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Uma boa relação entre pais e filhos não tem a ver com perfeição

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Sally Anscombe via Getty Images
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O relacionamento de uma criança com os pais ou tutores tem um grande impacto em sua saúde mental, mas, felizmente, mamães e papais não precisam ser “perfeitos” — um vínculo “bom o suficiente” é tudo do que necessitam.

Relacionamentos fortes foram o foco da Semana de Conscientização sobre Saúde Mental, e isso é especialmente importante para os pais, porque, de acordo com a Fundação de Saúde Mental:

“O apego que uma criança tem com o pai ou tutor é um indicador central para a saúde mental e bem-estar, bem como a satisfação do relacionamento, durante a idade adulta.”

“Durante a infância e adolescência, aprendemos a nos envolver com outras pessoas por meio de nossos pais, famílias e tutores, e esta socialização inicial define como entendemos e moldamos o comportamento de construção de relações ao longo da vida.”

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O que constitui uma “relação forte”?

“A chave para cuidar da saúde mental da criança é nutrir o tipo de relacionamento que, quando eles estiverem com um problema, chateados ou estressados, automaticamente pensarão em ter uma conversa com você”, explica Emma Saddleton, coordenadora do serviço de apoio aos pais da ONG Young Minds.

“As crianças precisam ter uma conexão com alguém que representa ‘segurança’. Não importa se a pessoa é a mãe, pai, um cuidador ou avô, mas realmente sabemos que é necessário haver uma conexão significativa com um adulto, no mínimo.”

No entanto, se tudo isso apenas faz você pensar na última vez que levantou a voz ou foi para a cama sem perguntar ao seu filho como foi o dia dele, não tenha medo — um bom relacionamento não tem a ver com perfeição.

“Não existe isso de ser um pai ou mãe perfeitos, o relacionamento com os filhos precisa apenas ser ‘bom o suficiente’ para fazer diferença em sua saúde mental”, diz Bernadka Dubicka, vice presidente do departamento de psiquiatria infantil do Royal College of Psychiatrists.

tempo

Como construir um relacionamento forte com seus filhos?

Esteja disponível

“Ter tempo para o relacionamento com os filhos é essencial”, explicou Jonathan Wood, gerente nacional da organização Place2Be para o País de Gales e Escócia.

“Todo mundo é muito ocupado, mas o que as crianças precisam mais do que qualquer outra coisa são o contato e conexão com os pais ou principais cuidadores”, diz Wood.

“Então, qualquer tempo que as pessoas possam passar com os filhos, brincando e saindo com eles, vale ouro.”

Mas entenda que não há problema em não estar sempre disponível

“É importante reconhecer que, à medida que as crianças envelhecem e a vida fica mais confusa, sempre haverá distrações”, diz Saddleton, da YoungMinds.

“Não coloque expectativas inatingíveis sobre si mesmo. Pode ser irrealista sentar-se por meia hora sozinho com cada filho todas as noites, mas isso não significa que você não possa encontrar tempo para ouvir suas crianças”, continua Saddleton.

“Pode ser que, quando tenha de levar sua filha na escola, consiga 10 minutos sozinha (o) com ela. Esse tempo pode se tornar precioso quando começarem a conversar sobre todas as coisas que ela irá fazer naquele dia.”

“Ter um estilo de vida caótico e ser constantemente interrompido não irá criar uma ligação insegura para seus filhos, porque, na verdade, as interações são rompidas o tempo todo; por isso, a marca de um cuidador realmente sensível é a de alguém que administra e conserta aquelas rupturas.”

Reaja rápido

“Consertar essas rupturas” inclui estar atento aos sinais de seu filho: saber o que é normal em relação a ele ou ela e ser capaz de identificar mudanças de comportamento, o que pode significar que eles precisam de um tempo sozinhos com você.

“Para os que estão na faixa dos 14 anos, passar bastante tempo longe da família jogando Xbox ou ficar no Facebook é totalmente normal”, diz Saddleton.

“Mas, se o adolescente sempre foi falante em casa, e então se fecha, é uma mudança marcante de comportamento, valendo a pena checar se está tudo bem.”

Reagir rápido também envolve ouvir atentamente seus filhos.

“Se o que está incomodando seu filho é captado e escutado, então a criança continuará a acreditar que poderá buscar ajuda com os pais”, explica Wood.

“Mas, se você não der atenção, então seu filho não contará mais nada. Você precisa proporcionar o tipo de relacionamento onde seu filho de fato sente que está sendo escutado, para sentir que está sendo levado a sério.”

Comunicação é mais do que palavras

Olho no olho tem muito poder”, aconselha Saddleton.

“Mesmo para os recém-nascidos, o contato visual com o principal cuidador proporciona conforto e cria um vínculo.”

