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'A licença-maternidade é curta perto do talento da profissional', diz Joanna Monteiro, CCO da FCB Brasil

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JOANNA MONTEIRO
Raquel Espírito Santo
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Formada em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília, Joanna Monteiro, 45 anos, se guiou pela paixão para tomar suas decisões profissionais e acabou embarcando na carreira publicitária. "Eu sempre quis ser feliz no trabalho porque é um lugar onde a gente passa tempo demais", conta.

Atualmente, a Chief Creative Officer (CCO) da agência de publicidade FCB Brasil se considera uma pessoa de sorte a por ter tido seu crescimento profissional em casas renomadas do setor, como a DPZ&T, a W/Brasil e a Africa. "Não trabalhei em vários lugares, mas passei por locais em que tive a oportunidade de aprender com gente muito bacana", compartilha.

Ela conta que, durante sua trajetória, presenciou diversas situações de machismo, mas que nunca deixou que isso a atrapalhasse. "Talvez se alguém tenha tentado me parar e eu não tenha sequer visto, porque eu estava fazendo o meu melhor e correndo atrás do que eu queria", comenta.

Você sempre almejou chegar em um cargo alto?

Sempre quis ser feliz no trabalho porque é um lugar onde a gente passa tempo demais. Nunca me imaginei fazendo algo que não fosse com paixão. Como encontrei a carreira certa para mim, as coisas foram acontecendo.

Ao longo dessa trajetória, sentiu resistência por parte dos homens?

Comecei a trabalhar em uma época em que todos os cortes de funcionários eram femininos, porque existia a ideia de que o homem sustentava a família. Como se algumas mulheres não sustentassem e não vivessem sozinhas então. E também já vivi situações constrangedoras como, por exemplo, ser a única mulher na sala de reunião e me pedirem para ir conferir com a secretária o que ia ter de almoço. Atualmente, acho que melhorou. Hoje, quando alguém toma uma atitude dessas é criticado e acaba se desculpando.

Essas coisas atrapalharam seu crescimento profissional?

Isso nunca me pautou. Minha mãe sempre fez o que quis: saiu do país para fazer doutorado, depois veio para São Paulo fazer pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP), enquanto meu pai ficou em Brasília com as duas filhas. Como ela nunca deixou de fazer nada por ser mulher, eu e minha irmã também nunca achamos que nosso gênero nos limitava. Talvez eu não tenha nem visto se alguém tentou me deter. Estava fazendo o meu melhor e correndo atrás do que eu queria.

Para você, o preconceito afeta a carreira de outras mulheres?

As piores coisas que acontecem com as mulheres são veladas. Quando alguém te agride fisicamente, você tem certeza disso. No entanto, se você é mandada embora logo depois de ter dito não ao assédio de um homem em posição superior, você nunca tem certeza se aquilo foi uma repreensão ou se essa demissão já estava planejada. Por isso, acho que o grande negócio é encontrar o lugar em que as pessoas comungam das mesmas crenças que você, porque é onde você ser mais feliz e bem sucedida.

Você sente alguma mudança no mercado de trabalho atual em relação às mulheres?

Dentro da publicidade, por exemplo, o caráter do trabalho de uns 15 anos atrás era muito ruim. Você tinha que ficar até muito tarde, a competitividade fazia você trabalhar todo final de semana, e isso acabou afastando as mulheres. Isso agora mudou. Tanto homens quanto mulheres querem passar os finais de semana com a família. O que é valorizado agora é o resultado do trabalho, não o tempo que você passa no escritório. Além disso, é preciso ter um ambiente que seja interessante para a diversidade, pois senão perderá talentos que fazem a diferença no negócio. No fim, um profissional que tem tempo para ler, ter novas experiências, viajar e não fica esgotado com trabalho acaba dando melhores resultados.

Ações como a licença-maternidade contribuem para esse ambiente melhor?

As empresas precisam dar apoio à profissional. O tempo da licença-maternidade é curto se você pensar na importância de ter uma pessoa talentosa por um longo tempo dentro da sua empresa. O que são seis meses? Passam voando! E depois você tem uma pessoa mais feliz, mais comprometida, mais grata e rica emocionalmente. E eu não estou falando só das mães, mas também dos pais. Esse nova lei da licença-paternidade é extremamente positiva.

Você nota alguma característica diferente entre seus líderes homens e mulheres?

Os homens são muito bons em impor limites e as mulheres nem tanto. Quando elas fazem isso, são mais respeitadas. Como as mulheres ainda sentem a necessidade de se provar, acabam sendo mais permissivas e, por isso, mais exploradas no trabalho. Por outro lado, vejo que, desde pequenas, aprendemos a gerenciar uma série de coisas e a delegar funções, então somos ótimas gestoras. Em um mundo em que as empresas são cada vez mais coletivas e que as pessoas se falam cada vez mais, esse traço ajuda as mulheres a se destacarem.

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