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Sem estrutura, hospital particular de São Paulo impede que mães amamentem seus filhos

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Pedro tem apenas dois meses e está internado há 10 dias no Hospital Santa Catarina, em São Paulo. Ele tem um quadro de bronquiolite e está na UTI. Apesar de todos os médicos consultados por sua mãe, Joana Ciampolini, afirmarem que o leite materno seria crucial em sua recuperação, ele não pode ser amamentado. Isso porque, de acordo com as regras administrativas do hospital, o aleitamento materno não é permitido desde que a maternidade do Santa Catarina foi fechada.

Pedro, que ainda não havia sido introduzido a outros alimentos, continua sem o leite materno. Enquanto isso, Joana corre risco de ter a sua produção natural interrompida, pois não consegue administrar o leite no período em que acompanha o filho na UTI - praticamente o dia inteiro.

A situação é ainda mais grave pois o caso de Pedro não é isolado. Sem o lactário ou sala de ordenha, outros bebês estão sendo alimentados com leite artificial contra a vontade de seus pais. Em entrevista ao blog Ser mãe é padecer na internet, do Estado de S. Paulo, Joana não escondeu a sua indignação.

"A maioria dos médicos que tratou o meu filho foi gentil, disse que sabia que o leite materno era melhor, mas afirmava não poder permitir que eu oferecesse por uma decisão administrativa”.

O argumento é de que sem a estrutura necessária por parte do hospital, não há como manipular com segurança o leite materno que seria oferecido à criança por meio da sonda.

“Eu disse a eles o quanto aquilo era absurdo. Se eles tem uma técnica em nutrição que mistura o leite artificial em água, por que seria mais arriscado oferecer o leite que sai pronto do meu peito?”

Joana se viu em uma situação que classificou como uma "briga desleal", segundo o site Mães de Peito. Questionada se ela deixaria seu bebê passar fome, a mãe autorizou contra a sua vontade a nutrição artificial do pequeno.

Além disso, Joana argumenta que em nenhum momento ela foi orientada sobre como deveria lidar com a ordenha e o estoque de seu leite, afim de evitar que o seu corpo parasse de produzi-lo. "Se eu não tivesse informação prévia minha amamentação poderia ter acabado aqui", afirmou ao Estadão.

O médico Moisés Chencinski, membro do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo, foi ouvido pelo jornal. Ele afirmou que o leite materno é de fato uma das principais medidas para que Pedro se recupere da bronquiolite.

“O leite materno não é apenas nutrição. Ele representa, junto com as vacinas, a mais importante defesa do organismo contra infecções digestivas e respiratórias. O leite materno tem anticorpos, imunoglobulinas, entre as quais a IgA, que interferem na ação de vários vírus, inclusive do vírus sincicial respiratório, responsável pela bronquiolite. A mãe deveria ser orientada para manter a coleta adequada, preservando a produção, até doando a bancos de leite, para que, assim que a criança esteja extubada e em condições, possa mamar diretamente do seio materno, não correndo riscos de dificultar a manutenção da amamentação”.

Vai ter mamaço

Após compartilhar o seu relato nas redes sociais, outras mães se solidarizaram com a situação vivida por Joana e outros pacientes do Hospital Santa Catarina. O grupo resolveu fazer um ~mamaço~ na porta da instituição como forma de protesto.

Em nota, o Hospital afirmou que a sala de ordenha será reativada em até seis meses:

"A sala de ordenha, na qual serão realizados os procedimentos referentes à coleta de leite humano (LHO), já constava no plano diretor de investimento do hospital, e deve ser aberta nos próximos seis meses. O prazo para implantação acontece porque – para os hospitais que se propõem a oferecer o espaço – é necessário atender exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e a Resolução RDC Nº de 171, de 4 de Setembro de 2006, onde constam as recomendações técnicas capazes de garantir a manutenção das características imunobiológicas e nutricionais dos produtos. O não atendimento dessas premissas, segundo a literatura científica, resulta em infecções associadas ao leite materno, em geral, relacionados ao processo (incluso bombas de sucção contaminadas e manipulação). A Instituição ressalta, no entanto, que todas as crianças que não estão em ventilação mecânica e sedação, mesmo dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Pediátrica, recebem amamentação natural. Por fim, o Hospital Santa Catarina reforça que preza pelo atendimento humanizado, pela segurança de seus procedimentos e de seus pacientes e que não descumpre qualquer norma vigente."

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