagem sexual de Franco só aumenta o interesse pelo filme.

“Não me surpreende”, disse Franco. “Não odeio. É uma pergunta esquisita porque não é como se eu estivesse planejando tudo, tipo: ‘Oh, preciso desse projeto para fazer isso pela minha imagem’, ou algo do gênero. É mais trabalhar com Justin no que parecia uma história nova e interessante, que eu não tinha visto antes.

Se minha persona ou meu trabalho ajudam a chamar a atenção para este projeto, tanto melhor. Mas me vejo apoiando a visão de Justin, como produtor e ator. É por isso que me envolvi. É estranho que, se faço projetos sobre temas LGBT, as pessoas com quem eu transo tenham de ser parte da conversa.”

Até a publicação deste texto, King Cobra não tinha fechado acordo de distribuição com nenhum estúdio, apesar de o Festival de Tribeca ter agendado uma exibição extra do filme depois de os ingressos para as três primeiras terem esgotado. De qualquer maneira, todos os envolvidos com Cobra parecem ter a mesma intenção: humanizar o assassinato de Kocis e a fama de Lockhart.

“Ele está tentando se dar bem na vida”, disse Slater sobre Kocis. “Dinheiro é o sistema operacional do mundo, e ele encontrou um caminho em um negócio que as pessoas gostam de julgar. Elas acham que é degradante e nojento. Mas quem somos nós para julgar? Acho [que o filme diz]:

‘Só estou tentando sobreviver e tocar minha vida e ser criativo numa área que acho a mais interessante e empolgante’. É o que eu estou fazendo com a minha vida. Só faço isso de maneira mais aceitável, de acordo com a sociedade.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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