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Quadrinista Sarah Winifred Searle: 'Sexo é uma progressão natural de uma história maior'

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Quando era criança a palavra "quadrinhos" invocava imagens de super-heróis musculosos — em sua maioria homens — usando trajes ultra-apertados e capas dramáticas, com chutes, socos e os famosos “BOOM! BANG! POW!”, para salvar qualquer mocinha que precisava ser salva. Mesmo na escola primária, isso já não me impressionava.

Nunca passou pela minha cabeça que a linguagem compacta das histórias em quadrinhos pudesse ser usada para contar diferentes tipos de histórias — com menos chutes na parte traseira e, bem, mais ação de outro tipo. Avance agora para o ano 2016 e o panorama dos quadrinhos é outro, mudou completamente.

Graças à nova geração de visionários dos quadrinhos o gênero se expandiu e agora inclui diferentes histórias com variadas perspectivas que não envolvem tantas malditas capas! Graças aos deuses dos quadrinhos. Sarah Winifred Searle, nascida em New England, é uma dessas artistas.

Ela é cartunista, escritora, ilustradora e designer gráfico e trouxe as histórias femininas para um formato gráfico e cativante. Em vez de focar na violência, guerra ou roubo de carros, o trabalho de Searle gira em torno de relacionamentos que são frequentemente, embora nem sempre, românticos.

Além disso, esses relacionamentos são também frequentemente fora da norma pois incluem mulheres queer, negras, sexuais e de diversos tipos de corpo e — vejam só — com emoções complexas e reais.

Por exemplo, um dos quadrinhos recentes de Searle, chamado Sparks conta a história de duas mulheres que se apaixonam em Edwardian, na Inglaterra, enquanto trabalham e assim conquistam a liberdade financeira.

A artista habilmente equilibra o flerte estimulante e um romance emocionante com explorações políticas do início do feminismo e colonialismo do século 20.

Eu entrei em contato com Searle para discutir os detalhes de sua obra, o que ela pensa sobre a condição contemporânea dos quadrinhos e como faz com que suas cenas de sexo sejam tão quentes.

cenas ardemtes
De First, disponível para leitura no Filthy Figments

Você desenha quadrinhos desde a escola primária. O que inicialmente te atraiu para o meio?

Acima de tudo, eu sempre quis contar histórias, mas às vezes sentia que tinha que escolher entre a escrita ou outro tipo de arte para isso. Prosa não era suficientemente visual, mas as fotos que eu desenhava precisavam de mais estrutura para comunicar os épicos que previa. Os quadrinhos eram o formato perfeito pois me permitiu tirar o máximo de proveito dos meus interesses e habilidades.

Como eram seus quadrinhos no início?

No início meus quadrinhos eram bem inspirados no estilo mangá, estilisticamente, e daí eu comecei a auto publicar e vender em uma loja de quadrinhos quando tinha 16.

Quem eram os artistas de histórias em quadrinhos ou tirinhas com quem você cresceu?

Quando eu era criança me lembro de ter acesso limitado a eles até que descobri a grande coleção do meu padrasto, de quando que ele era mais jovem. Meus favoritos eram X-Men, especialmente histórias sobre mutantes mais jovens e Conan, o Bárbaro, porém era mais pelas moças peitudas do que pelo próprio Conan.

Quando Sailor Moon chegou à América do Norte, tudo mudou. Anime era legal, mas mangá me deixou enlouquecida.

Eu nunca tinha lido um quadrinho que parecia feito para mim, sem ser censurado como o anime — tinha uma abordagem diferente sobre a nudez e a sexualidade que parecia ser para adultos.

Daí eu finalmente estava ficando velha o suficiente para descobrir como encontrar mais quadrinhos que atendessem meus interesses, o que aconteceu através de bibliotecários bacanas, amigos hip e uma loja local incrível que vende histórias em quadrinhos.

Havia grande variedade de perspectivas e histórias sendo representadas?

