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'Leitor, casei-me com ele': A razão não feminista pela qual gostamos de Charlotte Brontë

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Uma verdade universalmente reconhecida é que a única linha de texto de um romance inglês que é reproduzida e adaptada com mais frequência que a sentença que abre Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, é o triunfal clímax de Jane Eyre, de Charlotte Brontë: “Leitor, casei-me com ele”.

Bem, “universalmente reconhecida” talvez seja um pouco excessivo, mas acho que todos podemos convir que a frase de Brontë tem grandes chances de aparecer em adaptações modernas do clássico original, em ensaios irreverentes e também em lugares literários menos tradicionais: legendas no Instagram, anúncios de noivado no Facebook, papel de carta adorável, intermináveis blogs sobre casamentos...

Este ano, em que se comemora o bicentenário do nascimento de Charlotte Brontë, está saindo uma coletânea de contos editada por Tracy Chevalier e intitulada Reader, I Married Him (HarperCollins).

Escritos por autoras de renome como Lionel Shriver*, Nadifa Mohamed e a própria Tracy Chevalier, todos seriam inspirados em Jane Eyre, se bem que alguns revelem essa inspiração mais claramente que outros.

"Leitor, casei-me com ele" não aparece em todos os contos, mas algumas variações da frase estão presentes em vários deles.

Se você curte novas versões dos livros das irmãs Brontë (ou pelo menos dos de Charlotte), deve estar acostumada a encontrar essa frase com mais frequência do que parece necessário, como uma folha de louro literária que poderia ter sido tirada do prato depois de pronto, mas em vez disso parece estar oculta em cada colherada.

Alguns outros lançamentos dos últimos 12 meses inspirados em Jane Eyre: Jane Steele, de Lyndsay Faye, thriller sobre um contemporâneo e fã do romance original que não consegue parar de matar pessoas;

The Madwoman Upstairs, de Catherine Lowell, uma modernização sentimental sobre a suposta última parente viva de Brontë, que encara um mistério literário e um romance com seu tutor indiferente, e Re Jane, de Patricia Park, uma adaptação ambientada na Nova York contemporânea, em que a política racial e de gênero do original recebem uma atualização muito necessária.

Cada um desses livros tem sua versão própria, às vezes gasta ou desagradavelmente sentimental, daquela frase singular, a saber: "Leitor, eu o matei", "Leitor, casei-me com ele" e "Leitor, eu o deixei".

Em sua introdução a Reader, I Married Him, Chevalier analisa as razões por que essa frase simples é dotada de uma força tão duradoura, destacando-se de todas as outras sentenças simples e barrocas da obra de Charlotte:

"'Leitor, casei-me com ele' é a conclusão desafiadora com que Jane encerra sua história, uma verdadeira montanha-russa. Não é 'Leitor, ele se casou comigo', como seria previsível numa sociedade vitoriana em que se esperava que as mulheres fossem passivas; nem sequer é 'Leitor, nós nos casamos'".

Em vez disso, Jane se afirma; ela própria é a força principal de sua narrativa.

Mas já avançamos muitíssimo desde os tempos vitorianos. O simples fato de assumir uma voz ativa no anúncio de seu casamento já deixou de ser indício de uma rebelião de poder feminino.

Na realidade, hoje, em 2016, a ênfase orgulhosa que a frase atribui ao casamento parece remeter aos tempos anteriores ao feminismo. "Leitor, casei-me com ele" pode ser a maneira mais convencional possível de uma mulher moderna anunciar a realização mais importante de sua vida: se casar.

Uma amiga de viés especialmente literário me disse certa vez, com satisfação, que tinha decidido qual frase romântica, mas digna, usar no Facebook para anunciar o casamento com seu namorado de longa data: sim, "Leitor, casei-me com ele". Isso mesmo.

Não surpreende que a frase seja tentadora para mulheres modernas que ainda anseiam pelo conforto e a segurança do casamento, e não apenas porque o pedigree da frase é irrepreensível. Não há ironia à moda de Jane Austen para macular uma união que foi contraída com alegria, mas a frase tampouco é melosa ou sentimental.

Ela é simples, não bombástica, mas encerra um tom triunfal sutil. Jane Eyre e as muitas mulheres que a ecoam pigarreiam virtualmente para garantir que as pessoas em volta estejam prestando atenção e então anunciam: "Leitor, casei-me com ele".

sr rochester e jane eyre
Sr. Rochester e Jane Eyre. A legenda diz: “Você está feliz, Jane?” Ilustração de Edmund Henry Garrett

A popularidade duradoura da frase, que ultrapassou em muito o tempo em que o fato de uma mulher utilizar voz ativa em lugar de passiva para falar de seu casamento pudesse ser visto como revolucionário, sugere que há outro elemento em jogo aqui, algo que não se limita a combater o patriarcado.

