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Renzo Agresta fala das batalhas psicológicas para Rio 2016: 'A mente tem um poder muito determinante'

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renzo agresta

Seis horas por dia de treinamentos. Dois turnos. Treinos táticos, técnicos, simulação de movimentos, defesa, ataque, aperfeiçoamento milimétrico. A esgrima é um dos esportes que pune os desavisados sem pena nenhuma.

Renzo Agresta, brasileiro que se classificou para sua quarta Olimpíada, sabe bem disso. Não é sem motivo que para além da exaustão do corpo, o atleta sabe que é o cérebro quem não pode ceder durante uma competição.

"Os fisicamente mais fracos, oxigenam menos o cérebro. Parece um erro psicológico, mas é cansaço. No final das contas, está tudo ligado".

A preparação é meticulosa inclui ainda o uso de aplicativos que espelham os movimentos em slow motion. "Qualquer detalhe pode fazer a diferença".

O HuffPost Brasil conversou com Renzo sobre a enorme diferença que faz o cuidado psicológico para um atleta de alto rendimento. Os melhores trechos da fala você acompanha nas próximas linhas.

HuffPost: Tem um trabalho mental especial para o esgrimista?

Renzo Agresta: É uma competição com um nível de estresse elevadíssimo. É um sonho para qual os atletas treinam a vida toda. É diferente das competições normais. Mas, ao mesmo tempo que é uma competição mais difícil, a mais importante, no caso da esgrima, é a mais fácil de se ter um resultado. Há um limite de pessoas por países e por participação. Alguns países mais fortes que chegariam com diversos atletas, na Olimpíada só podem inscrever duas pessoas. É uma competição muito menor do que o circuito mundial de esgrima. Serão cerca de 30 atletas no Rio, enquanto na Copa do Mundo são 300.

Os favoritos normamelmente sentem muita pressão. Você acaba vendo resultados anormais quando comparados com a Copa do Mundo. Ou seja: aparece um atleta por pódio que não estava entre os favoritos.

Disputar com atletas mais preparados é melhor para a cabeça?

Prefiro pensar na preparação de um dia - no meu caso, 10 de agosto -, que se tiver bem posso ser campeão olímpico. É trabalhar para que isso aconteça. Claro, que você quer ganhar, e precisa estar pronto.

O outro fator é a torcida a favor. Num esporte mais subjetivo com a esgrima, ou seja, o árbitro tem muito poder decisão, a torcida pode influenciar num momento de dúvida. Ou também não favorecer o adversário. É sempre bom ter torcida do seu lado. Tive uma boa experiência em 2007 com a torcida nos Jogos Panamericanos e levei uma medalha.

Nesse último ciclo tive vitórias contra atletas campeões mundiais e campeões olímpicos. Tenho chances e nível técnico para lutar por uma medalha. Posso não estar entre os favoritos, mas tenho capacidade para disputar.

renzo agresta

Você lembra de uma ocasião onde acabou perdendo para você mesmo? Onde a cabeça acabou te levando para um lugar que não deveria?

A mente tem um poder muito determinante para um atleta. Você pode ganhar por ser mais forte, mas, como você falou, perder para um atleta mais preparado mentalmente ou por você não estar bem.

Existe uma batalha interna de você com você mesmo. De tentar minimizar eventuais pensamentos negativos e maximizar os pensamentos positivos.

Já tive todos esses exemplos. Já ganhei de atletas mais fortes porque estava melhor mentalmente, já tive derrotas em que eu era mais cotado, melhor no papel e acabei perdendo. É um eterno desafio de você com você mesmo.

Existe uma batalha interna de você com você mesmo. De tentar minimizar eventuais pensamentos negativos e maximizar os pensamentos positivos. Quem faz isso numa situação de tanto estresse como nos Jogos, leva muita vantagem. Ainda mais num cenário de atletas nivelados tecnicamente. Os atletas brasileiros vão se deparar com uma Olimpíada em casa. Quem melhor fizer essa batalha psicológica, vai imprimir melhor a técnica e de instintos de cada um.

A sua esgrima é mais técnica ou tática?

Eu avalio em quatro padrões: técnico, tático, físico e psicológico. Aqui na Itália, evoluí muito na técnica e tática. A parte psicológica eu procuro trabalhar sempre, já conversei com psicólogos esportivos e acho que o treinador tem um papel nisso. Leio livros...

renzo agresta

Renzo, à direita, tenta o ataque. Corpo e mente precisam trabalhar juntos

E tem algum que você gostaria de indicar?

Sim. Tem, sim. O Cabeça de Campeão, do François Ducasse.


Qual treinador que te deu um conselho matador?

O meu primeiro. Ele teve uma influência enorme na minha formação como atleta e também na minha formação psicológica. É o Régis Trois de Avila. O Trois teve um aspecto importante. Ele me ensinou como lidar, como aprender numa competição. Estava vendo uma palestra do John Wooden, um dos maiores treinadores de basquete da história dos Estados Unidos, e ele fala uma coisa que concordo.

O Wooden diz que sucesso é procurar através do esforço máximo chegar o mais próximo possível de seu potencial. É você dar o máximo. Se você der o máximo, o resultado não é a principal coisa.

Num momento de máxima pressão, é pensar no que você pode fazer de melhor. O que é isso na esgrima? É o próximo ponto. Essas são estratégias mentais que você vai melhorando. Ao longo do tempo, você vai evoluindo. É como uma onda, vai renovando, está sempre subindo.

É blindar eventuais sensações que podem não me ajudar e maximar as outras. Visualizar vitória, quase como que sentir ao máximo que está ganhando um jogo. Se bem executado, pode chegar no resultado.

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