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Na Nigéria, ela foi atacada pelo Boko Haram por ser cristã. No Brasil, é discriminada por ser refugiada

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“Se eu não tivesse fugido, eu não estaria aqui falando com você.” Foi assim que começou minha conversa com Nkechinyere Jonathan, de 44 anos. Casada e mãe de quatro filhos, Jonathan tinha uma vida realizada na Nigéria. Era professora de inglês e ajudava a construir o futuro de meninos e meninas no povoado de Chibok, no nordeste do país. Na noite do dia 14 de abril de 2014, um grupo de homens armados invadiu o internato público e sequestrou 276 meninas.

Com sangue de anos acumulados nas mãos, o Boko Haram se tornava conhecido em todo o mundo, enquanto a vida de Jonathan se transformava em alvo. “Pela primeira vez, eu senti medo de ensinar. Não entendia como a religião poderia provocar tanto ódio entre as pessoas”, conta.

Jonathan é cristã, assim como a maioria dos moradores do sul e leste da Nigéria. O país de mais de 150 milhões de habitantes é dividido entre muçulmanos e cristãos. O território onde Jonathan ensinava inglês era dividido entre cristãos e muçulmanos, mas durante anos todos conviviam em paz, sem a presença do radicalismo religioso. “Nós sempre nos respeitamos. Nossas religiões sempre pregaram o amor ao próximo e convivíamos muito bem”, diz.

Para entender como Jonathan veio parar no Brasil, precisamos voltar lá no começo do século 20, em 1903. O norte na Nigéria não escapou da colonização inglesa na África, que impôs hábitos novos e a cristianização de vários países africanos. Depois de 113 anos, temos o mesmo quadro inicial: as famílias muçulmanas resistem à educação ocidental e se recusam a enviar seus filhos para escolas como a de Jonathan, organizadas pelo governo nigeriano.

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Foto: Victor Moriyama/Vidas Refugiadas

O ambiente de pobreza e desemprego que assola a Nigéria foi o terreno fértil, em 2001, para a criação do Boko Haram, que significa, na língua local, “a educação ocidental é proibida”. O objetivo era fundar um novo Estado Islâmico, desestabilizando o atual governo com estratégias terroristas de medo e pânico. O alvo: principalmente cristãos, como Jonathan.

Até o sequestro das nossas garotas, o mundo era cego para tudo o que acontecia conosco. Milhares morriam e nada era divulgado aqui no Ocidente.

Antes do sequestro das 276 meninas, a Nigéria já vivia uma onda de violência, com dezenas de ataques a escolas, igrejas, mesquitas e símbolos do governo. Um relatório da Human Rights Watch mostra que mais de quatro mil pessoas morreram em conflitos provocados pelo Boko Haram entre 2009 e 2015. Além disso, 650 mil civis precisaram fugir das suas casas e nada menos que 80 mil nigerianos viraram refugiados, espalhados por todo o mundo. “Até o sequestro das nossas garotas, o mundo era cego para tudo o que acontecia conosco. Milhares morriam e nada era divulgado aqui no Ocidente”, reclama Jonathan.

A professora de inglês desafiou o conflito e o ambiente de guerra do grupo extremista. Não parou de ensinar. A escola onde trabalhava pegou fogo, tudo foi perdido. Jonathan levou os alunos que restavam para dentro de uma igreja do povoado. A cada aula, uma resistência contra o regime terrorista e a cada palavra, um contra-ataque para quem preferia a guerra entre religiões a tolerância.

Das 15 professoras que ensinavam em Chiboka, apenas cinco conseguiram sobreviver. Jonathan estava entre elas, mas não sabia por quanto tempo. “Eles nos matavam todos os dias. Em cada ataque, faziam questão de deixar pelo menos um sobrevivente para contar o que aconteceu. Chegou um momento em que eu decidi fugir para proteger minha família e meu ex-marido”, conta.

Fui guiada pelas estrelas até Benin. Não tinha nenhum mapa, nada. Apenas continuei caminhando sem olhar para trás.

Com ônibus e carros sendo atacados de surpresa, a única chance de Jonathan sobreviver era fugir a pé. Por dentro de uma floresta fechada, ela caminhou até Benin, que faz fronteira ao oeste da Nigéria. Foram quatro dias e quatro noites de caminhada, com apenas três mudas de roupa em uma pequena mochila.

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Desempregada, Jonathan faz bicos como cabeleireira em Itaquera, na zona leste de São Paulo Foto: Victor Moriyama/Vidas Refugiadas

“Eu não sei explicar, mas fui guiada pelas estrelas até Benin. Não tinha nenhum mapa, nada. Apenas continuei caminhando sem olhar para trás”, afirma. No país vizinho, Jonathan conseguiu um visto de refúgio provisório para o Brasil. Os filhos, o marido e os alunos ficaram na Nigéria. “Eu não sinto que perdi essa batalha, mas decidi contar a história do que acontece no meu país de uma maneira diferente. Se ninguém se interessa sobre o que acontece na Nigéria, cabe a mim contar.”

Hoje, Jonathan mora em São Paulo, no bairro Itaquera, na zona leste. Está fazendo dois anos de nova vida. “A vida é feita de etapas. E aqui no Brasil eu estou vivendo mais uma delas, tentando aprender uma nova língua e conhecendo as pessoas.”

Assim que desembarcou por aqui, Jonathan começou a fazer fisioterapia para tentar amenizar o estresse que os quatro dias de caminhada provocaram nos seus pés. No ano passado, conseguiu o seu primeiro emprego. Trabalhava no setor de limpeza de um shopping na capital paulista. Neste ano, foi convidada a participar do projeto Vidas Refugiadas, que tenta dar visibilidade ãs mulheres que pedem refúgio no Brasil.

As pessoas te olham com desprezo e como uma aberração e acham que você precisa aceitar isso como um comportamento normal.

Nessa nova etapa, Jonathan começou a enfrentar um novo inimigo: “Aqui no Brasil eu enfrento todos os dias uma discriminação silenciosa, seja na rua ou no trabalho”, diz. “As pessoas te olham com desprezo e como uma aberração e acham que você precisa aceitar isso como um comportamento normal”, reclama.

No trabalho, Jonathan foi demitida depois de seis meses, sem justa causa. “Fui tratada mal desde o meu primeiro dia. Todas as minhas colegas receberam os equipamentos de segurança. Eu não recebi nem uma luva de proteção”, protesta. “E quando questionei o porquê da diferença, fui tratada com desprezo e demitida”, diz.

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Jonathan trabalhou no setor de limpeza de um shopping na zona leste de São Paulo, mas foi demitida sem justa causa. Foto: Victor Moriyama/Vidas Refugiadas

Enquanto luta por um novo emprego, Jonathan espera pelo fim do seu processo de refúgio no Brasil, que ainda não foi aprovado. Conta os dias para a primeira vez que não vai se sentir diferente andando pelas ruas do País. E também torce para o reencontro com o marido e os filhos.

"Ser uma refugiada e fugir por sua vida pode acontecer com qualquer um. Hoje, você vive em paz, amanhã não sabemos o que pode acontecer. Quando isso acontece, você não julga essa pessoa como uma criminosa, ou trata como uma alienígena. Todo mundo merece a liberdade que a vida pode dar.”

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