Huffpost Brazil

Não entendemos o que a campanha machista da aspirina tem a ver com a aspirina

Publicado: Atualizado:
ASPIRINA
reprodução/facebook
Imprimir

Em 2013, uma jovem de 17 anos se suicidou. Ela não aguentou ver seu corpo exposto nas redes sociais não somente por seus colegas de escola, mas também pelo País inteiro em um vídeo de sexo que vazaram. Ela não suportou a dor de cabeça.

Há menos de um mês, outra garota de 17 anos teve a sua identidade exposta na internet. Ela estava deitada desacordada e imóvel em uma cama, suas pernas e partes íntimas tinham marcas de sangue e, enquanto isso, diversos homens a tocavam sem o seu consentimento. Ela disse que foi estuprada por 33 homens em 26 de maio de 2016. A dor de cabeça dela não vai passar nunca.

No Brasil, 81,5 milhões de pessoas com mais de 10 anos acessam a internet pelo celular. 92% dos jovens estão nas redes sociais. 76 milhões de pessoas são usuárias das redes.

De acordo com a pesquisa Violência contra a Mulher: o Jovem está ligado, realizada pelo Instituto Avon e Data Popular, 59% dos homens receberam fotos ou vídeos de mulheres nuas desconhecidas; 41% dos homens receberam fotos ou vídeos de mulheres nuas conhecidas e 28% repassaram essas imagens para outros homens. A sensação de "anonimato" e "impunidade" cria a ilusão de que a internet é uma terra sem lei. Mas divulgar imagens íntimas sem consentimento é crime.

Apesar disso, estamos em 2016 e há quem acredite que estampar a frase "Calma amor, não estou filmando isso" em uma peça publicitária deve ser lido como uma piada.

E a ideia aparentemente foi considerada genial.

Trata-se de uma peça publicitária produzida pela agência AlmapBBDO e aprovada pelo cliente Bayer, que almejava dizer que o produto aspirina seria capaz de curar qualquer dor de cabeça, inclusive aquela causada por quem comete crimes como vazar conteúdos impróprios na internet.

A publicidade foi premiada no evento Cannes Lions 2016, um dos mais importantes da categoria, e ainda contém mais dois anúncios com as frases: "Relaxa, até parece que estou gravando isso" e "Tá tudo bem, não estou anotando nada".

O presidente do júri foi o brasileiro Ricardo John, da J. Walter Thompson. Em entrevista a Adweek, ele disse que a banca, que contava também com o voto de 7 mulheres, foi muito cuidadosa em remover qualquer campanha de cunho sexista e que não interpretou que essa campanha fosse ofensiva.

Não faz sentido. Em um país - quiçá mundo - em que a cultura do estupro é diariamente reforçada, que outra leitura então poderia ser feita dessas mensagens? Simplesmente não entendemos o que a campanha da aspirina tem a ver com a aspirina.

Independentemente das interpretações possíveis, o fato é que as peças vieram a público. E uma vez nas redes, ficou claro que o mercado publicitário parece carecer cada vez mais de bom senso e empatia. Por outro lado, possíveis vítimas e, olha que interessante, alvos consumidores do produto em questão fizeram coro para repudiar a campanha machista e sexista.

As discussões provocadas na internet levaram a agência de publicidade a pedir a retirada das peças do concurso e abrir mão das premiações conquistadas.

Mais do que uma ofensa, o ~manda nudes~ é uma morte em plena vida. E esses "assassinatos virtuais" deixam consequências tão graves que, se a vítima não opta pelo suicídio, conviverá com esse fato por toda a sua história. E essa dor de cabeça não tem cura fácil.

Outro lado

Em nota oficial, o cliente Bayer desautorizou qualquer divulgação da campanha.

“A agência apresentou o conceito para a empresa no Brasil, assim como de outras campanhas que pretendia exibir no festival Cannes Lions deste ano. A veiculação foi de responsabilidade da agência, a fim de atender os requisitos para submissão em Cannes. A Bayer solicitou à AlmapBBDO a descontinuidade da campanha bem como a divulgação, promoção subsequente ou adicional do anúncio.”

A agência também se posicionou:

"A AlmapBBDO lamenta que o anúncio de Aspirina, do nosso cliente Bayer, tenha causado constrangimentos e esclarece que não houve a intenção de tratar com indiferença abusos de qualquer natureza. Repudiamos a prática de filmagem não consensual e qualquer espécie de violência ou invasão de privacidade. Ficaremos atentos para evitar o problema no futuro. Por essa razão, já entramos em contato com a direção do Festival de Cannes e solicitamos a retirada imediata das peças de nosso cliente Bayer.”

LEIA MAIS:

- Três acusados de estupro coletivo no Rio têm prisão decretada

- Ao ditar questão em prova para MP do Rio, promotor diz que estuprador 'ficou com a melhor parte'

- 'O cuidado agora é pra que ela não se machuque ainda mais', diz advogada de jornalista demitida do iG após assédio

Também no HuffPost Brasil

Close
#PorTodasElas: Elas dizem NÃO ao machismo
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção