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Judocas vieram ao Rio para fugir da guerra civil no Congo. E vão defender os refugiados nas Olimpíadas

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yolande 2

"Estou esperando sair o meu nome. Não sei... estou tremendo". A judoca congolesa Yolande Bukasa, 28 anos, era ansiedade pura no início da noite de quinta-feira, na última sessão de treinos antes de ser confirmada na equipe especial formada por dez refugiados que vai disputar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

A empreitada é uma mistura de sensações para Bukasa: "Competir nas Olimpíadas é lançar uma mensagem para o mundo. É a vida de todos os atletas. Fica na história, não vou esquecer. Nunca escutei que refugiados disputaram uma Olimpíada", conta a atleta, num misto de ansiedade e confiança.

Já são três anos no Brasil, desde que Bukasa e o conterrâneo Popole Misenga, 23 anos, vieram ao Brasil para disputar o Mundial de Judô e decidiram tentar reconstruir as próprias trajetórias por aqui. A terra natal dos atletas passa por uma sangrenta guerra civil desde que o ditador Joseph Mobutu perdeu força e Laurent Kabila ascendeu ao poder no início dos anos 2000. Kabila acabou assassinado em 2001 e sucedido pelo filho Joseph Kabila. Trocou-se o poder de mãos, mas segue um intenso regime autoritário. Os números são aterrorizantes: Organizações ligadas às Nações Unidas estimam mais de 5,4 milhões de mortos em decorrência do conflito.

popole

Buscar refúgio era mais do que uma opção. Na visão de Bukasa, era uma necessidade: "Minha família está me olhando na internet. Estou aqui para melhorar minha vida, mudar minha vida, não para ficar com estresse na cabeça. Quero procurar minha família. Tenho muita saudade, quero eles aqui comigo", conta Yolande.

"Não pode parar a ambição. Todo mundo tem algo para aprender e fazer no futuro. Não pode achar que por ser refugiado, você para.

Para alcançarem o status de atletas olímpicos, os dois congoleses precisaram suar muito na Cidade Maravilhosa. Trabalho braçal foi só o que encontraram. E o cenário de desamparo com o qual se depararam inicialmente.

"Passei muito sofrimento. Dormia na rua, ficava com fome, não sabia falar. Até que um dia me ajudaram, me disseram que tinham outros africanos por aqui. Foram dois anos de sofrimento, dormindo na casa das pessoas, em condição difícil", lembra a judoca.

Duas semanas atrás, a sorte parece ter começado a sorrir também fora dos tatames: "Tenho muita confiança em mim. Deus vai mudar minha vida", conta ela, que passou a dividir um alojamento no bairro de Bonsucesso, zona norte do Rio de Janeiro, com outro refugiado do Congo. "Quero esquecer o sofrimento um pouco, ficar com a cabeça livre".

judocas aula

O reinício para ambos veio com a chance de pegar firme nos treinos após serem acolhidos pelo Instituto Reação, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, em abril do ano passado. Desde então eles recebem lá atenção especial do sensei Geraldo Bernardes, 73 anos, um dos principais judocas da história no Brasil, com quatro Olimpíadas no currículo e medalhas de vários atletas treinados por ele. Na unidade da universidade Estácio, os dois têm tido a chance de aprender português e continuar os estudos.

"Não pode parar a ambição. Todo mundo tem algo para aprender e fazer no futuro. Não pode achar que, por ser refugiado, você para. Não aprendi judô no Brasil. Aprendi na África", lembra Bukasa. Em linha parecida vai o companheiro de equipe Popole: "Tem de fazer muitos eventos esportivos, como fez o Comitê Olímpico. É para copiar mesmo para tentar salvar as pessoas e sentir o que os refugiados sentem", pontua.

A chance de competir no tatame olímpico é um enorme passo para os atletas congoleses, mas algo ainda está incompleto no coração deles. "As famílias dos atletas vão ficar perto deles. Cadê a minha? Vou passar um pouco da energia da minha família e lutar com a força natural de Deus", arrisca Bukasa.

Na mesma linha segue Popole: "Amo todos da minha família. Estou aqui há três anos, estou tentando viver para tentar ajudar eles. Estou tentando pegar essa chance para tentar ajudá-los. Se me pedirem para mandar R$ 400, vou mandar. Querem US$ 100, US$ 50? Eu vou mandar", afirma.

Antes de voltar para o último treino antes de ser confirmado com a honraria de judoca olímpico refugiado, Popole solta a frase com o peso de um ippon: "Estou calmo, concentrado. Vou voltar a sorrir". Quem é capaz de duvidar?

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