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Mesmo com o machismo, escritoras de ficção científica seguem destruindo barreiras

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Recentemente, as mulheres simplesmente arrebentaram no prêmio Nebula, um dos principais de ficção científica e fantasia. Elas venceram nas principais categorias:

  • Melhor romance: Uprooted, de Naomi Novik;
  • Melhor novela: Binti, de Nnedi Okorafor;
  • Melhor noveleta: Our Lady of the Open Road, de Sarah Pinsker (publicada na revista Asimov's Science Fiction, em junho de 2015);
  • Melhor conto: Hungry Daughters of Starving Mothers, de Alyssa Wong (publicada na Nightmare Magazine, em outubro de 2015);
  • Prêmio Andre Norton para Ficção Científica e Fantasia para Jovens Adultos: Updraft, de Fran Wilde.

A notícia pode parecer surpreendente para um grupo tempestuoso de escritores e fãs de ficção científica que assumiram a causa de deixar o gênero com quem estava antes: aventuras despreocupadas e elegantes, rápidas e divertidas, e — obviamente — escrita por autores brancos.

A plataforma ostensiva do Sad and Rabid Puppies, cujo nome foi criado como forma de burlar o liberalismo sincero, foi criada para apoiar histórias de ação sem mensagens políticas ou lição de moral. E o custo disso? No último ano, eles prepararam a votação para um prêmio parecido, o Hugo, para favorecer autores brancos e a repressão de escritoras e autores negros. Diferentemente do Nebula — votadas pela organização Science Fiction and Fantasy Writers of America — os Hugos são controlados pelos leitores, então os Puppies podem deixar sua marca.

Eles não tiveram muito sucesso. As categorias com seus próprios nominados receberam “No Award” (“Nenhum Prêmio”) devido a rejeição dos eleitores que rejeitaram os nominados brancos. Mas para os escritores cujos livros foram injustamente negligenciados, o dano foi feito.

Este ano, a conversa é gritante, especialmente por estar centrada na nas indicadas mulheres da Nebula. Nnedi Okorafor, que ganhou com sua novela Binti, uma história interestelar sobre uma garota que deixa a sua comunidade para participar da prestigiosa Universidade de Oomza, do outro lado do mundo, diz que está agradecida que esses preconceitos na indústria estão sendo discutidos.

Em uma entrevista ao Huffington Post, Okorafor disse, “Sinceramente, eu adoro quando as pessoas argumentam abertamente, sem se esconder em seus próprios aposentos. É isso que eu quero ver: diálogo”.

"As questões relacionadas aos Hugos são meramente manifestações das dores do crescimento que este país está vivendo como um todo. As dores do crescimento são dolorosas, esquisitas, irritantes, às vezes destrutivas para poder criar."
- Nnedi Okorafor, autora de Binti

“As questões relacionadas aos Hugos são meramente manifestações das dores do crescimento que este país está vivendo como um todo”, disse. “As dores do crescimento são dolorosas, esquisitas, irritantes, às vezes, destrutivas para poder criar. O que eu espero seja o resultado do Hugos é essa abertura, abordagem, debate e seguir em frente.”

Naomi Novik, que levou para casa o prêmio Nebula 2016 por sua novela Uprooted, um livro de ficção fantástica sobre uma garota levada de sua querida comunidade por um dragão aparentemente inofensivo, sente-se diferente. Para ela, a retórica do Sad Puppies tem sido manipulativa e nociva, sem mostrar um reflexo real dos fãs.

“Com prazer proclamo meu desdém por isso em voz alta”, disse Novik ao HuffPost. “O que eu realmente espero seja resultado do Hugo Awards deste ano é que as regras sejam alteradas. [Os Puppies] precisam realmente sumir”.

As duas mulheres concordam que ideais preconceituosas têm sido historicamente nocivas para mulheres e escritores negros no gênero, que tiveram reconhecimento na sua época, mas amplamente esquecidas pela história. A ficção especulativa de suspense de Kate Wilhelm ganhou vários Nebulas e um Hugo; Vonda N. McIntyre, cuja antiga fixação pela franquia Star Trek originou sua fama, ganhou os dois prêmios também. Embora nenhuma delas seja discutida próximo a Orson Scott Card ou William Gibson.

“Você constantemente vê artigos sobre, ‘Mulheres que de repente fazem parte da ficção científica e fantástica!’, mas nós sempre estivemos lá”, disse Novik. “É um preconceito meio que insidioso. Não é uma coisa imediata. É cada vez mais comum não vermos o preconceito aberto, apesar do Puppies. É algo inconsciente, onde listam, digamos, os 10 maiores escritores de ficção científica, de todos os tempos e não sei como a lista acaba sem mulheres. Estas coisas são reproduzidas, regurgitadas”.

