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É preciso refletir: Colocar mães na cadeia também pune os filhos

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ME E FILHO
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CHICAGO – Faz dois meses que Malik, de 13 anos, deu o último abraço em sua mãe. Ele teve a rara oportunidade recentemente, mas primeiro teve de ir até o estacionamento de um shopping center no sul de Chicago, andar três horas de ônibus e passar pela segurança da prisão Decatur Correctional Facility no Estado de Illinois.

“O mais difícil é não falar com ela. Ela era uma pessoa muito engraçada”, disse Malik sobre a mãe, Latonya, cujos representantes legais pediram que seu sobrenome não fosse revelado, para proteger a segurança dela. Latonya está presa em Decatur há dois anos.

“Sinto falta de suas piadas, suas risadas”, disse Malik, que vestia uma camisa branca e uma pequena cruz de ouro em sua visita no sábado. “Sinto falta de tudo.”

Malik está entre as mais de 2,7 milhões de crianças americanas que têm um dos pais na prisão, segundo os dados mais recentes da Pew Charitable Trust. Dito de outra maneira: se todos os filhos do país que têm um dos pais preso morassem numa cidade, ela seria a terceira maior dos Estados Unidos.

Apesar de quase 1 em cada 28 crianças americanas ter um dos pais na prisão, os problemas enfrentados por essas famílias separadas permanecem incompreendidos, na melhor das hipóteses, ou ignorados, na pior.

Apesar das percepções sobre os detentos -- especialmente as mães encarceradas --, Malik disse que sua mãe e a maior parte das pessoas em Decatur não são pessoas más.

Mas convencer potenciais empregadores, locadores e políticos do contrário não é tão fácil.

Mesmo o programa que levou Malik -- e várias dezenas de outras de crianças e adolescentes -- para visitar suas mães neste fim de semana tem sido largamente esquecido pelos legisladores durante o impasse do orçamento no Estado de Illinois, que já dura 10 meses.

Manter mães em contato com suas famílias durante o encarceramento é fundamental para reduzir a reincidência e garantir que elas possam ser bem sucedidas e produtivas depois de soltas, segundo com Collete Payne, uma líder comunitária que trabalha para a Cabrini-Verde Legal Aid, instituição que ajudou a organizar a visita.

“Tenho certeza: quando você coloca mulheres na cadeia, as famílias se dividem”, disse Payne. “Toda a comunidade sofre.”

malik e a mãe
Malik, 13, abraça sua mãe, Latonya, pela primeira vez em meses, durante uma visita à Facilidade de Decatur Correctional em Decatur, Illinois.

As taxas de encarceramento de pais é cerca de 10 vezes maior do que a de mães, de acordo com a Pew, mas as mulheres são o segmento da população prisional que mais cresce.

Mães encarceradas também relatam receber menos visitas do que os pais em toda a sua prisão, de acordo com CGLA.

“Quando as mulheres não podem ver seus filhos, não só dói seu espírito, seus filhos são os mais afetados”, disse Payne.

Payne, que já esteve presa em Decatur, observou que as notas de seu filho caíram quando ela estava presa, mas melhorarm quando ele passou a falar com ela regularmente.

Filhos de pais presos enfrentam uma série de dificuldades: pobreza, más notas na escola, problemas de comportamento e depressão, de acordo com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos.

Quando as mães voltam para casa, as crianças nem sempre são capazes de aceitá-las imediatamente.

“Eu sei que parti o coração dos meus filhos várias vezes, então não poderia esperar voltar de repente para a vida deles, dizendo: 'OK, sou a mamãe, vou assumir o controle agora’”, disse Payne. “As mulheres que se reintegram à sociedade enfrentam muita rejeição.”

“Quando você coloca mulheres na cadeia, as famílias se dividem. A comunidade toda sofre", Collete Payne, líder comunitária que trabalha para a Cabrini-Verde Legal Aid.

A rejeição pode se manifestar sob a forma de discriminação para conseguir trabalho ou moradia, além do estigma social. Tudo isso dificulta ainda mais a retomada das obrigações maternas e a reintegração na sociedade.

“Muitas vezes você ouve: ‘Se cometeu um crime, tem de pagar’, mas o mundo precisa saber que mesmo que tenhamos sido presas – o que deveria ser uma forma de reaabilitação – há muitos danos”, disse Payne.

“Então elas voltam para a mesma comunidade, sem recursos, sem apoio, malvistas pelos outros”, acrescentou. “Sem esse apoio, as pessoas vão cair no crime novamente, porque isso é um modo de sobrevivência.”

Apoio de saúde mental, oportunidades de emprego e moradia a preços acessíveis estão entre as questões chaves para as mulheres que saem da prisão.

“Você tem os mesmos desafios que tinha antes de ir para a cadeia – seja algum problema mental, abuso de drogas ou abuso sexual – e, se isso não é abordado quando você está [preso], não pode esperar que eles terão sido corrigidos quando você estiver de volta na comunidade”, disse Payne.

“Se essas questões não são abordadas, como esperar que funcione como um ser humano pleno?”

sheila e família
Sheila Hatchett com a sobrinha-neta e o sobrinho-neto durante uma visita na Decatur Correctional Facility.

Payne disse que ela e outros defensores direitos das detentas pressionam por reformas que permitiriam que as mulheres condenadas por crimes não-violentos cumprissem as penas em suas comunidades, não em prisões distantes – o que significa alto custo para que as famílias se mantenham em contato.

A simples falta de dinheiro para fazer ligações ou visitar uma prisão distante como Decatur é uma das lutas diárias que Sheila Hatchett enfrenta.

Hatchett acompanhou a sobrinha-neta e o sobrinho-neto numa visita recente para a prisão de Decatur. Eles foram visitar a mãe das crianças. Sem o programa, as visitas só acontecem quando o carro de Hatchett está funcionando, muitas vezes ela não tem dinheiro suficiente para a gasolina – a viagem tem mais de 300 quilômetros. Até mesmo um telefonema exige um saldo mínimo de 25 dólares na conta do preso.

Mas o impacto das visitas sobre as crianças é inegável, disse Hatchett.

“A filha [da minha sobrinha] acorda deprimida e chorando – hoje de manhã, ela acordou e pulou da cama.”

kristan e a mãe
Kristan, 2, visita sua mãe pela primeira vez na Decatur Correctional Facility, em Decatur, Illinois.

As crianças que visitam a prisão têm cerca de cinco horas com as mães. Em homenagem ao Dia das Mães, elas puderam entrar na área de recreação da prisão fizeram uma refeição preparada pelas presas.

Kamaya, 5 e Kristan, 2, viram a mãe pela primeira vez na prisão. Kamaya balançou nos braços da mãe, enquanto seu irmão mais novo, normalmente estóico, ficou abraçado com sua mãe.

Na volta para Chicago, Malik estava claramente feliz com a visita.

“Dei um abração e um beijão nela. Estou feliz que pude ver minha mãe. Mal posso esperar para vê-la de novo”, disse Malik. Quando era hora de ir embora, ela deu um pequeno conselho maternal ao filho.

“Ela me disse para manter a cabeça erguida e ser esperto.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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