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As redes sociais estão ajudando as pessoas com depressão a falarem de seus problemas sem medo do estigma

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DEPRESSION
Conversar com pessoas que entendem os desafios que você enfrenta pode mudar sua vida | Peter Dazeley via Getty Images
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A depressão, que afeta uma em cada cinco pessoas em algum momento da vida, pode ser uma doença que isola as pessoas incrivelmente.

Além do fato de que um de seus sintomas é justamente dificultar a comunicação e socialização, a depressão é cercada por um estigma enorme que se deve ao desconhecimento.

Isso gera uma “tempestade perfeita”: ninguém se sente em condições de falar sobre a depressão e ninguém a entende porque ninguém está falando sobre ela. Mas as redes sociais estão servindo de catalizador e canal para as pessoas desfazerem ideias equivocadas sobre a depressão e para finalmente explicarem o que sentem.

Nos últimos anos, diversas campanhas (lançadas por ONGs e pelo público) vêm lançando mão de fotos e selfies para ajudar a iniciar discussões sobre a saúde mental.

Em outubro de 2015, muitas pessoas foram ao Facebook, Instagram e Twitter para compartilhar selfies de medicação, num esforço para combater o estigma que cerca as doenças mentais.

Este ano, para coincidir com a Semana de Consciência da Depressão, a organização de apoio a depressivos The Blurt Foundation lançou a campanha #WhatYouDontSee (o que você não vê), para conscientizar o público de que os depressivos não têm uma aparência ou um jeito determinados.

depressão

A fundadora da campanha, Jayne Hardy, também tem depressão e explica: “As pessoas de nossa comunidade vivem contando que outras pessoas lhes disseram que elas ‘não têm cara de deprimidas’, que elas não podem estar doentes porque foram vistas sorrindo, que são jovens/velhas/bonitas/ricas/sorridentes demais para ser depressivas, e assim por diante.”

"Estamos fartos de ouvir comentários como esses. A depressão pode atingir qualquer pessoa, em qualquer momento, independentemente de idade, gênero e circunstâncias pessoais. Olhando de fora não dá para saber quem está sofrendo, porque a depressão é invisível.”

A campanha incentiva os depressivos a compartilhar “mhelfies” – algo como “selfiessm” (selfies de saúde mental), ou imagens delas próprias, pessoas afetadas por um problema de saúde mental – com uma legenda explicando o que os outros não enxergam.

Por exemplo, como elas se sentem, seus sintomas e experiências, como a depressão impacta sua vida.

Falando de seu próprio caso, Hardy diz: “A depressão me limita. Ela suga minha confiança, minha capacidade de interagir com as pessoas que eu amo. Modifica minha visão de tudo.”

“Tenho dificuldade para pegar no sono, tomar decisões ou sentir prazer em qualquer coisa, mesmo as coisas que eu normalmente gosto de fazer. Questiono meu próprio valor e não consigo pedir ajuda a ninguém porque sinto que seria um peso para a outra pessoa carregar.”

Quando Hardy está passando por momentos difíceis, as redes sociais são para ela como uma janela para o mundo externo, algo que a ajuda a não se sentir tão isolada.

“Quando a depressão está muito ruim, nem consigo sair de casa”, ela explica. “As redes sociais me permitem manter contato com meus amigos e familiares como e quando eu me sinto bem para isso. Além disso, me dão um apoio emocional que eu não teria como encontrar em outro lugar.”

Uma das campanhas de mídia social de maior sucesso do ano passado foi #MedicatedAndMighty (medicada e poderosa), que começou quando Erin Jones, mãe de quatro filhos, compartilhou no Facebook uma foto em que está segurando uma receita de ansiolíticos.

“Tentei viver sem a ajuda de remédios”, disse Jones. “Quando não estou medicada, me sinto maravilhosa num momento e no fundo do poço no momento seguinte. Não há coerência.

“Já cansei de viver assim. Pedi socorro aos ansiolíticos e antidepressivos. Às vezes a gente precisa de ajuda.”

fundo do poço

Erin Jones lançou a campanha #MedicatedAndMighty no ano passado.

A franqueza dela inspirou muitas outras pessoas com problemas de saúde mental a compartilhar suas próprias histórias pessoais, num esforço para combater o estigma.

Seis meses mais tarde, Erin Jones observou que hoje já mais pessoas falando sobre doenças mentais.

“Não são apenas pessoas extrovertidas como eu, que contam a história de sua vida a qualquer um”, ela explica. “Mesmo pessoas supertímidas que tinham medo de falar ‘estou deprimida, deprimida demais’ andam falando disso.

“As pessoas estão recebendo ajuda, e, porque estão fazendo isso e sendo francas sobre seu problema, mais e mais gente está fazendo a mesma coisa: falando a verdade mesmo que desagradável, pedindo ajuda e apoio. Amigos estão se ajudando. É isso o que tenho visto desde que escancarei meu problema. Pessoas de todas as profissões e áreas estão dando apoio umas às outras. É lindo.”

Hardy concorda. Ela diz que os vínculos fomentados pelas redes sociais desafiam diretamente a sensação de isolamento.

