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5 coisas que aprendi sendo uma mulher negra com depressão

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DEPRESSO
tudo bem! não estar bem. | MARGOEEDWARDS VIA GETTY IMAGES
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Quando fui diagnosticada vários anos atrás com ansiedade e transtorno bipolar tipo II, pensei que meu mundo iria acabar. Já me sentia isolada, mas agora tinha de lidar com mais este estigma: o peso e a realidade de ser uma mulher negra com um problema mental.

Não sabia se havia histórico de doença mental em minha família — ninguém falava sobre isso. E, embora minha família mais próxima tenha oferecido o máximo de apoio e compreensão possível, sempre imaginei que a preocupação deles viria acompanhada por uma certa dose de incredulidade sobre meu diagnóstico.

Quando adolescente, eu era — e ainda sou — uma viciada em cultura pop. Buscava a música, a televisão e filmes para me ajudar a enfrentar a escuridão. E, embora essas coisas me ajudassem a deixar minha mente focada, ainda me impressionava o fato de tão poucas mulheres negras revelarem abertamente que sofriam de depressão. Sentia que não tinha nenhum ponto de referência para o que estava passando.

Aos 27 anos, ainda luto com minha ansiedade e depressão. Mas existem coisas vitais que apreendi na última década sendo uma mulher negra com uma doença mental:

1. Ser negra e ter uma doença mental não são coisas mutuamente exclusivas

A narrativa de que as pessoas negras não acreditam que existam doenças mentais não é totalmente correta — cada vez mais, as discussões sobre doença mental estão aumentando entre os negros. Mas não há como negar que, em alguns segmentos da comunidade, ainda existe o estigma.

Tive que desaprender a mentira, sutilmente ensinada durante minha adolescência, que coisas como depressão e ansiedade são coisa de “brancos” (ou, como sou de Gana, coisa do “Ocidente”). Segundo o siteBlack Women’s Health, as pessoas negras respondem por 25% da demanda por assistência à saúde mental nos Estados Unidos (a maioria por parte de mulheres). Ninguém é “menos negro” porque tem uma doença mental.

2. Tudo bem não estar bem

Existem muitos estereótipos e narrativas impostas sobre as mulheres negras e, talvez, o estereótipo mais difundido seja o “Mulheres Negras Fortes”. As mulheres negras são fortes, mas, às vezes, somos ensinadas a acreditar que, por causa dessa força, não há espaço para a vulnerabilidade.

Está passando por um problema? Levante-se com seu próprio esforço e continue caminhando. Engula sua dor e demonstre uma expressão corajosa — uma expressão que não ameace, uma expressão agradável. Mas, ao lidar com a doença mental, fica claro que, às vezes, a atitude mais forte que alguém é capaz de ter é admitir que não está bem. Depressão, ansiedade e outras doenças mentais não tornam você uma pessoa fraca.

3. Racismo e misoginia podem influenciar como você se sente

Já foi revelado que pode haver uma correlação entre racismo, depressão e ansiedade em pessoas negras, com alguns cientistas apontando até uma ligação entre o racismo e o estresse pós-traumático.

Para as mulheres negras, especialmente, as taxas de doença mental são mais altas simplesmente porque nos situamos entre as interseções de raça e gênero, suscetíveis a experiências como “racismo, alienação cultural e violência e exploração sexual”, diz o especialista George Leary, em artigo publicado pelo site Black Women’s Health.

E não precisa ser evidente. Às vezes, só o fato de ser a única pessoa negra em espaços predominantemente brancos pode ser emocionalmente desgastante. Antes mesmo de eu saber o que era ansiedade, lembro de ter me descontrolado emocionalmente e sofrido ataques de pânico em situações onde me sentia estranha ou alienada por causa da minha raça. Reconhecer esta correlação tem tido um grande papel na compreensão da minha doença.

4. Tudo bem pedir ajuda

Além de não haver nenhum problema em não estar bem, não há problema em pedir ajuda. A ajuda pode vir de várias formas, como conversar com um amigo, cuidar de si mesmo, seguir uma religião ou buscar aconselhamento de um médico. Independentemente do que pareça, pedir ajuda é fundamental.

Durante muito tempo, era difícil se abrir para médicos que, muitas vezes, sentiam que não podiam realmente entender minhas experiências. Mas, sendo muito franca, superei isso. Acreditava que pedir ajuda seria um sinal de fraqueza ou um sinal de reconhecimento da derrota. Não tem nada a ver com isso.

5. Você não está sozinha

Eu costumava pensar que não tinha nenhum ponto de referência para minhas experiências; que, embora existissem outras mulheres negras no mundo lidando com a doença mental, de alguma forma estavam escondidas de mim. Mas algo brilhante aconteceu quando eu finalmente comecei a reconhecer e falar sobre meus problemas.

Ao escrever sobre minha experiência e conversar com amigos, encontrei inúmeras outras mulheres negras no mesmo barco. Percebi que não estava só. E isso, por si só, tem sido um passo incrível em direção à cura.

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