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Na busca por sobrevivência, como ficam as emoções dos refugiados?

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REFUGEE EMOTIONS
Refugiada síria aguarda trem em Munique, na Alemanha | Michaela Rehle / Reuters
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Em um dia qualquer, sua rotina mais uma vez comparece: acorda, sai da cama quente, toma banho, se veste, toma o café da manhã, escova os dentes, vai para o trabalho (ou o estudo), volta para casa, janta ou faz um lanche, se dedica aos seus hobbies, escova os dentes, vai dormir.

Nessas 24 horas, as pessoas de seu país circulam mais ou menos conforme o esperado. Uma notícia ou outra afeta o andamento do dia mas, no geral, uma grande massa de pessoas se desloca diariamente, indo e voltando de seus lares.
Um ou outro atrito aqui, outro estresse ali, uma comemoração, um fato que passa batido porque simplesmente não importa. E lá se vai mais uma segunda, ou terça, ou quarta, ou quinta, ou sexta-feira.

Então, em um determinado dia, sua vida é brutalmente chacoalhada, por bombas ou por perseguição política: seu lar, sua língua, sua cultura, seus costumes, sua rotina, seus relacionamentos precisam, na velocidade da urgência, serem deixados para trás por uma questão de sobrevivência.

Quando a impossibilidade de pertencer ao próprio país se impõe e deixa como única escolha de vida a mudança para um outro, possivelmente nasce um refugiado. E esse nascimento forçado implica sofrimento e luto, por diferentes motivos.

Por definição, um refugiado é alguém que “temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país”.

Na realidade contemporânea, são milhares as pessoas nesta situação. Uma em cada 122 pessoas é forçada a deixar seu lar por causa de conflito, perseguição ou violência, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

O Brasil acolhe atualmente 8.863 refugiados reconhecidos, vindos de 79 países, de acordo com o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). A maioria deles vem da Síria (2.298), Angola (1.420), Colômbia (1.100), República Democrática do Congo (968) e Palestina (376).

Trauma

Na luta pela sobrevivência, é de se esperar que as emoções dos refugiados sofram um grande abalo. “Além de [o refugiado] não ter planejado sua partida, também não planejou sua transição entre o país de origem e o de acolhida, além de não ter se projetado nesse novo lugar”, destaca a doutora em psicologia Lucienne Martins-Borges no artigo Migração involuntária como fator de risco à saúde mental.

Em emergências humanitárias, adultos, adolescentes e crianças são, frequentemente, expostos a eventos potencialmente traumáticos, segundo o Guia de Intervenção Humanitária do Programa de Ação Mundial em Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Acnur. Tais eventos são o gatilho para uma série de reações emocionais, cognitivas, comportamentais e somáticas, destaca o relatório de 2016 do Instituto de Reintegração do Refugiado – Brasil (Adus).

A experiência negativa que é a fuga do país de origem não significa que os refugiados necessariamente desenvolverão uma depressão ou um transtorno de estresse pós-traumático. “Apenas parte dos refugiados pode apresentar alguma desordem mais grave que afeta sua saúde mental e, assim, sua vida cotidiana”, pondera o relatório da Adus Brasil.

A condição de refugiado e as dificuldades relacionadas ao novo lar têm efeitos muito particulares sobre cada pessoa, o que deixa evidente que as questões subjetivas de cada refugiado não podem ser ignoradas. Mais do que isso, elas precisam ser entrelaçadas à nova história que cada um vai construir aqui, levando em consideração que o novo país é palco dos sonhos de uma vida melhor, sem guerras, miséria ou violações dos direitos humanos.

O relatório da Adus enfatiza a subjetividade de cada refugiado:

“As experiências vividas anteriormente à fuga e o processo de reintegração têm implicações psicológicas que variam de acordo com cada pessoa. Nesse momento de transição do refugiado é importante existir a possibilidade de um apoio ou assistência que considere as especificidades de sua condição, sem torná-lo essencialmente vítima ou enquadrá-lo em um transtorno mental que necessita resposta imediata.”

Há três meses, a Adus desenvolve um projeto de saúde mental com psicólogos voluntários, com o objetivo de que cada refugiado ressignifique sua história. A equipe oferece atendimento gratuito de segunda-feira a sábado, com sessões de psicoterapia.

Os atendimentos podem ser feitos em português, francês, inglês e árabe. Há demanda por mais voluntários que falem árabe ou francês, informa a coordenadora do projeto, a psicóloga Bárbara Costa Ferreira.

Trabalho

O acompanhamento psicológico dos refugiados mostrou que o trabalho é a questão mais presente no discurso dos pacientes, diz Ferreira ao HuffPost Brasil.