Hoje, em 2016, 200 anos após o nascimento de Charlotte Brontë, as mulheres podem votar, possuir seus próprios bens, ter carreira profissional importante e até mesmo ter filhos sem envolvimento masculino direto, se quiserem.

Mas a afirmação discretamente congratulatória da realização conjugal ainda persiste. Hoje ela se lê mais como uma reafirmação do casamento como uma forma importante, não a mais importante, de realização pessoal feminina; uma forma padronizada de dizer “preste atenção por um instante e veja: eu me casei com um homem. Verdade!”

Brontë não poderia ter previsto, mas o modo como escreveu sua frase, dirigindo-se diretamente ao leitor, nunca foi mais apta que agora, mais de um século e meio depois de escrita.

Hoje não é apenas a narradora de um romance escrito na primeira pessoa, como “Jane Eyre”, que espera ter uma plateia grande e indiscriminada que acompanhe sua história: todos nós o esperamos.

Cada foto no Instagram, cada tuíte e cada post no Facebook parte da premissa de que este momento de nossa vida – quer seja o anúncio de um noivado ou uma foto de uma mesa de brunch cheia de panquecas – vai despertar o interesse de uma multidão sem rosto, convertendo-se numa espécie de miniautobiografia nossa.

Não existe frase mais adequada à era das redes sociais que a levemente jactanciosa mas também humilde “Leitor, casei-me com ele”.

Será que Charlotte se reviraria na cova diante da utilização constante de sua frase mais popular para anunciar casamentos e Pinterests sobre noivas? Talvez não.

Com base no que sabemos sobre as dificuldades românticas dela e como elas se refletiram em sua ficção, dá para imaginar que a sensação de justificativa pessoal e de vitória conquistada a duras penas que a frase exala não é fruto do acaso.

Em 1842 Charlotte Brontë viajou para Bruxelas com sua irmã Emily, onde elas estudaram e lecionaram numa escola interna dirigida por Constantin Héger e sua mulher.

Quando ela voltou para a Inglaterra permanentemente, em 1844, estava apaixonada por Héger e lhe escreveu várias cartas cheias de anseios e dores de amor. Parece que o professor casado a tratara como par intelectual, mas as atenções mais românticas de Charlotte não deram em nada.

Os estudiosos das irmãs Brontë acham que Héger simplesmente parou de responder às cartas cada vez mais desesperadas de Charlotte.

Se essa história soa familiar, talvez seja porque você leu “Villette”, o romance de 1853 de Charlotte sobre uma governanta britânica que, se não é feia, tampouco é bela, que se apaixona por um professor belga numa escola interna em Bruxelas. Ou Jane Eyre, é claro. Em Jane Eyre, o herói romântico também é companheiro intelectual da heroína.

Quando implora que ela se case com ele, Rochester insiste: “Minha noiva está aqui... porque minha igual está aqui, e minha imagem”. Porém, como Héger, Rochester já é casado. No romance, Brontë trabalha a narrativa de modo a fazer a heroína assumir a posição de força: ela rejeita tornar-se sua amante, considerando isso como algo indigno dela, e retorna para se casar com ele depois que ele se torna viúvo.

A própria Charlotte Brontë nem conseguiu convencer o homem que se especulou ter sido o amor de sua vida a responder a uma carta sua; para ela, não pode ter havido clímax emocional mais significativo que “Leitor, casei-me com ele”.

Jane Eyre é um clássico da literatura; com frequência é mais apreciado por leitores jovens do que o são outros livros antigos, porque está repleto dos desejos determinados de Charlotte Brontë.

É uma narrativa direta de desejos que se realizam, uma história em que nem mesmo todos os obstáculos que se interpõem no caminho da heroína, uma garota feinha mas muito inteligente, como a própria autora, conseguem impedi-la de encontrar sua felicidade no final.

Parece que Charlotte Brontê ansiou por essa realização romântica em sua própria vida, mas não a encontrou. Mas “leitor, casei-me com ele” ainda assim é o paradigma de seus desejos socialmente codificados mais fundamentais, e também dos nossos: ser desejada, ser boa o suficiente, ter um companheiro, ser esposa.

Não é o momento mais feminista de Jane Eyre, mas é o momento ao qual nos apegamos. Apesar de tudo o que mudou em 200 anos, parece que algumas coisas ainda persistem.

*Lionel Shriver é mulher, apesar do nome.

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