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Nicole Kidman abre o jogo sobre a maternidade: É impossível ser perfeita

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NICOLE KIDMAN
Kidman no Festival de Berlim | HANNIBAL HANSCHKE / REUTERS
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Nicole Kidman gosta de se descrever como alguém que anda em uma corda bamba.

Sendo uma atriz com seu nome creditado em mais 70 filmes, ao longo de uma carreira de 30 anos, a imagem de Kidman tentando se equilibrar na corda bamba de Hollywood é difícil de conciliar com sua duradoura fama.

Mas essa mentalidade baseada na própria intuição e experiência é exatamente o que atraiu a atriz, vencedora de um Oscar, para o filme The Family Fang, um retrato não convencional de uma família unida pela disfunção e pelos efeitos prejudiciais de um legado artístico.

“Não tenho a menor ideia do que está à frente, do que vou fazer em seguida, de como vou fazer ou para onde estou indo”, Kidman disse ao Huffington Post em uma entrevista recente. “Eu tento ter aquela abordagem bem laissez-faire, embora [o trabalho] escave as profundezas de onde estou como mãe e como mulher.”

Em The Family Fang, Kidman mais uma vez mergulhou nessas profundezas com uma performance melhor descrita por aquilo que não é: afetada, melosa ou exagerada.

Com roteiro adaptado do romance de comédia de Kevin Wilson e dirigido por Jason Bateman, o longa examina como as decisões tomadas pelos pais podem reverberar através das identidades das crianças.

Usados como suporte nas performances experimentais artísticas dos pais nos anos 70, Annie (Kidman) e Baxter (Bateman) ainda estão tentando superar o choque do trauma de infância.

Seus pais Caleb (Christopher Walken) e Camille Fang (Maryann Plunkett) privilegiaram a visão artística em detrimento da criação dos filhos, proporcionando a Annie e Baxter (chamados de Criança A e Criança B) uma apreciação profunda pela arte e, ao mesmo tempo, uma inabalável melancolia.

Quando a unidade familiar é inesperadamente remontada, os filhos são atraídos de volta para a teia dos pais. Mas, assim que os pais reemergem, desaparecem abruptamente sob circunstâncias misteriosas, deixando Annie e Baxter sem saber se os dois se foram para sempre ou se são os mandantes do espetáculo final.

Para Kidman, o papel se identifica com seu lar de muitas maneiras. Annie é uma atriz por volta de seus 40 anos, à procura de seu novo papel, enquanto navega pelas dificuldades de conduzir a vida sob o olhar do público.

Apesar de seu sucesso em filmes B, ela ainda busca a aprovação dos pais, preenchendo o vazio com furtos, sexo inapropriado e dirigindo embriagada.

A primeira cena de Kidman mostra Annie negociando a necessidade de uma cena gratuita de nudez para, em seguida, entrar pisando duro no set, de topless, com o objetivo de “controlar” o momento.

Nas complexidades de sua personagem, Kidman encontra um ponto de ressonância, articulando como, sendo atriz, o deslocamento da identidade pode ser essencial para habitar um papel.

“[Annie] não sabe muito bem o que deveria estar fazendo ou quem ela é”, disse Kidman. “Essa é a situação de uma atriz em boa parte do tempo, porque você se move tão rapidamente dentro de outras psiques e outros lugares que muito de sua própria vida real tem de ser dedicada a buscar o senso de si próprio.”

Traçando paralelos com sua experiência no ramo, Kidman sente empatia pelas frustrações da personagem, mas vê diferenças em relação à sua própria trajetória.

“Tenho sorte no sentido de que sou bem inflexível em termos do que quero fazer agora nesta fase da minha vida”, disse.

“Não estava com 20 anos [quando pensava diferente], mas agora tenho uma clara ideia de onde quero gastar meu tempo... Quando você está solteira e está correndo ao redor do mundo, há uma certa superficialidade. Quando você está criando seus filhos, particularmente como mulher, onde você gasta seu tempo é incrivelmente importante.”

Kidman está casada há quase uma década com o cantor de música country Keith Urban, com o qual ela tem as meninas duas meninas, Sunday Rose e Faith Margaret. A atriz também adotou dois filhos com o ex-marido Tom Cruise.

As filhas de Kidman e Urban viajam com eles para quase todos os lugares, disse, e, durante nossa conversa por telefone, Kidman deixou escapar que as filhas, de 5 e 7 anos, estavam bem ao lado dela.

kidman e urban
Kidman e Urban no baile de gala do MET de 2016

Educar os filhos, no entanto, não está isento de desafios, como fica claro no dano irreparável refletido no personagem de Kidman em The Family Fang.

Em uma fala do filme, o personagem de Walken, com naturalidade, informa sua prole que os problemas deles de infância não têm nada de extraordinário. “Vocês acham que estragamos vocês?”, ele pergunta. “E daí!? É isso o que os pais fazem.”

Kidman disse que, de certa forma, consegue sentir empatia pelo patriarca intransigente, explicando que a criação dos filhos não é uma ciência perfeita, tendo agora vivenciado a experiência tanto da perspectiva de filha quanto de mãe.

“Não acho que existam muitas pessoas no mundo que digam: ‘A maneira pela qual criei meus filhos foi perfeita’. “Nesse sentido, estamos todos no mesmo barco”, disse.

“No caso da minha própria família... Houve vezes em que tive de enfrentar meus pais para formar minhas próprias crenças. Eles certamente não estiveram sempre completamente sincronizados e ainda não estão às vezes, mas isso é saudável.”

Mas, em última análise, somos moldados por nossos pais. Tanto Annie quanto Baxter acabam seguindo a carreira artística, ironicamente preenchida pela origem de suas dificuldades.

Embora no final do filme a dupla se liberte da influência dos pais profundamente arraigada, o estrago já foi feito. Kidman também admite que, em sua vida, as relações que ela compartilha com a família são as que mais importam.

“Meu propósito no sentido de direitos das mulheres é muito ligado à minha mãe, a feminista, por isso minha identidade é muito conectada a ela”, disse Kidman.

“Sinto que agora me defino muito pelo meu relacionamento com meus filhos e com meu esposo, e isso tem me dado um senso muito forte de quem sou e do que quero.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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