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'Fechar as fronteiras não resolve o problema', afirma ONU sobre crise dos refugiados

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REFUGEES
Luc Gnago / Reuters
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65,3 milhões de refugiados. Menos de dez mil no Brasil.

Os tristes números foram divulgados no relatório Global Trends (Tendências Globais, em tradução livre), publicado nesta segunda-feira (20) pelo Acnur, a Agência das Nações Unidas para Refugiados.

A cada minuto de 2015, 24 pessoas precisaram fugir. No ano passado, a cada 113 pessoas, uma estava se deslocando de maneira forçada. Pela primeira vez, a organização registra um número superior a 60 milhões de pessoas - homens, mulheres e crianças forçadas a deixar suas casas em razão da guerra ou de perseguições.

"No mar, um número aterrorizante de refugiados e migrantes está morrendo todos os anos; em terra, as pessoas fogem da guerra e encontram seu caminho bloqueado por fronteiras fechadas. Fechar as fronteiras não resolve o problema", afirma o Alto Comissário da ONU para os Refugiados, Filippo Grandi.

Refugiados no Brasil

A maioria dos refugiados atualmente no planeta é de nacionalidade síria: são 4,9 milhões. Desses, 2.298 estão no Brasil. No total, nosso País é casa para 8.863 refugiados, pouco mais de 0,01% dos mais de 65 milhões registrados hoje em dia.

Para Marcelo Haydu, diretor-executivo do Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus) o baixo número de refugiados em território brasileiro é explicado pela distância do Brasil dos principais focos de conflito hoje em dia, principalmente do Oriente Médio. Haydu afirma, no entanto, que há também pouca vontade política.

"Uma questão é poder, outra questão é querer. E o que a gente tem visto é que o Brasil não quer receber uma grande quantidade de pessoas", critica ele, que diz que já falta estrutura para os poucos refugiados que estão por aqui.

O Adus atende cerca de 500 refugiados por mês e, segundo Haydu, é mantido com doações. "É preciso que o governo tome mais as rédeas da situação e, se não quiser tocar isso de frente, que pelo menos dê condições para que façam. Uma coisa é elogiar o trabalho, outra coisa é por a mão no bolso e dar um trocado para ajudar", diz ele, sobre a atuação das ONGs e da sociedade civil na causa.

Tanto Haydu quanto o Padre Paolo Parise, do projeto Missão Paz, acreditam que o País pode aumentar o número de refugiados acolhidos e colaborar mais ativamente para a crise imigratória atual.

"Por muito tempo, foi ventilada a bandeira de que o Brasil está acolhendo, mas o papel não é tudo. Chegar como refugiado no Brasil é o primeiro passo, mas precisa de muitas outras coisas", comenta Parise. Desde o começo de 2016 a Missão Paz atendeu 5.503 pessoas, entre imigrantes, refugiados e solicitantes de refúgio.

Para Parise, o Brasil pode fazer mais, tanto em termos qualitativos quanto em termos quantitativos. "Podemos acolher mais refugiados e com mais qualidade."

Avanços e retrocessos

Haydu e Parise, no entanto, concordam ao dizer que, apesar de muita coisa que ainda falta para melhorar, o Brasil vêm avançando em alguns aspectos, principalmente por meio de ações pontuais e da política de "braços abertos".

"O Brasil tem estado na contramão dos países do mundo que têm se fechado cada vez mais, e a gente espera que o País não dê esse passo, principalmente no caso dos sírios", comenta Haydu sobre o imbróglio de que o governo interino teria interrompido as negociações para reassentar cem mil refugiados sírios, que viriam da União Europeia. "Se acontecer, vai ser um retrocesso enorme."

Como principais avanços, eles citam a agilidade e desburocratização no processo de reconhecimento do refúgio, algumas ações que visam a facilitar a inserção dos refugiados no mercado de trabalho e a criação de abrigos, principalmente na cidade de São Paulo.

Parise afirma que falta apoio para que os refugiados se acostumem também com as nuances do dia a dia brasileiro. "Além dos cursos de português, precisamos de ferramentas de inserção interculturais, que são praticamente ausentes. Os refugiados se queixam que não foram ajudados a entender a cultura brasileira, e essa reclamação vem principalmente dos africanos", explica.

Geografia

Segundo a ONU, apenas 14% dos refugiados procuraram refúgio na União Europeia, contra 86% que estão em países de baixos e médios rendimentos fora da UE.

A Turquia, junto com o Paquistão e o Líbano, está à frente no ranking de países que mais acolheram refugiados temporariamente em 2015. Ao longo do ano, a Alemanha voltou a encabeçar a lista de países que mais pedidos de asilo aceitou, seguida dos Estados Unidos e da Suécia.

Já o Brasil figura entre as nações menos solidárias com a crise, de acordo com uma reportagem publicada pelo Estadão.

"Para cada mil brasileiros, existe apenas 0,04 refugiado no País, uma das menores taxas do mundo. Em contraste com o Líbano, onde há mais de 180 refugiados para cada mil pessoas", afirma o texto.

De acordo com essa métrica, o Brasil fica em 137º lugar em uma avaliação que considera 197 países. Ao considerar o número de refugiados em relação ao território brasileiro, o País cai para a 148ª posição.

"Embora fale-se muito de crise, o Brasil é uma potência mundial, e há dinheiro dentro do País. O Brasil é um país enorme em território, então dá para trazer mais gente para cá. Nesse sentido, eu concordo com o Anur: o Brasil tem condições de receber mais pessoas e oferecer uma estrutura digna para que essas pessoas recomecem", diz Haydu.

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