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Dos 23 senadores que respondem a acusações criminais, 17 votaram pelo afastamento de Dilma

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EVARISTO SA via Getty Images
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Do acusado de Caixa 2 à lavagem de dinheiro. Do formador de quadrilha, ao envolvido em corrupção passiva. Não podem faltar os citados na Operação Lava Jato e até ex-presidente da República cassado do cargo por desvio de dinheiro público. Em mais de 20 horas de sessão, 17 deles subiram na tribuna do Senado, discursaram por 15 minutos cada um e votaram sim pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff.

Imunes pelo escudo do foro privilegiado e pela lentidão da Justiça brasileira, esse grupo seleto de senadores foi corresponsável pelo afastamento da presidente - que não responde a nenhuma acusação criminal. Dilma está oficialmente afastada do cargo por até 180 dias. Quem assume é o vice, Michel Temer.

Dos 77 senadores que apertaram o botão às 06h32 da manhã de quinta-feira, 23 deles respondiam a algum tipo de acusação judicial ou possuíam envolvimento na Operação Lava Lato. Delcídio do Amaral, que teve o mandato cassado pelos senadores, seria o 24º desta lista. No total, 74% votou sim.

Excluindo senadores da base aliada que possuem relação com a Operação Lava Jato ou outros delitos - como Lindbergh Farias, Humberto Costa e Gleisi Hoffmann -, além da ausência do senador Jarder Barbalho (PMDB) e do não voto do presidente do Senado, Renan Calheiros, todos os demais fichados optaram por afastar a presidente.

Caso contássemos outros processos, como irregularidades em Tribunais de Contas, o número de senadores com ocorrências subiria para 47 - 60% da Casa. Se cada senador brasileiro tivesse um currículo para se orgulhar ou postar em plataformas de recrutamento, as três principais qualidades que veríamos seriam, segundo dados do STF, lavagem de dinheiro (28 acusações), corrupção passiva (25 acusações) e quadrilha ou bando (11 acusações).

Aécio Neves, senador do PSDB e ex-presidenciável, que travou diversos debates com Dilma e perdeu a eleição em 2014, é um dos citados na Operação Lava Jato. Aguarda a abertura do inquérito no STF, que vai ser analisada pelo ministro Gilmar Mendes, sobre a suspeita de propina de Furnas. Votou sim pelo afastamento.

Seu discurso foi um dos mais esperados na tribuna do Senado. Afirmou que "goste ou não", o "Congresso representa de forma mais clara e melhor os vários extratos da sociedade brasileira". Nem lembrou que o próprio ex-colega Delcídio do Amaral o delatou como um dos receptores de propina da empresa de economia mista subsidiária da Eletrobrás.

Lembrou, sim, da "irresponsabilidade" da presidente da República. "Foi a irresponsabilidade da presidente da República e do governo que está fazendo brasileiros voltarem à classe D e E", exemplificou. Aécio avaliou ainda que as marcas dos governos populistas é que sempre agem com irresponsabilidade fiscal e quando fracassam usam o discurso do entre "nós e eles", disse. "Teremos um dia diferente amanhã, duro para enfrentarmos", concluiu.

O correligionário de Aécio, senador Aloysio Nunes, do PSDB (SP), por exemplo, é investigado por caixa-dois em um inquérito que está no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele foi citado na delação premiada do presidente da empreiteira UTC, Ricardo Pessoa, por ter recebido contribuições dele para a campanha eleitoral.

Aloysio foi um dos primeiros a discursar na sessão de quarta-feira e disse que os motivos que derrubaram a presidente foram a "inépcia", a "teimosia" e a "responsabilidade". Afirmou ainda que a sociedade brasileira 'evoluiu' e que "não vai voltar à passividade de antes".

Presidente Nacional do Democratas (DEM), senador José Agripino (RN), foi mais um a criticar Dilma Rousseff: "Esse é um governo que se habituou à gastança", disse. Acabaram com a Petrobras", afirmou o político, que é acusado de ter recebido R$ 1 milhão do Detran do Rio Grande do Norte. O mesmo também é suspeito de receber propina de executivos da OAS, uma das empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato.

O futuro Ministro do Planejamento da gestão Temer, senador Romero Jucá (PMDB), é alvo de nada menos do que quatro investigações. Na Lava Jato, Jucá responde pela tríade perfeita: lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e corrupção passiva.Hoje, minutos antes da votação, fez uma analogia com o filme “Titanic para justificar a ascenção de Temer ao Palácio do Planalto. “Nós estamos trocando o comando para que o navio não afunde”, defendeu.

O eleitor brasileiro que ouviu esse jingle em 2010, com Fernando Collor de Melo e Dilma juntos, não pensava que ambos tivessem o mesmo fim. Cassado em processo de impeachment, em 1992, o ex-presidente da República é um dos investigados na Lava Jato - por crimes de lavagem de dinheiro, peculato e corrupção passiva. A Polícia Federal apreendeu oito depósitos bancários, que somam a R$ 50 mil, de Alberto Youssef para Collor.

Collor votou sim pelo afastamento. Fez questão de alertar a presidente e aliada - em raras ocasiões - sobre os erros de seu governo, mas foi ignorado.

"Não foi por falta de aviso; desde o início do governo fui a interlocutores de Dilma. Sugeri que Dilma pedisse desculpas por tudo o que ocorreu na campanha eleitoral; alertei sobre a possibilidade de Dilma sofrer impeachment. Fizeram ouvidos de mercador".

No mesmo Senado que o julgou, ele continuou e avaliou que ”o maior crime de responsabilidade está na irresponsabilidade com o desleixo da político”

Não há o que não concordar com o senador extensamente acusado. É o mesmo desleixo com a política brasileira - dos políticos e de eleitores - que nos fazem a alcançar o segundo iminente impeachment da história do Brasil.

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