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Principais movimentos feministas do País vão lutar contra os retrocessos do governo de Temer

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“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

Simone de Beauvoir escreveu a frase acima no século passado. Mas talvez seja mais atual do que a própria filósofa imaginaria. Desde a época em que o Brasil viveu uma Ditadura Militar, esta é a primeira vez em que o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos é extinto por um governo.

Criada para dar visibilidade e garantir o direito de minorias, a Pasta foi riscada da história do governo brasileiro no dia 12 de maio, quando o presidente em exercício Michel Temer assinou os seus primeiros decretos no Diário Oficial da União. Ele deu lugar à Secretaria da Mulher que será comandada pela deputada Fátima Pelaes (PMDB), considerada uma “defensora da família e da vida desde a concepção”.

women brazil protest

Ano passado, os principais movimentos feministas do País conseguiram reunir milhares de mulheres na Marcha das Mulheres contra Cunha, em protesto à PL do Aborto, em nome de seus direitos e pedindo a saída do presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

O HuffPost Brasil conversou com representantes dos principais coletivos e organizações feministas que estavam à frente desta luta que tomou o País. Como, para elas, o governo do presidente interino e a extinção do Ministério pode agravar o temido retrocesso em liberdade e direitos das mulheres, tão discutido e temido por elas?

A representante do coletivo feminista Juntas, Sâmia Bomfim, salienta que Temer governa para e pelas elites e que, por isso, um retrocesso que já foi iniciado no governo Dilma pode se perpetuar.

"Quando Dilma encolheu a Secretaria das Mulheres para que ela se fundisse à de Direitos Humanos e Igualdade Racial foi um gesto que impactou muito nossas vidas, pois na prática isso significou menos verbas e políticas públicas para melhorar a vida das mulheres. O movimento de mulheres tem se renovado e se fortalecido muito nos últimos tempos, quase todos os dias há mobilizações nas redes e nas ruas, ou seja, não vai ser fácil para Temer mexer com os nossos direitos"

women protests brazil

O fato de nenhum partido da base aliada de Temer ter indicado uma mulher para ser ministra, no olhar de Bomfim, assusta e mostra "que estamos ainda muito atrasados no quesito participação feminina na política, algo que tem avançado muito nos últimos tempos em todo o mundo”.

Com Dilma, o Brasil tinha aproximadamente 13% de representatividade feminina nos Ministérios. Com Temer, o Brasil despenca 22 posições no ranking de igualdade de gênero do Forum Econômico Mundial.

women rights protests brazil

A fundadora do Católicas Pelo Direito de Decidir, Maria José Rosado, de 73 anos, afirma que o "governo Temer é para se temer e para se lutar também".

"O atual ministro da Saúde chamou membros de igrejas cristãs para tratar de assuntos que concernem às mulheres, como a legalização do aborto. Isso é a expressão do quanto os grupos fundamentalistas religiosos dominam o governo. Dormimos em uma democracia e acordamos numa teocracia."

E continua:

"O ministro da Saúde teria, por obrigação, chamar para conversar todo o setor médico deste País que tem um amplo conhecimento do que acontece em relação à saúde, que tem pesquisas, que tem acúmulo de conhecimento sobre o assunto. Como uma organização feminista defendemos a legalização do aborto, e não o aborto. Quando há uma legislação em relação ao aborto, as mulheres são livres para abortar ou não abortar".

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A integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF), Tica Moreno, afirma que se faz necessário articular uma resistência não apenas por causa do processo de impeachment, mas por "uma resistência de médio-longo prazo que seja capaz de frear os retrocessos nos nossos direitos e na economia".

eduardo cunha women

Nalu Faria, coordenadora da Marcha Mundial de Mulheres em São Paulo, afirma que o Brasil vive o momento mais difícil de sua história após o fim da ditadura militar.

"Vivemos hoje uma situação de recomposição da direita e de sua capacidade de empreender uma contra-ofensiva às mudanças (mesmo que tímidas) ocorridas no País nos últimos anos. Chega a ser assustador pois querem empreender um controle total da economia em favor do grande capital e ao mesmo tempo de fazer retroceder avanços sociais, diretos conquistas e, mais do que isso, recompor relações hiperconservadoras de dominação e exploração."

Seguir o conselho de Beauvoir, neste contexto, parece ser o melhor caminho.

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