“Tem toda a questão de deixar o próprio país de maneira forçada e encontrar muita diferença do país de origem. Muitos vêm sem a família, sem amigos e sem saber o idioma do novo local. A maioria dos refugiados não era morador de rua: Era engenheiro, professor, advogado. E aqui, passa a trabalhar como faxineiro, diarista, empregada doméstica, monta uma barraca no camelô, empregos que são desvalorizados no País. Com isso, sofre duplo preconceito: Por ser estrangeiro(a) refugiado(a) e pelo emprego que tem no Brasil.”

Um exemplo é o refugiado G., de 45 anos, da República Democrática do Congo. Ele é formado em Direito e Criminologia, mas só conseguiu emprego como porteiro de um hospital, segundo o relatório da Adus.

Ferreira lembra que muitos não conseguem emprego ou lugar para morar, e não há tempo para parar e pensar em todas essas grandes mudanças.

“Para falar de saúde mental, precisamos falar de política pública. Os refugiados são bem-vindos no Brasil, mas com que estrutura? Já chegam em uma condição vulnerável, sem conhecer ninguém, ou as leis e os direitos. É inevitável nos perguntarmos: se essas pessoas tivessem condições dignas de vida, estariam com uma doença mental?”

Como forma de garantir o próprio sustento, da família e também de familiares que ficaram no país de origem, muitos refugiados acabam aceitando trabalhos muito aquém de sua qualificação, inclusive em questões precárias.

Depois de escapar de uma execução na República Democrática do Congo por causa do trabalho em defesa dos direitos humanos, o professor Omana Ngandu pediu refúgio ao Brasil em 2013.

Quatro meses sem o protocolo e Ngandu acabou aceitando um emprego em um lava-rápido. Ele é formado em Letras e História da África.

“Foi um trabalho praticamente escravo, eu não tinha o que comer. Mas eu queria uma garantia do serviço, a carteira assinada”, ele conta ao HuffPost Brasil.

Mas o espírito empreendedor do congolês logo apareceu, especialmente no ano passado, quando ele conseguiu trazer para o Brasil a mulher e os cincos filhos que foram buscar proteção no Quênia.

Para custear os R$ 60 mil necessários para as passagens aéreas, em 2015 Omana deu aulas de francês e de cultura africana na ONG Adus, e criou uma campanha de financiamento coletivo.

família de omana
Omana e a família, que finalmente conseguiu refúgio no Brasil

Em abril deste ano, o congolês conseguiu concretizar o emocionante reencontro.

“Por muito tempo eu fiquei triste porque no começo não tive apoio, ficava muito sozinho, tinha problema de contas para pagar. Mas um amigo me ajudou e a Adus fez tudo pra mim. Eu sou muito grato ao seu país e ao seu povo.”

Com tantas referências novas, um trabalho psicológico voltado para a história do refugiado pode ajudar a manter sua identidade sem os estigmas de um suspeito ou de uma vítima, enfatiza o relatório da Adus sobre saúde mental. “É a partir da quebra dos estigmas que foram impostos ao refugiado e o reconhecimento simbólico da sua cultura que ele pode se exprimir e recomeçar sua história em um novo lugar.”

A Adus realizou um levantamento de instituições que oferecem atendimento psicológico aos refugiados. Conheça quais são:

Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado
São Paulo (SP)
Possui um programa de saúde mental com atendimento psicológico pontual e regular, oferecido em português, inglês, francês e árabe.

Cáritas Arquidiocesana de São Paulo
São Paulo (SP)
Atende refugiados em parceria com o Acnur e o Ministério da Justiça. Oferece assistência jurídica, social e psicológica.

Casa de Passagem Terra Nova
São Paulo (SP)
Oferece moradia durante um período de três a seis meses, com acesso a alimentação e aulas de português. A equipe é composta por profissionais de psicologia, direito e assistência social. Os psicólogos acompanham a evolução da situação dos refugiados e avaliam a necessidade de encaminhamento a tratamento individual, que pode ocorrer na Cáritas de São Paulo e no Instituto de Psiquiatria da USP

Grupo de Assessoria a Imigrantes e a Refugiados (Gaire)
Rio Grande do Sul (RS)
Possui equipe multiprofissional, com assistentes sociais e psicólogos, que avaliam as necessidades e possibilidades dos assessorados para dar encaminhamento a serviços do SUS ou de profissionais voluntários

Grupo Veredas
Casa do Migrante, São Paulo (SP)
Vinculado à Universidade de São Paulo (USP) e à PUC-SP, tem psicólogos formados, estudantes de psicologia e supervisores. Realiza intervenções duas vezes por semana e é o primeiro contato clínico com imigrantes e refugiados para muitos estudantes

Mais no Mundo
Colombo (PR)
Oferece atendimentos psicossociais individuais ou em grupo, além de atividades para promover a integração e adaptação, como passeios, aulas de cultura e português

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