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Este livro de 400 anos atrás pode ser a primeira ficção científica de todas

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The Chemical Wedding, descoberto originalmente no início do século 17, está sendo republicado pela Small Beer Press

A ficção científica é um reino vasto. Abrange feitiços poderosos, monstros criados pelo homem, passeios pelo espaço e especulações pessimistas sobre o futuro.

É uma tradição rica em história, marcada por autores que previram de modo preciso e imaginativo as novas tecnologias e como elas moldam a vida humana.

Deixando a precisão de lado, o gênero tem o poder de sugerir como o futuro pode se realizar, fomentando soluções para os problemas da sociedade. E, no cerne desses objetivos políticos, a ficção científica é um espaço para a simples partilha de histórias, para entreter os leitores e conferir um toque de sentido adicional às suas vidas.

Onde e como esse gênero prolífico nasceu? Que história ou histórias animaram outros escritores nascentes que, então, plantaram as raízes de um futuro cânone respeitado? Depende de a quem se faz a pergunta.

O Último Homem (The Last Man), de Mary Shelley, livro pós-apocalíptico sobre uma tripulação errante, é visto com frequência como tendo sido o primeiro romance de ficção científica, mas é difícil defender essa alegação, mesmo porque “ficção científica” e “romance” são termos descritivos em relação aos quais existem divergências.

livro

Quem está apresentando uma nova candidata a obra fundadora do gênero da ficção científica é a editora independente Small Beer Press, comandada por Gavin J. Grant e a escritora de fantasia literária Kelly Link.

Em conjunto com outro autor do gênero fantástico, John Crowley, eles estão lançando uma nova edição de um livro de 400 anos de idade que dizem que pode ter sido o primeiro romance de ficção científica da história.

A editora lançou uma campanha no Kickstarter para publicar uma edição do livro em capa dura, com design bem-feito. Já está sendo impressa uma edição em brochura.

Publicado originalmente em 1616, The Chemical Wedding (título original: Chymical Wedding of Christian Rosenkreutz; "o casamento químico", em livre tradução), é a história de um homem convidado a assistir a um casamento.

A narrativa é cheia de humor bizarro, elementos sobrenaturais e alquimia – é graças a esta última que o texto pode ser visto como ficção científica --, vista na época como uma tecnologia com efeitos demonstráveis.

Defendendo que o livro é ficção científica inequívoca, Crowley escreveu na página do Kickstarter: “A alquimia era uma ciência... na medida em que tinha uma imagem geral do mundo material e um método racional para formular hipóteses e investigar essas hipóteses.

Era ciência, também, no sentido em que aquilo que procurava descobrir sobre o mundo iria implicitamente ampliar as possibilidades e os poderes humanos práticos.”

Para o leitor de 1616, encontrar este livro era como comprar um bilhete da loteria: sua vida poderia ser transformada profundamente se ele decodificasse o texto. Gavin J. Grant, editor da Small Beer Press

Grant concorda que a descrição se sustenta, mesmo que alguns estudiosos questionem sua validez. “É claro que isso requer que você aceite sua definição de ficção científica e até da palavra ‘romance’”, ele disse ao Huffington Post em e-mail.

“A República de Platão é um romance? Se sim, é seu primeiro romance de ficção científica. Mas, como é amplamente aceito que o primeiro romance foi Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, a primeira parte do qual foi publicada em 1605, o argumento de John Crowley parece ter uma base de sustentação.”

Independentemente de The Chemical Wedding ter sido realmente o primeiro de seu gênero, o livro proporciona uma visão interessante das crenças de quem o leu na época. Ao longo de sete dias o protagonista, Christian Rosenkreuz, explora as maravilhas estranhas do castelo onde terão lugar as bodas de um rei e uma rainha.

Grant diz que, na época em que saiu, o livro foi visto por seus leitores como uma espécie de objeto místico. “Os leitores acreditavam que existia uma sociedade secreta que controlava tudo – algo que faz pensar nos Illuminati – e que, se o leitor conseguisse decodificar textos como The Chemical Wedding, talvez pudesse extrapolar sua vida mundana e descobrir os segredos da vida, felicidade e prosperidade.”

“Para o leitor de 1616, encontrar este livro era como comprar um bilhete da loteria: sua vida poderia ser transformada profundamente se ele decodificasse o texto. Mas o mais provável é que o prazer estaria na leitura (ou seja, na compra do bilhete de loteria), e não no prêmio (altamente improvável).”

Crowley, Grant e Link esperam que, com o acréscimo de notas de rodapé e ilustrações, sua versão do livro contextualize o texto para o leitor contemporâneo. Eles esperam que o leitor possa apreciá-lo não apenas como artefato histórico, mas que consiga encará-lo como encararia um livro contemporâneo, mergulhando na humanidade do personagem principal.

“A maioria de nós é um pouco como Christian”, explicou Grant. “Nos interessamos pela grande aventura; às vezes chegamos a tomar parte nela e a mergulhar em bolsões de estranheza, deleites e problemas, mas no final voltamos para casa, transformados pelo que vivemos, mas ainda sendo quem éramos.”

Você pode doar para a campanha da Small Beer Press no Kickstarter aqui e pode ler uma amostra do livro aqui.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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