Embora eu tivesse lido muitos livros maravilhosos todos esses anos, eu ainda sentia um vazio ao crescer ao perceber o quão limitado as perspectivas nesse meio eram. Por exemplo, nenhum dos corpos eram tão gordos quanto o meu, pelo menos não os dos heróis.

Os únicos personagens gordos eram caricaturas grotescas, vilãos ou piadas. Ver pessoas como eu sendo tratadas tão negativamente mexeu com o meu subconsciente, tanto que ainda estou trabalhando para desfazer tudo isso hoje em dia.

Hoje, como contadora de história profissional, a representação é algo que tento estar bem consciente. Eu faço o melhor que posso para ouvir e aprender com as pessoas de diferentes origens e experiências do que a minha e uso o que aprendi para melhorar.

Espero que ao criar diferentes tipos de histórias em quadrinhos, com diferentes personagens, eu esteja ajudando a criar um mundo novo onde qualquer um possa encontrar a si mesmo na mídia e oferecer-lhe uma garantia, que vale a pena liderar suas próprias histórias.

um painel de ruined
Um painel de Ruined, uma história recorrente na revista Rosy Press

Quando você embarca em um novo quadrinho, qual é o primeiro passo? Frequentemente começa com uma imagem? Uma ideia? Um enredo?

Pode parecer vago, mas geralmente começo com um sentimento.

A melhor forma de resumir meu trabalho é dizer que ele é inspirado na intimidade de todos os tipos — as conexões entre familiares, amigos, amantes, até estranhos — e eu geralmente começo a história com um objetivo para o tipo de afeto e crescimento que gostaria de retratar. Às vezes eu também tenho algum contexto em mente, tais como lugares ou personagens, mas esses aspectos evoluem bem organicamente quando eu começo a elaborar a imagem total da obra.

Como a palavra e a imagem interagem no seu trabalho? Você diria que suas imagens levam a narrativa ou vice-versa?

Eu não diria que nenhum deles levam, mas em vez disso há um equilíbrio cuidadoso. Meu trabalho é realmente inspirado em ritmo e desenho por shoujo mangá (quadrinhos para meninas), que tende a ter menos painéis e textos por página do que nos quadrinhos Ocidentais.

Expressões faciais, linguagem corporal e momentos de pausa preenchem mais espaço visual, mas ao fazer isso, o diálogo— mesmo que disperso — ganha significante peso narrativo. Por causa disso eu preciso me certificar que fique extremamente bem escrito!

Os quadrinhos saem tão limpos e nítidos no final. Você poderia falar sobre o passo a passo ao criar uma imagem final com essa transparência?

Eu adoro fazer gifs animados do meu processo para mostrar como funciona! Aqui está uma página de Better Than Fiction ("melhor do que ficção”, em livre tradução), uma breve peça autobiográfica feita por mim para o The Secret Loves of Geek Girls ("os amores secretos das garotas geeks").

Passo 1: Escrevo um roteiro dividido em partes que irão em cada painel.

Passo 2: Faço rascunhos em miniaturas bem pequenas e crus de como quero expor na página.

Passo 3: Faço uma versão mais enxuta no computador em tamanho real, um palco chamado “pencils” em quadrinhos, onde eu resolvo o problema com posturas, perspectivas, etc.

Passo 4: Agora é hora da “tinta” onde desenho a linha de arte final em Sketchbook Pro. É o passo mais simples, mas é o que demora mais porque preciso me assegurar que fique perfeito!

Passo 5: E daí eu levo tudo para o Photoshop para colorir, escrever e aperfeiçoar.

Pode-se dizer que você se especializa em quadrinhos eróticos LGBT?

Eu diria que me especializo em quadrinhos sobre relacionamentos, que incluem uma obra bem variada e sem sexo também, mas a erótica LGBT, centrada nas mulheres têm um lugar especial no meu coração

Existem outros artistas trabalhando nesse gênero que te inspiraram?

