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UNE admite que Dilma pode não voltar e discute novas eleições, diz presidente da entidade

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CARINA VITRAL
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Uma das entidades de apoio à presidente Dilma Rousseff, a União Nacional dos Estudantes (UNE) admite a dificuldade da petista em voltar ao poder e discute a realização de novas eleições via plebiscito popular.

Em entrevista ao HuffPost, a presidente da UNE, Carina Vitral, afirmou que a entidade não participará de qualquer reunião com integrantes do governo de Michel Temer, por considerá-lo “golpista”.

Diante do risco de retrocessos sociais, o movimento estudantil se organiza para iniciar uma greve nas universidades caso haja uma medida concreta considerada equivocada na área da educação.

Para Carina, a gestão Temer traz o risco de retrocessos constitucionais e o ministro da Educação, Mendonça Filho, pode acabar com a popularização das universidades. Ele se declarou favorável à cobrança de mensalidades para pós-graduação e extensão em instituições públicas.

Leia a íntegra da entrevista.

HuffPost Brasil: Como a UNE irá se articular contra o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff?

Carina Vitral: A primeira bandeira que unifica, que substitui o “não vai ter golpe” passado o golpe no Senado é o “fora Temer”. Explorar as contradições, os equívocos, fazer oposição política ao governo Temer, mas mais do que isso é não aceitar e não reconhecer o governo Temer. A UNE não vai a nenhuma reunião se for convidada, assim como as centrais sindicais comprometidas com os trabalhadores não foram na reunião de negociação sobre a reforma da previdência.

A segunda coisa que o movimento estudantil começa a discutir é uma saída política para a crise porque está cada vez mais difícil acreditar que a presidente Dilma possa voltar. Se a gente não aceita o governo golpista, precisa de uma saída política. Ainda não tem uma definição sobre isso, mas começa a discutir uma saída de antecipação das eleições.

Seria um apoio à PEC que os senadores apresentaram ou chegar a uma proposta em comum com o PT?

O problema da PEC é que precisa de dois terços (dos votos dos parlamentares para ser aprovada). Existe uma proposta que é interessante para nós do movimento social que é a participação popular nesse processo. A correlação de forças só no Congresso não vai garantir uma saída política possível. A saída proposta pelos deputados é a “saída Temer” e ela a gente não topa. Então a nossa ideia é jogar para o povo decicidir. Tem a ideia do plebiscito pela antecipação das eleições, que pode criar um movimento pró-eleições presidenciais ou gerais e a gente conseguir ter força para pautar isso na sociedade. Acho que essa proposta pode ganhar força com os erros do governo Temer e programas anti-populares.

Ainda assim esse plebiscito precisaria de um aval do Congresso...

Mas pode ser maioria simples por meio de uma proposta de iniciativa popular. A ideia é que o plebiscito seja junto com as eleições de outubro.

Uma das principais críticas ao governo Dilma é a falta de diálogo. Ao não reconhecer o governo Temer e não se dispor a conversar com seus dirigentes, como o ministro da Educação, Mendonça Filho, a UNE não agrava a possibilidade de retrocessos sociais?

O diálogo pressupõe que a parte de lá está disposta a construir e a pactuar. Quando o problema é de concepção – por exemplo, a declaração do ministro que o governo vai apoiar medidas de cobrança de mensalidade nas universidades públicas – isso contradiz um princípio constitucional que é a gratuidade do ensino superior. Isso é conquista das Diretas, da Constituinte. São coisas que não tem negociação. A UNE só sentaria se tivesse abertura para discutir um tipo de mensalidade, se topasse discutir e a gente não topa. Então nos resta a resistência, que é criar um movimento dentro das universidades de resistência à cobrança das mensalidades.

Tem chance de uma greve mais generalizada nas universidades?

Depende das ações do governo federal. Hoje existe uma resistência muito grande ao golpe nas universidades. A gente critou comitês em mais de 120 universidades do Brasil. A Universidade é um dos locais que mais está organizado contra o golpe. Tem muita manifestação e vários movimentos se organizaram para isso, mas no local de trabalho e estudo, a Universidade é onde mais se está engajado. A gente conseguiu vencer o debate na Academia. A Academia está armada contra o golpe. Para existir uma greve precisa ser uma greve que contraponha uma medida concreta. Então nós estamos vigilantes a qualquer deslize do governo para criar condições para uma greve.

Qual ação do MEC poderia desencadear esse movimento? Adoção de mensalidades nas universidades púbicas, cortes de programas?