“Basta clicar o mouse e você pode encontrar e interagir com pessoas que vivem uma situação semelhante à sua.

“O simples fato de saber que você não está só é um consolo tremendo, e conversar com pessoas que entendem os desafios que você enfrenta pode mudar sua vida.”

Erin Jones diz que as redes sociais podem ser uma ferramenta poderosíssima para reduzir o estigma.

“Sempre que falamos de nossas vidas, em qualquer plataforma que seja –pessoalmente ou online--, estamos reduzindo o estigma que cerca a doença mental”, ela explica.

“A internet – especificamente as redes sociais – é o nosso meio de comunicação com o mundo, uma coisa vital. Alguns de nós nem conseguimos sair de casa, mas conseguimos conversar pelo Facebook.

“Podemos ser francos e mostrar vulnerabilidade em momentos difíceis da vida, e em instantes haverá outras pessoas nos dando apoio. A partir disso, outra pessoa fica sabendo que há um problema de saúde mental afetando um amigo, uma coisa que ela nem sabia. E assim, ela se informa.

“As redes sociais geram esta onda de apoio, amizades e informação. Cada vez que as pessoas abrem a boca, elas se
comunicam com um grupo diferente de amigos. Quanto mais todos nós sabemos, menor é o estigma. Mas ainda temos muito trabalho pela frente.”

De acordo com a organização beneficente Mind, que trabalha com pessoas com doenças mentais, quatro em cada cinco pessoas acham que falar de seus problemas de saúde mental as ajuda. Isso sugere que campanhas desse tipo possam ajudar muito.

A esperança é que compartilhar essas informações de maneira ousada e visível desafie diretamente o estigma que cerca os problemas de saúde mental.

“As imagens são poderosas. Elas chamam nossa atenção de uma maneira que as palavras, por si sós, não conseguem”, diz Hardy.

“As imagens são impactantes porque nos mostram pessoas reais que enfrentam uma condição real, algo que geralmente não aparece em nossos feeds de mídia social”, ela explica.

imagens

"É profundamente comovente ver muitas imagens de outras pessoas que têm experiências semelhantes às nossas.”

Uma pessoa que reconhece a importância das redes sociais para colocar as pessoas em contato é Alison Lawrence, da Depression Alliance, que oferece uma plataforma onde pessoas com problemas de saúde mental podem se comunicar.

Lawrence diz que as mídias sociais têm um papel importantíssimo em multiplicar os diálogos sobre doença mental.

“Como é o caso com a maioria das coisas, as redes sociais podem exercer impacto positivo ou negativo sobre o bem-estar”, ela diz. “Pode fazer as pessoas se sentirem pressionadas ou assediadas, e às vezes pessoas que não têm depressão ou não entendem o que seja podem falar do assunto de uma maneira que não ajuda.

“Mas estamos assistindo a um aumento da consciência dos riscos das redes sociais, e, cada vez mais, os comportamentos e atitudes negativos estão sendo contestados.”

As redes sociais podem abrir muitas portas para pessoas com depressão, especialmente ajudando-as a entrar em contato com outras pessoas. Mas elas não deixam de ser suas desvantagens.

Danielle Montgomery, 25 anos, tem um transtorno alimentar e depressão desde a adolescência. Ela escreve regularmente sobre sua vida num blog no The Huffington Post e diz que isso é catártico.

“Gosto de escrever para educar outras pessoas, mas tenho problemas com as mídias sociais”, ela explica. “O problema é a quantidade de opiniões veiculadas, as informações enganosas e a sobrecarga de informações. Isso tudo pode ser avassalador.

“Mas, de modo geral, tendo crescido numa época em que falar de saúde mental era tabu e criava situações incômodas, acho ótimo que as redes sociais tenham permitido à mídia e a ONGs criarem campanhas que são acessíveis a todos.”

Para quem entra em contato com conteúdos nas redes sociais que desencadeiam sua depressão, Stephen Buckley, diretor de informação na Mind, recomenda: “Se você sabe que sites específicos podem desencadear sentimentos e/ou comportamentos negativos, evite-os. Se você encontra alguma coisa online que o perturba, feche-o imediatamente.”

Ele recomenda, também, que se você começar a sentir-se vulnerável usando as redes sociais, é melhor afastar-se de tudo isso por algum tempo.

“Passar tempo demais online pode afetar o sono. Para garantir uma boa noite de sono, saia das redes sociais e desligue seus aparelhos duas horas antes de ir para a cama”, ele recomenda.

Mas Buckley diz também: “As muitas formas diferentes de mídias sociais possibilitaram mais acesso a informações e conselhos sobre como cuidar de nosso bem-estar.

As redes sociais podem desempenhar um papel muito útil na rede maior de apoio das pessoas e podem reduzir a sensação de isolamento delas, especialmente no caso das pessoas que têm dificuldade em criar ou manter relacionamentos ou dificuldade em sair de casa.”

LEIA MAIS:

- ‘Mas você não parece estar deprimido': 22 relatos sobre o que não está visível na depressão

- Reunimos 10 reportagens que mostram como é sofrer de depressão

- Programas de TV e notícias inspiram público a buscar ajuda para problemas de saúde mental

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