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Paulo Gustavo se desculpa por uso de 'blackface' em personagem: 'Não quero ser agente dessa dor'

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Na semana passada, o ator Paulo Gustavo publicou em seu Facebook uma foto em que aparece caracterizado de Ivonete, uma de suas personagens no programa 220 Volts, do canal Multishow.

A imagem gerou revolta de inúmeros seguidores do comediante nas redes sociais. E com razão, uma vez que Paulo Gustavo faz uso de blackface para dar forma à personagem – negra e pobre.

Essa técnica de maquiagem surgiu no século 16 e caiu em desuso na segunda metade do século 20.

Com ela, pessoas brancas pintavam a pele de tons escuros para imitar negros - sempre de forma caricata. A técnica não é mais usada justamente por ridicularizar a figura do negro e reforçar estereótipos racistas.

Depois das inúmeras críticas, Paulo Gustavo publicou no sábado (18) um texto assumindo sua falta de conhecimento sobre o assunto e o equívoco de fazer uso de blackface em pleno 2016. Ele ainda afirmou que vai refazer sua personagem.

O comediante inicia sua reflexão dizendo:

“Nesses últimos dias li, ouvi, pensei e entendi que há uma longa discussão sobre o uso de “blackface” muito anterior e muito maior do que eu, minha carreira, minha personagem e o 220 volts, por isso decidi refazer a Ivonete sem que ela pareça uma caricatura risível da mulher negra.”

No texto, o ator se reconhece que sua visão sobre uma mulher negra, mesmo que carregada de boas intenções, ainda é distante da realidade que só quem é mulher e negra conhece.

“Eu posso pintar minha pele, posso fingir, representar, tentar dar voz a essa mulher, mas eu nunca saberei de verdade como é ser uma mulher negra.”

Paulo Gustavo encerra o texto conectando questões como machismo, homofobia e racismo, dizendo que não tem a intenção de atuar como agente de nenhum desses crimes.

“Eu não quero de forma alguma ser agente dessa dor, corroborar com preconceitos e manter o status quo de uma sociedade que necessita melhorar. Todos nós precisamos conversar e pensar mais a respeito.”

Leia o texto de Paulo Gustavo na íntegra:

Nesses últimos dias li, ouvi, pensei e entendi que há uma longa discussão sobre o uso de "blackface" muito anterior e muito maior do que eu, minha carreira, minha personagem e o 220 volts, por isso decidi refazer a Ivonete sem que ela pareça uma caricatura risível da mulher negra. Ela não é. Ivonete é esperta, crítica, consciente e questionadora. É uma brasileira que passa por todas as dificuldades absurdas que todos passamos como a falta transporte eficiente, sistema de saúde precário, violência, etc etc etc... Ela se revolta, reclama, exige, sofre, mas não perde o rebolado, mantém-se de cabeça erguida, forte, guerreira e sobretudo alegre. Mas o blackface historicamente remete a experiências que são dolorosas para muitas pessoas e, mesmo não sendo a intenção, eu peço desculpas se ofendi ou magoei alguém. Eu posso pintar minha pele, posso fingir, representar, tentar dar voz a essa mulher, mas eu nunca saberei de verdade como é ser uma mulher negra. Nos textos, a alegria da personagem não fazia dela uma alienada, mesmo assim eu compreendi que a negra animada é um estereótipo que os movimentos negros combatem com razão pois na vida real, muitas vezes, não é nada engraçado. Apesar de conhecer e adorar muitas Ivonetes, ser negro no Brasil é difícil sim. Como ser mulher também é difícil; como ser gay também é difícil. Tanto na minha arte quanto na minha vida pessoal tenho feito o que posso pra tentar transformar o mundo num lugar melhor. Casei com o Thales, assumi isso publicamente, mudei minha certidão. Entendo que temos um grande processo de conscientização sobre o racismo, o machismo e a homofobia no Brasil e ele vem passando por etapas dolorosas. Eu não quero de forma alguma ser agente dessa dor, corroborar com preconceitos e manter o status quo de uma sociedade que necessita melhorar. Todos nós precisamos conversar e pensar mais a respeito. Eu tenho feito isso. Eu e a Ivonete. ❤️

Os seguidores elogiaram a atitude do ator. Em um dos comentários com maior número de curtidas, uma seguidora escreveu:

“Desculpas aceitas e justificadas: você cresceu socialmente com essa discussão. Não somos caricatas, mas mulheres negras com todas as nuances que a vida nos traz. Bem-vindo a esta reflexão!"

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