O risco iminente é à popularização da universidade. Eu não acho, por exemplo, que esteja em risco o Fies porque ele tem alto interesse do setor privado. O maior risco é a universidade pública porque ninguém lucra, a não ser os estudantes e a sociedade, com a universidade pública. O interesse privado não está ali, então a privatização efetiva das universidades públicas eu acho que é o maior risco.

No governo da presidente Dilma, houve descontentamentos da UNE com algumas medidas, como cortes na educação. Próximo ao afastamento dela, houve uma aproximação do movimento com o Planalto. Esses descontentamentos foram resolvidos?

A principal lição desse período é que existem projetos distintos para o Brasil e existiu, em certa medida, uma ilusão por parte de setores do governo federal de achar que iam conquistar a mídia e setores da elite fazendo concessões do lado de lá, inclusive que fizeram o programa da Dilma se aproximar do programa das elites. A escalada do Fies sem controle, cortes de verbas, ajuste fiscal, foram símbolos de um programa que não era nosso e que a presidente Dilma acabou comprando. Mas eu acho que essa crise deixa claro que o ajuste do Temer é muito mais cruel, muito mais sacrificante para os trabalhadores do que o ajuste da Dilma.

Antes de se afastar da Presidência da Câmara, Eduardo Cunha autorizou a abertura da CPI da UNE. O que está sendo feito para que ela não seja instalada?

A CPI da UNE é fruto de uma retaliação do presidente Eduardo Cunha à posição política que a UNE defendeu. Desde a redução da maioridade penal, ele nunca engoliu a oposição política que a gente fez, passando pelo “fora Cunha” e a oposição ao impeachment. A UNE sempre foi barrada na portaria da Câmara. Representantes da UNE eram revistados dentro da Casa enquanto líderes do Movimetno Brasil Livre recebiam crachá especial para entrar na Câmara. Sempre houve uma perseguição forte à UNE. O próprio Supremo Tribunal Federal reconheceu que o Cunha usa CPIs para retaliar adversários e por isso seu último ato antes do afastamento foi a leitura (da abertura) da CPI da UNE.

Nós não temos nada a esconder, só achamos que não existe motivo, fato determinado, para abertura de uma CPI porque todas nosssas contas são públicas. Prestamos contas no site da entidade. Prestamos contas à diretoria e ao conselho fiscal eleito por nós. Nossas eleições fazemos de forma transparente. Os recursos da indenização que recebemos foi do Estado brasileiro, fruto de uma reparação histórica de perdas materiais na ditadura militar, que foi o incêndio no prédio da praia do Flamengo. Fruto disso a gente recebe uma reparação do Estado brasileiro. Não foi de um governo e foi aprovado por unanimiade no Congresso Nacional que fez com que a gente recebesse uma indenização para reconstruir o prédio. Está no quinto andar a construção. As pessoas no Rio de Janeiro passam por lá e dá para ver que o recurso está sendo investido.

No governo Temer há expectativa de o Congresso votar mais propostas contrárias aos direitos sociais, com a ampliação da terceirização e a redução da maioridade penal. Como a UNE vai enfrentar esses temas?

O presidente Michel Temer foi eleito em eleição indireta, que foi o que representou aquele impeachment e vai precisar se reconciliar com a população. Então a gente acha que pode ser bastante efetiva a pressão das ruas e da juventude, que sempre foi essencial para qualquer mudança no País. A gente acha que pode demover os deputados e o próprio governo dessas posições. Mas é nas ruas. A gente não tem ilusão com qualquer negociação que possa ser feita (com parlamentares).

Há uma contraposição entre a UNE e movimentos ligados à direita, como o Movimento Brasil Livre. Como ficam esses movimentos agora, após a aprovação da admissibilidade do impeachment?

Os movimentos criados para o impeachment, forjados para existir durante o impeachment agora perdem o seu valor para a imprensa. Esses movimentos são fakes porque são ocos. Há a casca por fora, a página no Facebook, mas não existem de forma real, a ponto de influenciar na sociedade. Então eu acho que a imprensa vai cair numa contradição que é ter dado espaço a líderes irrelevantes e que agora vão precisar descartar e voltar a dar a relevância para as verdadeiras entidades dos movimentos sociais. A UNE vai continuar mantendo sua posição de independência. O que muda do governo Dilma para o governo Temer é um processo político traumático que o Brasil viveu de um golpe de Estado que a UNE vai combater de forma veemente.

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