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‘Vamos para casa, mãe', diz filho de paciente internada 64 anos em hospital psiquiátrico

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IDOSA HOSPITAL PSIQUITRICO
Assis Cavalcante/Prefeitura de Sorocaba
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O ano de 1952 foi bissexto e teve um total de 52 semanas.

Nesse ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou sua primeira reunião na sede permanente, em Nova York. A Esquadrilha da Fumaça se apresentou pela primeira vez.

Paul Stanley (Kiss), Wanderley Luxemburgo, Nelson Piquet e Vladimir Putin vieram ao mundo. A argentina Evita Perón – don’t cry for me Argentina - morreu.

Nesse mesmo 1952, a senhora M., do interior de São Paulo, foi internada em um hospital psiquiátrico pela primeira vez.

Na semana passada, dia 24 de maio de 2016, aos 95 anos, M. finalmente foi para casa, acompanhada de um dos filhos. Ela foi morar com ele em São Paulo. Ele disse “vamos para casa, mãe”.

Depois de 64 anos de internações em diversas instituições de saúde mental, a senhora M. recebeu alta médica e deixou o Hospital Vera Cruz, em Sorocaba, de acordo com a prefeitura da cidade.

O prontuário da senhora M. indica um diagnóstico de deficiência mental. A primeira internação foi no Hospital Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha, de onde só saiu em 2006, quando foi transferida para o Hospital Mental Medicina, em Sorocaba.

Com o fechamento do Mental Medicina, em julho de 2014, a paciente foi transferida para o Vera Cruz.

O filho, que fazia visitas periódicas, mostrou interesse em levar a mãe para casa. Ela havia sido internada quando ele tinha apenas dois anos.

A partir disso, a equipe de desinstitucionalização de Sorocaba entrou em contato com os funcionários da saúde mental municipal de São Paulo para preparar a família e fazer um trabalho de acompanhamento, já que a senhora M. deixaria uma instituição e iria para outra realidade, completamente diferente.

O filho pediu um tempo para acolher a mãe da melhor forma possível e construiu um quarto com banheiro para ela, conta a coordenadora de Saúde Mental de Sorocaba, Mirsa Elisabeth Dellosi.

No dia da liberação, a senhora M. ficou esperando o filho com sua malinha, calada e observando a todos atentamente.

Nestes 64 anos em que a senhora M. ficou internada, o Brasil viveu um regime ditatorial e depois voltou para a democracia. Dezesseis Copas do Mundo foram jogadas.

A televisão ganhou cores. Fitas cassetes e vinis foram trocados por CDs e música digital. O telefone saiu do aparador da sala e foi para os bolsos, além de ter virado um computador e de ter perdido os botões. A Guerra do Vietnã chocou as pessoas, e nem assim elas pararam de fazer guerra. As mulheres ganharam direitos. O apartheid finalmente chegou ao fim. A poluição aumentou drasticamente.

Diante de tantos acontecimentos, fica a impressão de que a senhora M. perdeu muita coisa. Mas não podemos afirmar nada quanto a isso. Sabemos, porém, que ela ganhou cuidados, atenção e, finalmente, o direito de viver em um lar, ao lado da família.

Dellosi, da Saúde Mental de Sorocaba, admira a força da mulher que passou décadas internada. “O que nos chama a atenção são os 95 anos, de resistência, uma reverência que nos emociona em querer viver todo esse tempo”.

idosa hospital psiquiátrico

A conquista da senhora M. reflete os anos de luta que levaram à reforma psiquiátrica brasileira, aprovada em 2001. A partir dela, pessoas com problemas de saúde mental ganharam o direito a um tratamento mais humanizado, e não aquele tratamento que nosso imaginário se recorda, de grades, camisas de força e choques violentos.

A desinstitucionalização representa a oportunidade de se tratar esses pacientes de outras maneiras. Como se trata de uma transição, é importante que espaços humanizados sejam criados para suprir o fechamento de hospitais. Mais importante ainda é que a família, a sociedade e o poder público acompanhem o paciente e invistam na sua recuperação.

A senhora M. foi aguardada com ansiedade pelo filho. Ir para casa, no caso dela, representa a possibilidade de um lar com referências afetivas, onde ela possa ganhar força para se reconstruiu como alguém com identidade, gostos e preferências, e não simplesmente um paciente ou alguém portador de transtornos mentais.

Em fevereiro deste ano, foi a vez de Ana Mendes dos Santos, 61 anos, deixar o Vera Cruz. Ela ficou 38 anos internada em hospitais psiquiátricos. Ela foi morar com os irmãos no povoado Queimada Nova, na Bahia.

Neste ano, um total de 34 pacientes foram liberados para Residências Terapêuticas (RT) ou para casas de familiares. Outras 426 pessoas continuam internadas no Vera Cruz.

Até dezembro deste ano, os pacientes do Vera Cruz deverão deixar a instituição, que terá suas atividades encerradas, e serem tratados em outros locais, como as RTs.

Sorocaba tem hoje 26 RTs e pretende abrir mais 15, segundo a prefeitura.

Seja bem-vinda à sua nova vida, senhora M.

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