Nossa, eu me inspiro em tantas pessoas. O que realmente me fez começar a criar minha própria erótica foi a ressurreição de Smut Peddler, de Spike Trotman, uma série de antologias que colecionam histórias de umas das mais fantásticas cartunistas eróticas mulheres.

Destaca ela mesma, Jess Fink, E.K. Weaver, Amanda Lafrenais, Niki Smith, Megan Rose Gedris, e tantas outras artistas legais. Este trabalho é produzido conscientemente separado do olhar masculino, que domina a maior parte do conteúdo sexual e pode ser alienante para muitas pessoas.

Celebra-se diferente tipos de corpos e relacionamentos e sexualidades de formas divertidas, inclusivas e as histórias de fato são frequentemente tão boas quanto as mais indecentes.

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"É claro."

Quando se trata de retratar sexo, quais são as vantagens de trabalhar com quadrinhos? Quais são alguns dos contratempos?

Uma vantagem definitiva é que embora eu possa de alguma forma dar forma ao ritmo, da minha parte, é o leitor quem finalmente o controla.

Diferente do vídeo, que é cortado de acordo com o que o diretor acha que as pessoas querem, o leitor pode folhear as partes menos interessantes e demorar mais nos painéis mais sedutores, pelo tempo que desejarem. No entanto, como em qualquer outro meio, essa forma de vivenciar algo pode não ser a opção de todo mundo.

Quando você cria uma cena de sexo, quais são as principais coisas que passam na sua mente em termos do que está tentando transmitir e comunicar?

Eu tenho a mentalidade de que o sexo mesmo não é o principal motivo dos quadrinhos, pelo contrário, é uma progressão natural de uma história maior. Mesmo que seja uma vinheta onde somente vemos aquele tipo de momento particular entre dois personagens, sempre há formas de construir o contexto e adicionar profundidade.

O sexo oferece oportunidades para o desenvolvimento do personagem e crescimento que são realmente únicos e especiais. Afinal, quando é que os vemos tão vulneráveis desse jeito? E eu quero tirar o máximo de proveito disso.

Esta mentalidade realmente nos ajuda com questões tais como a objetificação. Embora possa ser um mecanismo narrativo interessante, deve ser tratado com muito cuidado e focando nos personagens como indivíduos em vez de corpos colados juntos o que realmente ajuda a evitar com que as partes mais explícitas caiam em um olhar mais impessoal que pode alienar alguns leitores.

um painel de smut peddler 2014

Sinto que grande parte da tensão e da sexualidade em uma cena de sexo vem do equilíbrio entre revelar e esconder. Como você decide o quanto mostra em uma cena de sexo?

Ah, com certeza! Minha abordagem de considerar o sexo como história dita o que eu decido revelar e como faço isso. Pode parecer menos estimulante à primeira vista, mas focar em quanto alguém aperta o cabelo de sua parceira pode dizer muito mais do que um close-up gratuito de seus genitais. Te leva à intensidade do momento.

O engajamento emocional é ardente!

E isso não é definitivamente uma forma de dizer que não sou fã de mostrar de forma livre. Apenas tem um maior impacto na moderação.

Em que você está trabalhando agora?

Sparks é a história de duas mulheres que se conhecem e se apaixonam enquanto trabalham em Edwardian, na Inglaterra, e sua jornada subsequente para independência social e financeira enquanto trabalham para construir uma vida juntas.

Tem sido realmente divertido explorar a sexualidade queer no contexto dessa era, como história nerd, e eu também consigo fazer coisas satisfatórias como a raiva contra o colonialismo e discutir as realizações e limitações do início do feminismo. Atualmente está sendo serializada digitalmente no Filthy Figments e teremos algumas excitantes notícias em breve!

Também estou trabalhando em outros projetos, alguns eu comento no meu website e alguns ainda não foram anunciados.

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(Tradução: Simone Palma)

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