Huffpost Brazil

Como Elvis Presley passou de ícone rebelde a ativista antidrogas

Publicado: Atualizado:
Imprimir

richard nixon e elvis presley

Uma das imagens mais populares dos Arquivos Nacionais em Washington D.C. – uma foto de 1970 em que Elvis Presley e Richard Nixon apertam as mãos no Salão Oval – é o objeto de um novo filme apropriadamente intitulado Elvis & Nixon .

O filme de Liza Johnson tem uma abordagem bem-humorada para o encontro, com Michael Shannon no papel de um Elvis solitário, que pediu permissão para ser um agente antidrogas disfarçado, e Kevin Spacey como um Nixon arrogante, que só aceitou a reunião porque queria garantir um autógrafo para sua filha.

A reunião entre Presley e Nixon ocorreu alguns meses antes de o infame presidente começar a gravar suas conversas, então os detalhes do filme são principalmente chute. Mas Jerry Schilling, amigo de longa data de Presley que viajou com o cantor e ajudou a organizar a reunião, produziu Elvis & Nixon e ofereceu insights sobre o que realmente aconteceu.

O Huffington Post conversou com Schilling durante o Festival de Cinema de Tribeca, no qual o filme exibido antes do lançamento nos cinemas, para refletir sobre a resistência de Presley à contracultura, por que perder um papel em Nasce uma Estrela contribuiu para a sua morte e se ele realmente se disfarçou depois da conversa com Nixon.

Qual foi o seu pensamento inicial quando você descobriu que este episódio relativamente pequeno da vida de Elvis Presley viraria um filme?

Pensei: “Excelente ideia”. Pensei num drama, mas ouvi comédia e eu fiquei com medo.

Por quê?

Bem, porque era uma missão séria da parte de Elvis. Ele realmente achava que queria fazer algo pelo seu país, sendo ultraliberal e rebelde, inicialmente. [Na época da reunião, ele era] mais velhos e mais conservador.

Foi apenas uma bela expressão de um cidadão americano que cresceu pobre e não teve muitas oportunidades conhecendo o presidente dos Estados Unidos. E Elvis sempre se viu como um agente secreto. Ele adorava essas coisas.

Como ele se via um agente secreto?

Bem, todos temos de ter nossos hobbies fora do trabalho. Ele colecionava distintivos. Ele treinou tiro ao alvo para poder carregar armas ocultas, e você tem de ter em mente que ele foi ameaçado de morte. Então não era apenas um hobby.

Foi uma maneira de dizer: “OK, se há algum idiota por aí, posso me proteger”. E a direita que não o entendia passou a aceitá-lo.

michael shannon e kevin spacey
Michael Shannon e Kevin Spacey em cena de “Elvis & Nixon”.

Elvis passou de rebelde liberal a ativista conservador, enquanto o rock 'n' roll se tornou a força dominante na cultura pop. Quando começou essa transição?

Acho que ele realmente começou a mudar quando voltou do Exército [em 1960]. Acho que de repente as pessoas que pensavam que ele era esse roqueiro vulgar começaram a dizer: “Ei, cara, ele serviu o país”. Ele volta e sua primeira aparição é com Frank Sinatra, num especial de TV. “Ei, ele deve ser um cara OK”, sabe?

Elvis, que não tinha nenhum tipo de preconceito, amava o underground, por assim dizer. E o underground original o amava. Mas ele também se preocupava com a outra metade do mundo, então ele abraçou tudo. É por isso que ele era especial. É por isso que ainda estamos falando sobre ele, além, obviamente, da sua capacidade criativa. Ele era o ser humano definitivo.

Entendo que o serviço militar possa mudar pontos de vista morais de uma pessoa, mas você acha que o serviço também criou alguns demônios para Elvis? O filme faz parecer que ele está assombrado pelo conflito que acontece no mundo, a ponto de se desligar um pouco internamente, se é que isso faz sentido.

Faz sentido. [Longa pausa] Essa é a pergunta mais profunda que já me fizeram, e já me perguntaram muita coisa. [Outra pausa] É uma pergunta muito boa, e não sei se eu tenho uma resposta. Mas acho que há um elemento de verdade aí. Acho que pode ter causado o efeito contrário, na verdade, porque acho que, como antes, esse elemento -- vamos chamá-lo de a direita -- não entendia quem ele era.

Acho que os abriu mais, porque agora eles estão começando a gostar dele. Estão começando a respeitá-lo e entender quem ele é. Estão indo além da imagem do roqueiro, do homem selvagem. Estão enxergando o ser humano. Sinto falta do rebelde.

Acho que ele se abriu mais. Acho que ele estava começando a ver que todo mundo gostava dele e o respeitava. Mas, a este respeito, acredito que lhe deu a coragem para tentar encontrar o presidente dos Estados Unidos.

Com o passar da década de 1960, seus discos não chegavam mais ao topo das paradas. O som do rock mudou drasticamente. Você acha que ele estava se tornando uma espécie de -- não diria que "pária" é a palavra certa, porque ele é Elvis, afinal de contas, mas...

