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Em Cannes, Woody Allen só oferece uma coisa às acusações de abuso sexual: O silêncio

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WOODY ALLEN
Allen em uma conferência com a imprensa em Cannes, na última quarta-feira (11) | Yves Herman / Reuters
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Woody Allen está no Festival de Cannes deste ano, onde ele apresentou seu novo filme, a comédia Café Society, na última quarta-feira (11).

Segundo o New York Times, na coletiva de imprensa após a exibição – fora de competição – que iniciou o festival, o cineasta recebeu dos jornalistas todo tipo de pergunta: exceto sobre as acusações de ter abusado sexualmente de Dylan Farrow, filha de Allen com sua ex-esposa, Mia Farrow, adotada em 1985.

As acusações foram retomadas por Ronan Farrow, outro filho do diretor com Mia, em coluna especial para a Hollywood Reporter, publicada na quarta, intitulada: "Meu pai, Woody Allen, e o perigo das perguntas não feitas".

No texto, Ronan critica a imprensa por não fazer perguntas sobre o caso e não levar as acusações a sério. Na coletiva, Allen foi questionado por Julie Miller, repórter da Variety, sobre a coluna do filho. A resposta dele foi: "Eu nunca leio nada".

"Eu nunca leio o que vocês dizem sobre mim ou as resenhas sobre meus filmes. Eu fiz a decisão, 35 anos atrás, de nunca ler uma resenha de meus filmes, nunca ler uma entrevista, nunca ler nada. Porque você pode facilmente se tornar obcecado por si mesmo. Eu tenho sido bem produtivo no decorrer dos anos ao não pensar sobre mim e não me obcecar comigo mesmo."

"É seu filho", insistiu a repórter, após argumentar que não se trata de mais uma resenha. "Eu já disse tudo o que tinha a dizer sobre esse assunto", respondeu o cineasta.

O que ajudou a reforçar o tema no festival foi a piada de estupro que o ator Laurent Lafitte fez na cerimônia de abertura desta que é a 69ª edição do evento francês.

"É muito bom que você esteja fazendo tantos filmes na Europa", disse Lafitte para Allen, que estava na plateia, "mesmo que você não esteja sendo condenado por estupro nos Estados Unidos."

A piada, entretanto, pode ser uma alusão ao famoso caso de outro cineasta, Roman Polanski, condenado nos EUA pelo estupro de uma menina de 13 anos na década de 1970. Polanski, hoje, vive na Europa.

Depois, em um almoço com jornalistas, Allen disse à Variety que não se sentiu ofendido pela piada:

"Sou completamente a favor de comediantes fazerem as piadas que eles quiserem. Eu não julgo ou censuro as piadas das pessoas. Eu mesmo sou cômico e sinto que deveria me sentir livre para fazer quaisquer piadas que eu queira".

(Por outro lado, Blake Lively, atriz do elenco de Café Society, se sentiu ofendida, como explica o Ego.)

À Vanity Fair, nesta quinta (12), ele disse para a repórter Julie Miller que este é um assunto já "superado".

"Eu nunca penso sobre isso. Eu trabalho. Eu disse que nunca mais comentaria isso de novo. Eu disse tudo o que tinha a dizer sobre isso."

Acusações

Em 1992, Woody Allen e Mia Farrow se separaram após mais de dez anos juntos, depois do diretor engatar um relacionamento Soon-Yi, à época com 21 anos, filha que a atriz adotou com o músico André Previn, antes de se casar com Allen.

O processo de divórcio e de custódia dos filhos que ambos tiveram juntos foi objeto de ampla cobertura midiática. Em meio ao furacão, surgiram as acusações de Dylan de ter sido molestada pelo pai. Após uma investigação policial de sete meses, o cineasta foi considerado inocente.

Em janeiro de 2014, após vencer o prêmio especial Cecil B. Demille, no Globo de Ouro, Mia e Ronan Farrow resgataram as acusações no Twitter – depois, veio grande repercussão na imprensa.

No mês seguinte, Dylan Farrow escreveu uma carta aberta no New York Times, em que ela detalha os abusos e confronta diretamente atores que já trabalharam com Allen, como Cate Blanchett e Alec Baldwin: "E se fosse com a filha de vocês?"

Dias depois, foi a vez do diretor falar sobre o assunto no NYT. Em resposta, ele negou as acusações e sugeriu que Mia Farrow fez uma "lavagem cerebral" na filha, que à época, tinha sete anos de idade.

"Eu a amava [Dylan] e espero que um dia ela entenda que teve um pai amoroso e que foi explorada por uma mãe mais interessada em sua própria raiva purulenta do que no bem-estar de sua filha", escreveu.

O diretor conclui o texto no jornal dizendo que não tocaria mais no assunto. E, como mostra sua postura em Cannes, ele realmente não quer saber disso.

Café Society tem previsão de estreia no Brasil para 27 de outubro. O filme recebeu críticas positivas no festival. Assista ao trailer abaixo:

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