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Prefeitura de Bogotá culpa vítima por estupro: 'Se não tivesse saído à noite, não teria morrido'

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ROSA
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"Mas também, quem mandou usar essa roupa?".

"Bebeu demais, só podia dar nisso".

"Se ela não tivesse saído à noite com seus colegas de turma, não estaríamos hoje lamentando sua morte".

Se você é mulher, com certeza já ouviu essas frases.

Mas entre elas há uma enorme diferença: as primeiras são exemplos de argumentos comumente utilizados, já a última, trata-se da resposta da Secretaria de Governo de Bogotá ao defender-se de negligenciar o crime cometido contra Rosa Elvira Cely. As informações são do jornal El Espectador.

Seguindo a lógica da instituição da capital colombiana, se a mulher de 35 anos não tivesse decidido encontrar os seus amigos em 23 de maio de 2012, o colega Javier Velasco não a teria levado a uma área desabitada do Parque Nacional de Bogotá e não a teria estuprado e a torturado com um galho de árvore. Logo, se Rosa não tivesse saído de casa, ela não teria morrido no hospital quatro dias depois em decorrência deste encontro.

Não faz sentido.

O jornal local El Espectador reproduziu as falas da advogada Luz Stella Boada em defesa da prefeitura.

"Todos sabiam que (Javier Velasco e Mauricio Ariza) tinham comportamentos atípicos e eram vistos como bandidos. Apesar de tudo isso, Rosa Elvira Cely saiu com eles, foram beber juntos. Se Rosa Elvira Cely não tivesse saído à noite com seus colegas de turma, não estaríamos hoje lamentando sua morte".

Com esta declaração, Boada pretendia finalizar os argumentos e arquivar os documentos que seguem em tramitação desde 2014, nos quais a família da vítima questiona a omissão de socorro e a negligência ao tratar do caso por parte da polícia e do município.

De acordo com o jornal, em 22 de agosto de 2014, a família de Rosa Elvira Cely entrou com uma ação contra a polícia, o Ministério Público e as secretarias de Governo e de Saúde de Bogotá porque, em sua opinião, eles não fizeram o que deveriam para evitar o terrível desfecho dessa história.

Para os familiares, o Estado falhou em não ter capturado Javier Velasco, embora eles tivessem um mandado de prisão de crimes cometidos por ele anteriormente; por não ter processado a tempo as outras queixas contra ele, e por não ter atendido corretamente a vítima após o ataque. Nenhuma das entidades citadas na denúncia concordou com a demanda e todas as tentativas dos parentes foram rejeitadas.

A frase da advogada da Secretaria do Governo contém implícita uma ideia arcaica - "Se apenas Rosa Elvira tivesse sido uma mulher do lar"- e responsabiliza a própria vítima por sua morte.

Demorou sete meses e três dias para o tribunal de Bogotá condenar Javier Velasco, o responsável pelo crime, de acordo com o El Espectador. A punição foi de 48 anos de prisão e uma multa de 800 salários mínimos.

E Rosa Elvira não havia sido a única vítima de Velasco. Ele também foi condenado a 36 anos de prisão pelo estupro de suas duas filhas biológicas e a 10 anos de prisão por abuso de outras mulheres. Em todos os casos, Javier Velasco assumiu a responsabilidade dos atos.

Feminicídio

No ano em que Rosa morreu, quase mil mulheres foram assassinadas na Colômbia, segundo o Instituto de Medicina Legal do país.

O caso de Rosa Maria gerou uma mobilização no país para que se discuta a violência contra as mulheres.

No início de junho de 2015, a Câmara dos Representantes aprovou a lei, proposta pela deputada Gloria Ines Ramirez, do Pólo Democrático, que prevê punições severas contra assassinatos e crimes contra as mulheres.

A lei contra o feminicídio foi uma homenagem em nome de Rosa Elvira Cely, no terceiro ano após a sua morte trágica.

"Não foi a saia, não foi a hora, não foi o local. Queremos viver. Nada justifica a agressão sexual."

"Advogada Luz Stella Boada, você é uma vergonha para o gênero!"

Indignação

O prefeito da capital Enrique Peñalosa, contudo, se mostrou indignado com o argumento da advogada do órgão municipal e pediu que o posicionamento fosse revisado e corrigido.

"Eu estou com nojo da postura dos advogados da Secretaria do Governo no caso da Rosa Elvira Cely Governo. Dói-me que isso tenha acontecido."

"Acabei de pedir para rever e retificar a posição do distrito no caso de Rosa Elvira Cely."

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