Além disso, embora algumas crianças fiquem contentes em falar sobre si mesmas, outras podem ter mais facilidade em se expressar de outras maneiras.

“Tente conhecer seu filho em um nível individual”, recomenda Joanna Silver, especialista do Nightingale Hospital.

“Se eles gostam de desenhar, então peça que desenhem como estão se sentindo ou, se preferem brincar, dramatize um papel para que possa criar um vínculo com eles.”

Faça Perguntas

“Perguntar a uma criança como foi seu dia tem sido um gesto simples, mas poderoso em termos de fazer com que saibam que terão uma conexão frequente”, diz Saddleton.

“Quando você percebe mudanças de comportamento, pergunte a eles sem ser punitivo. Não diga: ‘O que há de errado com você?’. Em vez disso, pense sobre o que pode estar acontecendo na vida deles no momento — se há algo que possa estar deixando seus filhos inquietos, tais como problemas com amizades ou provas — e pergunte sobre isso.”

Envolva-se

O professor Peter Fonagy, presidente do Anna Freud Centre, explica que construir um forte relacionamento envolve se interessar ativamente pelos hobbies de seus filhos e preferências.

“Junte-se a eles em sua jornada diária ao longo da vida”, recomenda. “Assim como a maioria de nós aprecia ser acompanhada em nossas experiências, os filhos apreciam seu interesse no que eles fizeram, sobre o que se sentem orgulhosos e sobre o que se preocupam”, diz Fonagy.

Seja rigoroso(a) quando necessário

Não se sinta culpado(a) se você tiver de repreender seu filho ou estabelecer algumas regras rígidas que o aborreçam — construir um forte relacionamento é mais do que ser uma pessoa legal.

“Ser pai é, em parte, estabelecer limites, pois isso permite que as crianças desenvolvam resiliência e uma saúde mental de fato forte”, explica Saddleton. “As crianças prosperam com rotina e consistência”.

“Como pai ou mãe, se você notar que está constantemente repreendendo, pode achar que não está agindo corretamente. Mas isso é exatamente como um vínculo seguro deve ser. Tem a ver com encontrar o equilíbrio entre ser amigo e um pai ou mãe com autoridade.”

Silver, do Nightingale Hospital, acrescentou que é importante ajudar as crianças a entender por que você está impondo regras.

“Explicar que as regras existem não apenas como punição, mas para sua própria segurança e desenvolvimento, dará às crianças uma sensação de que você está trabalhando ao lado delas, e não contra elas”, disse.

Mas nem sempre proteja os filhos de si mesmos

Querer evitar que os filhos cometam erros é natural, mas pode tirar deles a chance de aprender com os próprios equívocos.

“Estabelecer limites é crucial, mas, ao mesmo tempo, é importante escolher suas batalhas cuidadosamente”, alerta Dubicka.

“Deixe que as crianças aprendam com seus erros às vezes.”

“Dê a elas alguma autonomia e não seja supercontrolador. Educar com muito controle pode levar ao aumento da ansiedade e/ou a batalhas desnecessárias. É um equilíbrio difícil, mas apenas precisa ser bom o suficiente.”

Exponha suas fraquezas

Assim como aprender com os próprios erros, os filhos também precisam aprender com os dos pais.

“Quando um pai comete um erro, é importante que ele peça desculpas e diga: ‘Eu estava errado’, pois isso ensina às crianças que os erros não são insuperáveis”, disse Silver.

“Se as crianças aprenderem que não há problema em cometer erros e que é a maneira pela qual você lida com eles que importa, então vão se sentir seguros de que o relacionamento de vocês é estável, e isso estabelecerá as bases para que construam relações saudáveis no futuro.”

E respire

“Existe um ciclo muito vicioso que pode vir a dominar o relacionamento entre pais e filhos, assim como qualquer outro relacionamento”, alerta Fonagy.

“Sentimentos intensos, particularmente de raiva ou ressentimento, em uma pessoa provavelmente vão desencadear intensas emoções na outra, tornando muito difícil que um trate o outro com empatia ou simpatia.”

“Embora tais episódios sejam inevitáveis em qualquer relacionamento, na relação pai e filho, cabe ao adulto maduro ir além daquela situação específica e não apenas reagir, mas também pensar”, acrescenta.

“Parar para refletir sobre o contexto mais amplo do que está acontecendo na vida da criança, que outras coisas podem estar chateando seus filhos, também pode ajudar a conter uma escalada do conflito.”

“Não é difícil ser um bom pai ou mãe, mas é impossível ser um bom pai ou mãe o tempo todo”, Fonagy concluiu. “Devemos nos esforçar para sermos bons o máximo possível na maior parte do tempo possível — em outras palavras, apoiar o filho.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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