Ursula K. Le Guin, que ganhou seu primeiro Nebula em 1970, expressou preocupação com seu próprio legado, em uma entrevista ao HuffPost no ano passado. “É apenas uma preocupação geral, sobre todas as mulheres escritoras, inclusive comigo mesma”, disse. “Nós vivemos bem felizes, levando nossa vida e, daí, de repente, nos vemos tendo que ser desenterradas por feministas daqui a 50 anos.”

Se mulheres escritoras estão pouco representadas no gênero de ficção científica e fantástica, as protagonistas que são escritas também, fazendo com que seja difícil para leitoras jovens e negras se encontrarem nos livros que leem. Okorafor, por exemplo, disse que não lia muito ficção científica até descobrir Octavia Butler em 2000.

“Descobri que grande parte da ficção científica é inacessível e branca e masculina demais de forma que claramente outros tipos de pessoas não existem, ou quando existem, existem somente em relação aos personagens masculinos e brancos da narrativa”, disse Okorafor.

Novik não cresceu lendo ciência ficção centrada nas histórias de homens e mulheres, mas frequentemente se viu decepcionada pela proliferação da ideia que mulheres protagonistas devem seguir um certo modelo masculino para o sucesso. Ela cita Lara Croft que como heroína ela descobre, pois, o heroico — com uma esperteza e poder parecido a Indiana Jones é inspirador — mas ela espera que outras narrativas, talvez mais femininas, possam ganhar atenção, também.

"Eu queria uma heroína que estivesse disposta a arriscar sua vida, não pela vingança ou parar ganhar poder, nem necessariamente para destruir alguém para proteger sua comunidade. A vingança é um motivo bem frio e triste."
- Naomi Novik, autora de Uprooted

“Existe um tipo de distância forçada em mim pelo fato que ela é tão sexualizada e seu heroísmo é um tipo de heroísmo masculino”, disse Novik. “Existem vários personagens desse tipo; eu estou bem satisfeita com esses personagens. Eu quero Lara Croft, eu quero Mulher Maravilha, eu quero Honor Harrington. Eu já escrevi esses tipos de personagens.

Mulheres bem-sucedidas em termos masculinos em um ambiente dominado por homens — acho que é heroico. Ao mesmo tempo, não posso evitar pensar que esse seja o único modelo de heroísmo que deve existir”.

Novik viu Uprooted como oportunidade para oferecer uma narrativa alternativa, uma que é menos envolvida com heroísmo violento e vingativo. No seu livro, a protagonista Agnieszka tem orgulho de sua herança e fazer parte de uma vila quieta e idílica que ela pensa que vale preservar. Ao contrário de Luke Skywalker, Batman, ou, mais recentemente o ator Rey de “Guerra nas Estrelas”, ela não luta por uma família ou cidade perdida; em vez disso, sua jornada é cheia de grandes ideais.

“De certa forma, creio que Batman se tornou a única história contada. Todo mundo perde alguém que ama para ter motivação, lutar e se arriscar. Obviamente isso não é verdade”, disse Novik. “Eu queria uma heroína disposta a arriscar sua vida, não pela vingança, ganhar poder ou necessariamente acabar com alguém, mas para proteger a comunidade. A vingança é um motivo bem triste e frio”.

Fora as razões políticas e artísticas para defender sua representação no mundo da ficção científica e fantástica, as duas Novik e Okorafor disseram que valorizam a diversidade por razões mais egoístas: faz com que as histórias sejam mais realísticas, e para os leitores, é isso que mais importa.

“Eu realmente quero sair da minha experiência”, disse Novik. “Essa é uma grande parte do entusiasmo da ficção especulativa. Quando você multiplica as vozes na nossa comunidade e os tipos de histórias ditas em nossa comunidade, você tira mais disso, e você fica melhor, com mais universos inéditos.”

Okorafor disse: “Eu amo, amo, amo histórias e para curtir uma história, preciso acreditar na história, não importa o tema. Se a história é sobre nosso mundo ou reflete nosso mundo, bem, nosso mundo é diverso”.

Se a ficção mágica e imersiva e a literatura fantástica requerem a base da plausibilidade para que seja acreditável e curtida pelos leitores, também deve ir um passo além e imaginar o futuro ou realidades alternativas que são sombrias e ambiciosas. Essas histórias podem servir de contos, como visto no subgênero ainda explosivo de ficção distópica, ou mundos a serem trabalhados, mundos que melhoram os problemas vigentes em nosso próprio, seja tecnológica ou socialmente.

“A ficção científica é especulativa, imagina e frequentemente cria”, disse Okorafor. “Considere nossa tecnologia. Muitas dessas ideias germinaram primeiro nas histórias de ficção científica. Considere o que significa ter a ficção cientifica que especula sobre a diversidade de pessoas, tradições, culturas, sociedades, etc. As histórias serão mais ricas, como serão as ideias. Todos se beneficiam”.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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