Bem, ele começou como um pária.

Claro, mas não em 1970.

Certo.

Mas a imagem do rock e da música folk na época estava associada à contracultura. Ou pelo menos essa é a percepção que temos agora.

Sim, era.

jerry schilling e michael shannon
Jerry Schilling e Michael Shannon na estreia de “Elvis & Nixon”, no Festival de Cinema de Tribeca, em 18 de abril

Você acha que Elvis perdeu uma certa credibilidade, ou pelo menos um certo ar cool, entre os Mick Jaggers e Bob Dylans do mundo?

Não há dúvida disso. Ser original é incomum, e ele era o original dos originais. Não teria havido Mick Jagger, não teria havido Bob Dylan ou John Lennon.

Mas você só pode sustentar isso durante um tempo, e a maioria dos rebeldes começa como adolescentes ou jovens. Agora ele está amadurecendo. É mais velho, está entendendo responsabilidades e vendo a contracultura que é subproduto de algo que talvez ele não começado totalmente, de que ele certamente foi um líder.

Agora está começando a promover coisas que ele não gosta, profissional e publicamente. Vamos admitir, a música foi influenciada pelas drogas. Ele não gostava de ver as pessoas subindo no palco com jeans rasgados. Ele achava que, se você está fazendo um show, deve parecer um showman. Ele veio de uma época diferente. Ele foi um pioneiro. Então, sim, isso teve um papel, absolutamente.

Na época, você ficou surpresa com o fato de um presidente resistir à ideia de reunir-se com o artista mais famoso do mundo? Hoje, a política e a cultura pop são tão entrelaçadas. Obama supostamente é amigo de Jay Z e Beyoncé, por exemplo.
Obama é mais cool que Nixon, né?

Ah, claro. Nixon pode ser o presidente menos cool que já tivemos.

Queria que fosse Kennedy! Mas isso realmente me surpreendeu. Eu tinha estudado ciência política e história. Iria ser professor, e acompanhava política. Sabia que os senadores estavam tendo dificuldades com Nixon, então não achava que houvesse nenhuma chance de que seríamos aceitos quando li a carta que Elvis escreveu a Nixon.

Não queria magoá-lo e dizer: “Não vai acontecer”. Só acho que era o clima político e onde Nixon estava, o que ninguém sabia – só descobrimos mais tarde. Ninguém conseguia encontrar Nixon na época. Então fiquei completamente surpreso quando conseguimos.

elvis_serviço militar
Elvis Presley é visto em uma fotografia de seu serviço militar, entre 1958-1960

Se Kennedy fosse o presidente, você acha que ele teria sido menos reticentes à ideia? Ou Johnson? Em outras palavras, era uma coisa de Nixon ou uma coisa presidencial?

Acho que foi uma coisa presidencial, talvez ainda mais no caso de Nixon, que, para minha surpresa, entendia quem Elvis era. Mais tarde, depois da morte de Elvis: “Achei que ele era um bom rapaz. Gostei de conhecê-lo”. Está na biblioteca de Nixon. Acho que eram dois caras que estavam no topo e eram solitários. Eles meio que se entendiam.

Essa é a ideia mais interessante do filme -- o conceito de Elvis como uma pessoa solitária.

Os dois, na verdade.

Amo a cena em que Elvis fala sobre a multidão gritando. Ela não o vê como uma pessoa real. Você deve perder o senso de si mesmo nessa loucura, então se disfarçar seria o oposto das multidões histéricas.

Ele também foi motivado pelo fato de que estava entediado. Ele queria fazer filmes mais desafiadores. Eu estava na reunião dele com Barbra Streisand, quando ela lhe ofereceu “Nasce uma Estrela”. Hollywood não queria. Eles tinham uma fórmula: 12 músicas, só paguem por Elvis.

Ele era piloto de carro de corrida em um filme e dirigia moto em outro. Era um homem brilhante, e você não dá [sempre] a mesma coisa para os gênios. Os hobbies começaram a ser cada vez mais importantes para ele, porque a carreira não era mais um desafio. Ele era um cara que precisava de desafios, mas a máquina tinha ficado grande demais.

Resumindo, acredito que perdi meu amigo em uma idade precoce por causa de decepções criativas. E as decepções criativas causaram uma série de outros problemas. Ele queria anestesiar essa decepção criativa, e foi aí que tudo começou.

O posfácio do filme diz que não sabe se Elvis realmente foi um agente infiltrado. Então tenho de perguntar: foi ou não?

Quer saber a verdade?

Claro.

Sim.

Em que capacidade?

Não posso te dizer. Ele estava infiltrado.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Priscilla Presley revela última conversa com Elvis Presley, dias antes da morte dele

- Michael Jackson, Elvis Presley, Marilyn Monroe... Quem são os famosos mortos que mais faturaram em 2015

- Sessão de 'Aquarius' em Cannes é marcada por protestos contra o impeachment de Dilma Rousseff (VÍDEO)

Também no HuffPost Brasil:

Close
Elvis Presley
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção