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Um ano após ser baleado, haitiano quer ir embora: 'Tenho medo de morrer no Brasil'

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Hudson Prohete tinha 22 anos quando um terremoto de sete graus atingiu o Haiti, em 2010. Mais de 250 mil pessoas morreram no pior desastre ambiental do país caribenho. O sonho de Hudson de se tornar engenheiro foi adiado. A família perdeu tudo. Viviam de doações em Porto Príncipe. “Todos os haitianos que sobreviveram se sentiram órfãos de um país que não existe mais.”

Durante dois anos, Hudson foi atendente, pedreiro e taxista. Seu nome era trabalho, sem nenhuma moderação de tempo. “Eu aceitei cada oportunidade que surgia, juntei cada centavo. Meu sonho era vir para o Brasil porque diziam que tinha muito emprego por aqui”, conta. “Queria ter uma vida melhor, construir minha família e estudar engenharia.”

Com o dinheiro na mão, o jovem haitiano tentou por meses um visto de permissão na Embaixada Brasileira, em Porto Príncipe. Eram enormes filas de pessoas tentando a documentação para morar no Brasil. “Fiquei seis meses tentando o visto. Só conseguia quem tinha algum contato dentro da embaixada ou pagava algum representante”, afirma.

Prohete acabou influenciado pelas propostas dos coiotes, que rodeiam a região da embaixada. Eles garantem o “passaporte para uma nova vida” por nada menos do que US$ 5 mil dólares. “Eu não via alternativa. Era apostar nos coiotes ou ficar no Haiti”, explicou Hudson.

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Hudson Prohete deixou o sonho de se tornar engenheiro no Haiti após o terremoto que devastou o país

No dia 26 de abril de 2012, Hudson embarcou em um avião para o Equador, na América Latina. A primeira cidade foi Piura, no nordeste peruano. Em uma caçamba de um caminhão lotada de haitianos ilegais, Prohete viajou durante 14 horas sem comida e sem água até a capital Lima. De lá, mais 12 horas até a cidade de Cuzco. “Passei um dia todo em jejum. Só fui conseguir comer algo em Cuzco. Muitos amigos passaram mal, vomitaram. Era uma viagem sem fim”, relembra.

De Cuzco, Prohete viajou mais oito horas até Puerto Maldonado, bem ao sul peruano. Era o último trecho até a viagem final ao Brasil. Foi o momento mais crítico da viagem. Hudson tinha poucos dólares no bolso e os coites cobraram propina para cruzar a fronteira para a Bolívia. “Eu dei tudo o que tinha. Não podia ficar sozinho no meio do caminho. Não teria como voltar para o Haiti.”

Depois de 20 dias, Prohete chegou ao Acre com menos oito quilos e com uma mala pequena na mão. “As únicas duas palavras de português que eu sabia era São Paulo”, conta. No final de maio, quase um mês depois de deixar o Haiti, Hudson embarcou em um ônibus fretado pelo governo acreano. Ele chegou à capital paulista no anoitecer do dia 31 de maio de 2012. “Eu lembro da quantidade de pessoas na Barra Funda. Fiquei assustado de como a cidade era grande.”

Eu deixei toda a minha família para trás, mas aqui no Brasil fiz muitos amigos haitianos nos primeiros dias. Viramos uma família.

Assim como a maioria dos haitianos, foi na Missão da Paz, no bairro Glicério, zona central de São Paulo, o primeiro abrigo de Hudson na cidade. Dormiu em colchões improvisados, junto com centenas de conterrâneos que fugiram da extrema pobreza no Haiti. “Eu deixei toda a minha família para trás, mas aqui no Brasil fiz muitos amigos haitianos nos primeiros dias. Viramos uma família”, diz Prohete.

Dois meses depois, ele já estava empregado. A primeira assinatura na carteira foi um salário mínimo de R$ 622 em um trabalho de oito horas diárias na construção civil. Era ajudante de pedreiro em uma construtora. Com o dinheiro, Hudson conseguiu alugar um quarto em um prédio na Mooca, na zona leste de São Paulo, onde mora até hoje. “Eu me adaptei muito bem aqui. Os primeiros anos foram bons, sempre fui muito respeitado e até fiz amigos brasileiros”, conta.

Tudo mudou no dia 1º de agosto de 2015. Hudson saiu de casa e foi caminhando até a Igreja Missão da Paz para a escola dominical. No final da tarde, ele e mais quatro amigos haitianos sentaram na escadaria da igreja para conversar. Minutos depois, um carro cinza, em alta velocidade, cruzou a Rua do Glicério disparando tiros contra os haitianos. Hudson foi atingido no calcanhar esquerdo - os outros quatro amigos também foram baleados, todos na região das pernas.

“Eu ouvi de longe alguém gritando que os haitianos roubavam os empregos dos brasileiros”, conta Hudson. Foi a primeira vez que o jovem haitiano enfrentou o preconceito em solo brasileiro. "Me senti como se fosse um pedaço de carne sendo abatido. Esse é o momento que você entende que não vale nada no Brasil", lamenta.

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Hudson Prohete mostra o boletim de ocorrência do ataque que sofreu em São Paulo

Hudson foi o primeiro a ligar para a polícia naquele começo de noite, mas nenhuma viatura foi até o local. Feridos, foram negados em dois postos de saúde e dois hospitais. “Em todos os lugares, ouvimos a mesma desculpa: não tinham recursos para fazer a cirurgia.”

Foram 17 dias e 17 noites em que Hudson ficou com a bala alojada no calcanhar. Em meio a uma grave infecção, teve febre e foi levado às pressas ao Hospital Vergueiro, na zona sul de São Paulo. “Só quando eu estava muito mal consegui um atendimento decente”, reclama. “Depois de quatro anos no Brasil, conheci o jeito que o País trata o refugiado.”

A Justiça no Brasil é muito difícil. O bandido tem mais poderes que os policiais.

A investigação da Polícia Civil não resultou em nada. Nenhum processo foi aberto na Justiça. Quase um ano depois e diversas reportagens na mídia, as seis vítimas foram esquecidas. “A Justiça no Brasil é muito difícil. O bandido tem mais poderes que os policiais”, afirma.

Hoje, Hudson trabalha no setor de limpeza de uma rede de supermercados e faz bicos no horário vago. Assim como no Haiti, seu nome também é trabalho - sem nenhuma moderação. Mas, agora, o sonho não é mais o Brasil. “Eu quero ir embora e me mudar para o Chile. Ouvi dizer que lá, sim, os refugiados são bem tratados”, sonha. “Aqui no Brasil eu sinto medo todos os dias. Sou jovem e não quero morrer tão cedo”, conclui.

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