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Terezinha Guilhermina, velocista cega mais rápida do mundo, quer te inspirar: 'Nunca aceitei o pouco que tinha'

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terezinha guilhermina

A perda de visão de Terezinha Guilhermina veio aos poucos. A vida nunca aliviou a barra para ela, nascida com retinose pigmentar, doença congênita que provoca a perda gradual da visão. Quando o sonho de tornar-se uma velocista batia forte no peito há quase 20 anos, a visão já era baixa, mas foi a falta de dinheiro, problema tão comum entre os brasileiros, que apertou a situação ainda mais.

Para disputar as provas de atletismo, era necessário um tênis adequado ao esporte, coisa que na virada da década de 1990 para os anos 2000, Terezinha não podia dar-se ao luxo. Contra sua vontade, foi parar na natação. O motivo? Maiô de banho ela possuía. Foi a irmã de Terezinha quem conseguiu, para o bem do esporte brasileiro e da história das Paralimpíadas, calçar os pés femininos mais rápidos do planeta dos últimos oito anos.

Depois de quebrar o recorde mundial na prova de 100 metros rasos e faturar medalha de ouro na Olimpíadas de Londres, em 2012, Terezinha entrou para o Guinness Book - o livro dos recordes - como a mulher cega mais rápida do mundo.

Terezinha é, sem sombra de dúvidas, uma das grandes favoritas a encher o peito dos torcedores canarinhos - tão maltratados nos últimos tempos - com um imenso orgulho. Ouro nos 200m em Pequim, em 2008, e dona da medalhas douradas nos 100m e 200m rasos de Londres-2012, Terezinha não quer saber de descanso:

"Acredito que consigo ir para o próximo ciclo paralímpico", contou ao HuffPost Brasil.

É isso mesmo. Ela jura que chegará nos Jogos de 2020 com fôlego de campeã, ainda que com idade avançada para a modalidade - ela completará 42 anos na Paralimpíada de Tóquio.

Como todo grande atleta, a superação é o alimento principal da velocista mineira. A receita? Cabeça erguida e muito suor. "Entendo que as pessoas que não têm nada podem alcançar muito mais. E eu nunca aceitei o pouco que tinha".

Nas próximas linhas, você acompanha os melhores momentos da nossa conversa com a atleta brasileira.

HuffPost Brasil: Como o atletismo entrou na sua vida?

Terezinha Guilhermina: Depois de concluir o ensino técnico em Administração. Como não consegui emprego na área, tive a ideia de tentar me inscrever na natação [para atletas com deficiência] porque eu tinha o maiô. Mas eu já queria correr. Na época tinha uma prova em Betim [na região metropolitana de Belo Horizonte] para pessoas com deficiência. Então, pedi para a minha irmã, que conseguiu um tênis para mim e comecei a correr. E o tênis nem era tão adequado para as provas de corrida... Era um tênis normal.

Logo de início, consegui completar o desafio de 5 km de distância. Em seguida, completei a Volta da Pampulha [tradicional prova com percurso de 18 km] em uma hora e meia, um tempo muito bom. E, mais adiante, já corria bem os 21 km [distância da meia maratona internacional].

E como está a preparação para a Olimpíada? Há algum treinamento específico para este ano?

Agora estou treinando em São Caetano [na Grande São Paulo]. Nossos treinos duram de três até seis horas por dia. Tem ainda o trabalho de regeneração muscular. Meu tempo todo tem sido basicamente comer, treinar e dormir. Não tenho tempo para mais nada durante os dias.

Como funciona o trabalho psicológico de uma atleta de alto nível? Qual é a importância da mente para um velocista?

A comissão técnica conta com a nossa psicóloga, a Maria Cristina Nunes Miguel. Tenho feito trabalhos específicos para cuidar da ansiedade. Acredito que o lado psicológico pode funcionar tanto no lado positivo, como negativamente. E quanto mais você dominar o lado psicológico, melhor vai ser o rendimento físico. Não tem outro jeito.

Me conheço muito bem e consegui evoluir muito. Meus testes atuais são os melhores de toda minha carreira. E acredito que consigo ir para o próximo ciclo paralímpico. Vou estar com 37 anos no Rio e chegaria com 42 na próxima Paralimpíada. Mas eu jamais entraria numa prova com o freio puxado. E, nesse momento, não pretendo parar. Quero é entrar muito acelerada na Paralímpiada! (risos)

Você tem uma história de superação que começa desde muito cedo. Primeiro com a perda da sua mãe e com a saída do seu pai de casa, depois com a perda total da visão. O que trouxe você até o topo do esporte mundial? Tem alguma decisão da sua carreira que você se arrepende?

Entendo que as pessoas que não têm nada podem alcançar muito mais. E eu nunca aceitei o pouco que tinha. Sabia que se eu fosse a melhor do mundo, minha realidade poderia mudar. Sempre fui uma pessoa que nunca se conformou com essa coisa de "mais ou menos".

Se tivesse que viver a minha vida novamente, viveria exatamente do mesmo jeito. Faria exatamente tudo da mesma forma. Não tenho arrependimento de nada.

Me conheço muito bem e consegui evoluir muito. Meus testes atuais são os melhores de toda minha carreira.

Como é a relação dos atletas com os guias? Imagino que deva ser uma relação muito próxima...

É, sim. Entendo o nosso trabalho como o que acontece na Fórmula 1. Você precisa ter um excelente piloto para um excelente carro para que tudo dê certo. É um trabalho conjunto e o que deve nortear essa relação é o respeito. Tenho trabalhado com dois guias desde o ano passado, o Rafael Lazzarini e o Rodrigo Chieriadatto. Com eles, eu entendi que posso melhorar ainda mais. Por exemplo: para esta Paralimpíada, precisei melhorar na parte técnica e tática. E é o meu foco totalmente. Melhor sempre.

Como você entende a evolução da estrutura do esporte paralímpico? O Brasil pode se orgulhar de estar na elite esportiva paralímpica?

Sem dúvidas, a estrutura dada pelo Comitê Paralímpico (CPB) superou todas as expectativas para os nossos treinamentos de 2012 para cá. A capacitação profissional, os equipamentos, os treinos, os técnicos... praticamente tudo melhorou. O governo federal manteve o bolsa-atleta para garantir o desenvolvimento do trabalho. Posso dizer que sou atleta há 16 anos e nunca tivemos uma capacidade tão boa para competir.

E como é possível imaginar as próximas gerações? Vamos conseguir manter o nível competitivo daqui para frente?

Hoje temos as Paralimpíadas Escolares, com mais de mil atletas de 13 a 18 anos. É um das maiores e melhores competições desse tipo em todo o mundo. Tem natação, atletismo, futebol, basquete... É muito completo. O esporte paralímpico, das mais diferentes categorias e modalidade, tem começado já com a base aqui no Brasil. É assim que dá para pensar em resultados. Podemos acreditar que estamos no caminho certo.

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